Após 13 anos focada em veículos, seguradora bilionária abre nova frente para dobrar de tamanho
Suhai investiu mais de R$ 50 milhões em tecnologia e estreia no seguro residencial para ampliar o portfólio e chegar a 2 milhões de clientes

O empresário Fernando Soares concluiu a faculdade de medicina, mas não chegou a construir uma carreira cuidando de pacientes. Filho de médicos, ele queria empreender e percebeu que precisava complementar a formação antes de administrar um negócio. Fez um MBA no exterior e participou de um programa em Harvard, onde conheceu Marcos Suhai, que planejava criar uma seguradora.
A parceria deu origem à Suhai Seguradora, autorizada pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) em 2013. A empresa nasceu com a proposta de oferecer proteção a motoristas que encontravam dificuldade para contratar uma apólice, especialmente proprietários de veículos antigos, motociclistas, motoristas de aplicativo e entregadores.
Treze anos depois, a companhia inicia a maior mudança de sua história. A Suhai começa a vender seguro residencial em todo o país, seu primeiro produto fora do segmento automotivo, e passa de uma operação concentrada em um único mercado para uma seguradora multiproduto.
A nova frente integra o plano de crescimento que prevê elevar o faturamento de R$ 1,5 bilhão, em 2025, para R$ 3 bilhões em 2027. A companhia já superou R$ 1 bilhão no primeiro semestre deste ano e espera encerrar 2026 com um volume entre R$ 2,2 bilhões e R$ 2,3 bilhões.
A meta para o próximo ano também inclui alcançar 2 milhões de clientes, ante cerca de 1,4 milhão atualmente.
“O seguro residencial faz parte desse plano de três anos para conseguirmos atingir R$ 3 bilhões em prêmios e 2 milhões de clientes em 2027”, afirma Soares, CEO da Suhai. “Estamos bem em linha com o que tínhamos projetado.”
Qual é o atual produto da Suhai
No início, a Suhai oferecia apenas cobertura contra roubo e furto de veículos. A escolha por um produto simplificado buscava atender consumidores que não tinham acesso ao seguro completo — ou que consideravam o preço dessas apólices incompatível com seu orçamento.
A estratégia ganhou tração especialmente entre os motociclistas. Segundo Soares, apenas 2% das motos brasileiras tinham seguro quando a companhia foi criada. Hoje, a penetração está próxima de 10%. A Suhai tornou-se líder nesse segmento e ocupa atualmente a sétima posição entre as maiores seguradoras de automóveis do país em volume de prêmios.
A ampliação das coberturas ocorreu gradualmente. A empresa operou durante sete anos apenas com proteção contra roubo e furto, antes de acrescentar perda total. Depois vieram a cobertura contra danos a terceiros e, mais recentemente, o seguro completo.
“Nós demoramos 13 anos para ter o seguro tradicional. Isso é fruto de uma disciplina muito grande de não fazer as coisas e precisar voltar atrás nos lançamentos.”
O crescimento ocorre em um dos maiores segmentos do mercado segurador. O seguro de automóveis movimentou R$ 25,41 bilhões em prêmios nos cinco primeiros meses de 2026, avanço nominal de 5,82% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo a Susep. No conjunto, os seguros de danos e pessoas, sem considerar o VGBL, arrecadaram R$ 93,69 bilhões no intervalo.
O mercado brasileiro contava com 153 seguradoras em março deste ano, incluindo grandes grupos financeiros e multinacionais como Porto, Bradesco Seguros, Tokio Marine, Allianz e Mapfre. Nesse ambiente, a Suhai construiu espaço evitando competir apenas pelos clientes mais disputados e concentrando-se em perfis com menor oferta de produtos.
Quanto a Suhai investiu para crescer
A entrada em novos ramos exigiu uma transformação interna. Nos últimos três anos, a Suhai investiu mais de R$ 50 milhões em sistemas capazes de sustentar diferentes seguros em uma mesma estrutura.
A empresa também contratou 11 profissionais com experiência no segmento residencial e em produtos relacionados. A nova equipe trabalhou durante um ano no desenvolvimento da apólice e dos processos operacionais.
“Os sistemas, as pessoas, a rede de distribuição e uma marca hoje muito mais conhecida nos deram coragem para lançar um produto fora daquilo a que estávamos acostumados”, afirma Soares.
