Aos 92 anos, Cultura Inglesa investe R$ 90 milhões para abrir colégios e transformar o negócio
Instituição acelera franquias, avança no ensino bilíngue e entra no mercado de colégios próprios para reduzir a dependência dos tradicionais cursos de inglês

RESUMO +
A rede de ensino de inglês Cultura Inglesa planeja investir cerca de R$ 90 milhões para abrir seis colégios próprios em três anos, após lançar unidades na Mooca e na Vila Mariana, em São Paulo. A estratégia inclui franquias, ensino digital e sistemas bilíngues para reduzir a dependência dos cursos de inglês, hoje responsáveis por 82% da receita.
Aos 92 anos, a Cultura Inglesa está tentando resolver um problema comum a empresas bem mais jovens: encontrar novas formas de crescer.
Durante décadas, a resposta esteve praticamente em um único negócio, o ensino de inglês. Há quatro anos, essa operação respondia por praticamente 100% da receita. Hoje, representa cerca de 82%.
A mudança não aconteceu apenas por escolha. O mercado tradicional de escolas de idiomas já vinha perdendo força antes da pandemia e passou a enfrentar mais concorrência de escolas bilíngues, professores particulares, plataformas digitais e novas tecnologias. A Cultura Inglesa também sentiu o impacto, com queda no número de alunos e na receita.
“Eu brinco que a Cultura Inglesa tinha que ser uma senhora startup”, diz Diniz. “Ela tinha que repensar o core, ajustar as novas avenidas e criar uma nova avenida potente de negócio, que é o colégio.”
A estratégia para fazer isso passa por diferentes frentes: franquias, ensino digital, novos produtos, sistemas bilíngues para escolas e, agora, uma aposta de R$ 90 milhões para entrar em um mercado de colégios próprios.
A missão de conduzir essa transformação está nas mãos de Diniz há pouco mais de dois anos. O executivo acumula quase 20 anos no mercado de educação e, antes da Cultura Inglesa, passou quase onze anos na Cruzeiro do Sul Educacional, período em que acompanhou a entrada de fundos de investimento e o IPO da companhia.
Nos últimos quatro anos por lá, comandou a vertical de educação a distância. Também fez parte do conselho de administração do CNA, rede de escolas de idiomas, antes de receber o convite para assumir a Cultura Inglesa.
De 59 escolas próprias a 65 franquias
Diniz chegou à Cultura Inglesa há pouco mais de dois anos com a missão de rever a estratégia da instituição. O executivo acumula quase duas décadas no setor de educação e passou cerca de 11 anos na Cruzeiro do Sul Educacional, onde acompanhou a entrada de fundos de investimento e o IPO da companhia.
Na Cultura Inglesa, encontrou uma marca conhecida e uma estrutura consolidada, mas inserida em um mercado que havia mudado.
A primeira tarefa foi ajustar o negócio tradicional. Além de apostar no digital — cerca de 10 mil dos 45 mil alunos das unidades próprias já estudam remotamente —, a instituição criou produtos complementares, como cursos de férias e aulas particulares reformuladas. Também prepara uma oferta voltada ao público com mais de 60 anos.
Mas o principal motor de expansão do core passou a ser o franchising.
A Cultura Inglesa começou a acelerar o modelo no fim de 2024. Hoje são 59 unidades próprias e 65 franquias em operação. Outras estão em implantação, e cerca de 90 franquias já foram comercializadas.
A meta é chegar a aproximadamente 300 unidades até 2030. Nos primeiros dois anos, foram vendidas entre 40 e 45 franquias por ano.
Diniz atribui a velocidade inicial a dois fatores: a força de uma marca que só recentemente passou a apostar de maneira mais agressiva no franchising e o espaço ainda disponível para expansão.
“Meu mapa está limpo. Enquanto concorrentes já ocupam diversas regiões, a Cultura Inglesa ainda encontra locais disponíveis até mesmo em grandes cidades", diz o CEO.
