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MercadosACS
07/10/2026
5 min

Após 1º turno, Gavekal vê espaço para reprecificação do Brasil, com país podendo deixar América Latina mais ‘investível’

O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras provocou uma forte reação nos mercados financeiros e pode representar o início de um movimento mais amplo de valorização dos ativos do Brasil, na avaliação da Gavekal Research. Em relatório intitulado The Bolsonaro Swing, a casa de análise destaca a reação positiva de ações, câmbio e renda […]

Após 1º turno, Gavekal vê espaço para reprecificação do Brasil, com país podendo deixar América Latina mais ‘investível’

O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras provocou uma forte reação nos mercados financeiros e pode representar o início de um movimento mais amplo de valorização dos ativos do Brasil, na avaliação da Gavekal Research.

Em relatório intitulado The Bolsonaro Swing, a casa de análise destaca a reação positiva de ações, câmbio e renda fixa após a votação e afirma que o resultado eleitoral pode abrir espaço tanto para o retorno de recursos de brasileiros mantidos no exterior quanto para uma maior alocação de capital estrangeiro no país. “O mercado claramente gostou do resultado das eleições brasileiras”, observa a Gavekal.

Segundo a análise, as ações da Petrobras (PETR4) avançaram 10%, enquanto o ETF brasileiro EWZ, também conhecido como “Ibovespa em dólar” subiu 12,5%. O real se valorizou 4,6% e os rendimentos dos títulos brasileiros recuaram 133 pontos-base.

A reação dos mercados ocorreu após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os dois avançarem para o segundo turno. Flávio recebeu 47% dos votos, contra pouco mais de 45% de Lula, segundo dados eleitorais reportados após a votação.

Uma grande guinada à direita

Para a Gavekal, o resultado brasileiro deve ser entendido dentro de um movimento político mais amplo observado na América Latina.

A casa classifica o fenômeno como “uma grande guinada à direita”, citando movimentos recentes em países como El Salvador, Argentina, Chile, Equador, Peru e Colômbia.

A análise também chama atenção para o desempenho do grupo político ligado à família Bolsonaro nas eleições legislativas. Segundo a Gavekal, o partido de Bolsonaro deverá ter uma presença particularmente relevante no Senado.

O relatório destaca ainda a eleição de integrantes da família Bolsonaro para diferentes cargos e afirma que o resultado fortaleceu a perspectiva de continuidade da influência política do grupo.

Incumbentes enfrentam ambiente mais difícil

Um dos principais pontos levantados pela casa de análise é a dificuldade crescente enfrentada por governos incumbentes para conquistar a reeleição em democracias ocidentais.

A Gavekal reconhece que há exceções recentes, citando eleições em países como Dinamarca, Austrália, Noruega e Letônia. Ainda assim, a casa argumenta que, desde a aceleração da inflação global após a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia, governos que já estão no poder têm enfrentado um ambiente eleitoral mais adverso.

“Desde que a inflação global começou a acelerar […], vencer a reeleição se tornou mais desafiador”, avalia a casa.

Para a Gavekal, uma das possíveis explicações seria o desgaste provocado pela inflação sobre os eleitores. A casa chega a classificar a inflação como uma espécie de “criptonita política” para governos incumbentes.

Outro fator apontado é o papel das redes sociais, que teriam tornado mais difícil para políticos controlar as narrativas durante os processos eleitorais.

Processos judiciais contra adversários podem ter efeito contrário

A Gavekal também analisa o impacto de processos judiciais envolvendo adversários políticos.

Na avaliação da casa, em algumas democracias ocidentais, medidas judiciais contra figuras políticas podem produzir um efeito contrário ao esperado.

O relatório cita Donald Trump e Flávio Bolsonaro como exemplos de políticos que tiveram desempenho eleitoral superior ao obtido em disputas anteriores por seus respectivos grupos políticos.

A casa, porém, reconhece que a dinâmica não é universal e menciona casos em que decisões judiciais tiveram impacto relevante sobre disputas eleitorais, como na Romênia e na França.

Brasileiros ricos podem repatriar recursos

Outro ponto central do relatório é o possível retorno ao Brasil de recursos mantidos por brasileiros no exterior.

A Gavekal argumenta que, na América Latina, existe uma associação relativamente forte entre patrimônio e posicionamento político, embora reconheça que essa relação não seja perfeita.

Segundo a casa, quando governos de esquerda assumem o poder na região, é comum que investidores e famílias de maior patrimônio transfiram parte de seus recursos e, em alguns casos, membros da família para outros países. “Quando a direita retorna ao poder, o dinheiro então volta para casa”, afirma a Gavekal.

O relatório cita destinos como Miami, Montevidéu e Madri como exemplos de locais que historicamente recebem capital latino-americano.

A leitura é relevante para o Brasil porque uma eventual mudança na percepção dos investidores sobre o ambiente político e econômico poderia estimular a repatriação de recursos.

Brasil pode deixar América Latina mais “investível”

Na avaliação da Gavekal, porém, o impacto potencial vai além do capital brasileiro.

A casa afirma que a América Latina já vinha apresentando uma combinação favorável para investidores, com queda dos rendimentos dos títulos, valorização das moedas, alta dos preços dos ativos e crescimento doméstico.

O problema, segundo a análise, era o tamanho relativamente reduzido de muitos mercados da região, o que dificultava a entrada de grandes investidores institucionais. “O Brasil, de longe o mercado mais relevante da região”, pode mudar essa dinâmica, afirma a Gavekal.

Caso o país passe a ser percebido como parte do movimento de alta dos mercados latino-americanos, a casa acredita que as alocações de investidores estrangeiros podem aumentar de maneira significativa.

A visão é particularmente relevante porque grandes gestores globais precisam de mercados com escala e liquidez suficientes para justificar posições maiores.

Brasil tem espaço para reprecificação

Apesar da forte reação dos ativos brasileiros após o primeiro turno, a Gavekal avalia que ainda existe espaço para uma reprecificação. “O Brasil tem muito terreno para recuperar”, afirma a casa.

Segundo o relatório, os juros brasileiros continuam elevados, enquanto o real e as ações do país ainda estariam baratos na comparação com seus potenciais de valorização.

A conclusão da Gavekal é que a eleição pode representar o início de um processo de rerating dos ativos brasileiros — ou seja, uma mudança na percepção dos investidores que leve a uma expansão dos múltiplos e a uma valorização dos preços.

“O resultado deste fim de semana parece ser o tiro de largada para uma reprecificação de um mercado importante, mas em grande parte esquecido”, conclui a casa.

AutorAnna Scabello
FonteMoney Times
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