Antes da estreia nacional, a seguradora conduziu um projeto-piloto com cerca de 100 corretores. Durante quatro meses, a empresa testou a venda, a operação e a regulação de sinistros. Agora, o produto será oferecido em todos os estados por meio de uma rede com mais de 50 mil corretores cadastrados.
A distribuição é parte central da estratégia. Como esses parceiros já vendem seguros residenciais de outras companhias, a Suhai espera reduzir o esforço necessário para apresentar a nova apólice. Ao mesmo tempo, poderá oferecer um segundo produto para a própria base de 1,4 milhão de clientes, elevando o faturamento gerado por consumidor.
“O mesmo cliente que tem um carro ou uma moto também tem um imóvel que não está segurado”, diz Soares. “É uma necessidade do nosso próprio cliente e um tipo de seguro que a rede de corretores já está acostumada a vender.”
A aposta nas casas que outras seguradoras recusam
Assim como ocorreu no segmento automotivo, a Suhai pretende crescer atendendo imóveis que podem enfrentar restrições nas políticas de aceitação do mercado tradicional.
O novo produto poderá ser contratado para casas e apartamentos, além de construções de madeira e isopainel, chácaras, sítios, fazendas e residências de veraneio. A seguradora também aceitará imóveis desocupados, unidades oferecidas para locação por temporada e residências utilizadas simultaneamente como pequenos estabelecimentos comerciais.
A apólice terá quase 20 opções de cobertura, quatro modalidades de assistência 24 horas e um pacote de manutenção preventiva com mais de dez serviços. O lançamento ocorre em um mercado no qual 83% dos domicílios brasileiros ainda não possuem seguro residencial, segundo dado da Confederação Nacional das Seguradoras citado pela empresa.
Para Soares, as formas de utilização dos imóveis mudaram mais rapidamente do que as regras de aceitação das seguradoras.
“Hoje você tem o Airbnb, a pessoa que mora na casa e também usa o imóvel para alguma atividade comercial e residências de veraneio que ficam vazias”, afirma. “Estudamos onde poderíamos aumentar a quantidade de clientes segurados e criamos aceitação para esses nichos.”
A estratégia é reproduzir o posicionamento que ajudou a companhia a avançar no mercado de motos: identificar públicos recusados ou pouco atendidos e oferecer um produto mais enxuto, sem necessariamente replicar todas as coberturas das apólices mais completas.
“Estamos tentando trazer para o seguro residencial quem está do lado de fora”, diz o CEO. “Acredito que conseguiremos ter um lugar de destaque nesses nichos não atendidos.”
Inteligência artificial na vistoria e nas vendas
Parte dos investimentos tecnológicos também está sendo direcionada para inteligência artificial. A aplicação mais avançada está na vistoria de veículos.
O cliente fotografa o automóvel pelo celular, e os sistemas analisam as imagens. Quando não há indícios de problemas, a autorização pode ser concedida automaticamente. Os casos que exigem avaliação adicional são separados para análise.
“Praticamente não existe vistoria física na Suhai”, afirma Soares. “Toda a análise é feita por inteligência artificial, que autoriza imediatamente quando está tudo certo ou nos ajuda a identificar alguma questão que precisa ser solucionada.”
A companhia também usa chatbots e agentes de IA no atendimento e trabalha em uma ferramenta para ajudar os corretores a vender. O projeto ainda não tem data pública de lançamento.
“Quem não está olhando para inteligência artificial hoje corre um grave risco de ser engolido por isso no futuro”, diz o executivo.
Quais serão os próximos passos da Suhai
Embora a entrada no seguro residencial marque o início da diversificação, a Suhai pretende manter o ritmo gradual que adotou no mercado automotivo.
O próximo lançamento deverá ser um seguro empresarial direcionado a pequenos negócios, como padarias, lojas e estabelecimentos de bairro. A apólice está em desenvolvimento e terá coberturas que não fazem parte do residencial, como proteção contra lucros cessantes. Ainda não há uma previsão para o início das vendas.
A escolha mantém a empresa próxima dos consumidores que formaram sua base. Parte deles trabalha na própria residência ou administra pequenos estabelecimentos e pode ter dificuldade para encontrar produtos ajustados ao porte e às características do negócio.
“Somos uma companhia conservadora. Às vezes brinco que temos uma estratégia monótona, porque vamos conquistando as coisas aos poucos”, afirma Soares. “O próximo produto deve ser o empresarial, mas ainda não temos um prazo definido para o lançamento.”