A rede trabalha com diferentes tamanhos de franquias. Há desde um formato compacto, pensado para funcionar dentro de colégios, faculdades e clubes, até escolas maiores. A maior parte das 65 operações atuais está entre os modelos pequeno e médio, com capacidade para cerca de 300 a 650 alunos. O menor modelo é uma microfranquia de 60 metros quadrados, com duas salas de aula e investimento a partir de R$ 110 mil. Uma unidade de 300 metros quadrados tem aporte inicial de R$ 380 mil.
Crescer, mas com o pé no chão
WIlson Diniz, CEO da Cultura Inglesa: executivo lidera expansão da marca para além do curso de idiomas (Cultura Inglesa/Divulgação)
O começo acelerado não significa que o ritmo esteja garantido.
A Cultura Inglesa pretende manter uma meta próxima de 40 vendas de franquias no próximo ano, mas Diniz afirma que percebeu uma mudança no comportamento dos investidores nos últimos meses. Com juros elevados e maior cautela na tomada de decisão, os negócios estão demorando mais para fechar.
“Vamos manter nossos planos para o ano que vem em torno de 40 vendas. Mas vamos ter o pé no chão”, afirma.
As franquias ainda representam entre 7% e 8% do volume total da organização e estão em processo de maturação. No ensino de inglês, a rede soma cerca de 60 mil alunos: 45 mil nas unidades próprias e 15 mil nas franquias.
Outra frente que ganhou tamanho é a venda de sistemas bilíngues para escolas. São aproximadamente 110 instituições parceiras, com 25 mil alunos. A Cultura Inglesa fornece o sistema de ensino e também acompanha e treina os professores das escolas.
Essa vertical já responde por cerca de 10% do faturamento.
Há ainda a Faculdade Cultura Inglesa, com aproximadamente 500 a 600 alunos em cursos de graduação, pós-graduação e extensão. Nesse caso, a função é menos financeira. Diniz define a faculdade como uma operação “boutique”, voltada à formação de professores, pesquisa e reforço da reputação da marca em educação.
A aposta de R$ 90 milhões
A maior novidade da estratégia, porém, está fora das tradicionais escolas de idiomas.
A Cultura Inglesa decidiu entrar no ensino básico com colégios próprios, do infantil ao fundamental. As duas primeiras unidades foram lançadas na Mooca e na Vila Mariana, em São Paulo.
O plano inicial prevê seis escolas em três anos, com investimento de cerca de R$ 90 milhões. As próximas quatro ainda estão em definição e devem ficar no estado de São Paulo, entre capital e interior.
A expansão será propositalmente mais lenta. Primeiro, a instituição quer operar as unidades diretamente e testar o modelo. Só depois vai decidir se parte do crescimento poderá ocorrer por franquias ou outros formatos de parceria.
Para Diniz, o potencial está no tamanho do mercado e na possibilidade de usar uma marca historicamente associada ao inglês para disputar espaço em um segmento no qual o bilinguismo virou argumento de venda.
É também a frente com maior capacidade de mudar a composição das receitas da organização.
Os efeitos dessa transformação, no entanto, ainda levam tempo para aparecer no balanço. A receita da Cultura Inglesa cresceu cerca de 8% de 2024 para 2025. Para 2026, Diniz prevê estabilidade, com um pequeno viés de alta, próximo ou ligeiramente abaixo da inflação.
As franquias ainda estão amadurecendo, o sistema bilíngue cresce de maneira mais gradual e os colégios acabaram de começar.
A transformação, portanto, ainda está em curso. A ideia é que ela esteja mais avançada quando a Cultura Inglesa chegar aos 100 anos.
Até lá, o inglês continua sendo o centro do negócio. A diferença é que, depois de nove décadas praticamente dependente dele, a instituição quer provar que consegue crescer para além da tradicional escola de idiomas.
