Aos 84 anos, a rede que manda no varejo da Amazônia desafia gigantes e fatura R$ 4,3 bilhões
Levantamento do Instituto Retail Think Tank coloca a Bemol na 58ª posição entre as 300 maiores varejistas do país

As300 maiores varejistas do Brasil cresceram 8,6% em 2025, segundo o Instituto Retail Think Tank (IRTT). No Amazonas, três empresas entraram na lista e somaram 8,3 bilhões de reais em vendas, o equivalente a 0,6% do total.
É quase um empate técnico com o Pará, que lidera o Norte com 8,4 bilhões de reais.
A maior delas é a Bemol.
A rede fechou o ano com 4,3 bilhões de reais em vendas e 80 lojas em quatro estados, no segmento de eletromóveis — categoria que reúne eletroeletrônicos e móveis e responde por 6,9% das vendas das 300 maiores do país.
É a maior varejista do setor com sede na região Norte.
O ranking chega em um momento em que a Bemol comemora 84 anos e opera longe do que era há uma década: além das lojas de departamento, a companhia hoje tem farmácias, mercados, loterias, uma clínica e uma operação de crédito própria.
A empresa projeta manter em 2026 um ritmo de crescimento entre 10% e 12%, sem planos imediatos de abrir lojas fora da Amazônia, e concentra os investimentos em crédito, farmácia e logística fluvial.
Quais são as maiores varejistas do Amazonas
O bloco amazonense do ranking é diverso. Cada uma das três empresas atua em um segmento diferente.
- Bemol: 4,3 bilhões de reais
- Super Nova Era: 3,3 bilhões de reais
- Grupo Tapajós: 687 milhões de reais
A Bemol é de eletromóveis, o Super Nova Era é supermercadista e o Grupo Tapajós opera farmácias.
O destaque de crescimento não é a líder. O Super Nova Era avançou 35% em 2025, quatro vezes a média nacional do setor, e se tornou a varejista que mais cresceu no Norte no período. A Bemol cresceu 8%.
Há uma ressalva de leitura. Os números do IRTT medem vendas do varejo e não detalham a composição da receita de cada rede.
A Bemol declara faturamento acima de 5 bilhões de reais em 2025, com alta de 11,1% sobre 2024, quando registrou 4,5 bilhões de reais. O número analisado pelo IRTT é do braço de varejo.
Qual é a história da Bemol
A história começa com uma falência.
Isaac Benchimol, filho de imigrantes judeus marroquinos que chegaram à Amazônia no século 19, trabalhou nos seringais do interior e terminou o ciclo da borracha endividado. A família voltou para Manaus no início dos anos 1930, e Isaac passou a prestar serviços de contabilidade para outras empresas.
Em 1942, vendo o filho Israel insatisfeito no emprego, Isaac juntou os poucos recursos que tinha para bancar o negócio dos filhos.
Em 13 de agosto daquele ano nascia a Benchimol & Irmãos, sociedade entre Samuel, Israel e Saul, com representação de produtos farmacêuticos.
Samuel, que dava nome ao futuro grupo, dividia o dia entre a faculdade e o trabalho. Começava às três da madrugada como despachante, entrava na faculdade às sete, cuidava dos negócios do irmão à tarde e lecionava economia política à noite. Ele viraria professor emérito da Universidade do Amazonas, onde deu aula por mais de 50 anos e criou a cadeira de Iniciação à Amazônia.
O salto para o varejo veio de um produto específico: as máquinas de costura New Yorker, importadas do Japão. Eram mais baratas que as da concorrente Singer e tinham design mais atraente, segundo o registro do projeto Pioneiros & Empreendedores, da FEA/USP.
A liderança nesse item levou os irmãos a multiplicar pontos de venda em Manaus nos anos 1960 e a abrir as Lojas Bemol.
A criação da Zona Franca de Manaus, em 1967, redefiniu o negócio. Com o polo industrial atraindo fabricantes de eletrônicos para a cidade, a Bemol passou a vender televisores, geladeiras e aparelhos de som em um mercado onde esses produtos eram difíceis de encontrar no restante do país.
A empresa também se moveu para fora do varejo. Em novembro de 1964 comprou a Gazônia, principal concorrente na distribuição de gás de cozinha em Manaus, e firmou domínio nesse mercado. Em 1969 expandiu para outros estados.
Durante décadas o modelo se concentrou em lojas físicas e em uma ferramenta que virou marca registrada da casa: o crediário próprio, que permitia a clientes sem acesso a banco parcelar a compra de um eletrodoméstico.
A companhia teve três presidentes em mais de oito décadas, todos da família. O atual é Denis Benchimol Minev, neto de Samuel, que assumiu ao lado de Marcelo Forma na vice-presidência.
Qual é a estrutura da rede
Hoje a operação combina centros de distribuição, mais de 250 caminhões, transporte fluvial com barcos parceiros, parceiros locais e pontos de retirada.
O e-commerce responde por 17% das vendas. A empresa afirma atender todo o Amazonas.
Além disso, para aumentar a frequência da relação com o cliente, a empresa decidiu entrar no canal farma. A Bemol Farma cresceu até virar parte relevante das vendas. A companhia opera 37 lojas de departamento, 45 farmácias, três mercados, 22 loterias, uma clínica e 23 agências de serviços financeiros, além do site.
No crédito, o crediário analógico virou operação digital.
A Conta Bemol oferece parcelamento, empréstimo pessoal, crédito com garantia imobiliária e um crediário parceiro aceito em cerca de 10 mil estabelecimentos fora da rede. A empresa informa ter chegado a 760 mil contas ativas e a uma carteira de crédito de dois bilhões de reais, com meta de 1 milhão de contas.
A aposta em crédito, porém, corre em um cenário de endividamento alto. O índice de famílias endividadas no país chegou a 81,6% em maio de 2026, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio.
