Após abandonar o direito, ele transformou delivery de sushi em rede que vai faturar R$ 66 milhões

Formado em direito, Amauri Sales não sabia nada sobre gastronomia, mas decidiu resolver um problema do delivery de comida japonesa em João Pessoa (PB): embalagens sem personalização e pouco resistentes, que afetam como alimento chegava até as casas.
Em 2016, com investimento inicial de R$ 25 mil, ele se arriscou na abertura do Home Sushi Home, um restaurante japonês por delivery.
O negócio se transformou em uma rede de franquias que hoje agrega mais duas marcas: a Mangu Shoyu, de poke, e a Hot Chop, de comida asiática quente.
Para 2026, a empresa espera faturar R$ 66 milhões, por meio da consolidação do modelo multimarca e pela expansão com foco no interior paulista.Do mestrado ao empreendedorismo
Formado em direito e com o mestrado finalizado, Amauri Sales já tinha o futuro claro: ingressar no doutorado e seguir a carreira acadêmica.
Até que um dia seu cunhado, Bartolomeu Neto, sugeriu que eles abrissem um delivery de sushi. Sales não aceitou a ideia no primeiro momento, até que um dia um restaurante japonês em São Paulo chamou a sua atenção nas redes sociais.
“Tinha uma apresentação impecável, com embalagem de papel personalizada. Vendo aquilo, eu percebi uma oportunidade, porque não existia nada parecido em João Pessoa”, diz Sales. “Era comum que as entregas da região fossem feitas em embalagens de plástico e isopor”, afirma.
A partir dessa percepção, decidiu embarcar na ideia do cunhado. Cada um investiu R$ 12,5 mil e começaram a estruturação.
“Começamos a trabalhar aqui em João Pessoa, sem muito capital, mas desde o primeiro dia prezando muito pela apresentação da comida”, diz Sales. O fornecedor das embalagens, por exemplo, foi um dos primeiros a serem contratados.
Na época, uma chef de cozinha estava saindo de um dos melhores restaurantes japoneses da cidade e foi quem fez toda a consultoria do cardápio e de equipamentos que o restaurante precisaria.
Sales também passava noites se aventurando pela internet para descobrir ingredientes e pratos que ainda não eram comuns na região. “Naquela época, o shimeji ainda era pouco difundido em João Pessoa, e nós fomos um dos primeiros deliveries a explorar esse ingrediente no cardápio”, exemplifica.
Para o ponto, conseguiram um imóvel já reformado e preparado para receber uma cozinha industrial – reduzindo os custos iniciais dos sócios.
A proposta de uma entrega diferenciada, com embalagens personalizadas, segundo ele, contribuíram para o crescimento orgânico do negócio. "Queríamos que o cliente tivesse, em casa, a mesma experiência que encontraria em um restaurante. Por isso, investimos muito na apresentação e na experiência de entrega. Isso foi revolucionário na época”, afirma Sales.
Ao mesmo tempo, apostaram em cupons para os consumidores mais fiéis, com ganho de um crédito após o décimo pedido.
"Com apenas um ano e meio de operação, vi uma loja de 30 metros quadrados faturar R$ 100 mil por mês e entendi que ali existia uma oportunidade muito maior do que eu imaginava."
O resultado fez Sales repensar os planos de seguir no meio acadêmico. Ao perceber o potencial do negócio, decidiu abandonar a trajetória jurídica e passou a estudar gestão, finanças e administração para profissionalizar a operação.
Como surgiu o modelo de franquia
Com dois anos de negócio, decidiram franquear. Amigos em Recife (PE) estavam interessados em abrir o modelo que ainda não existia na cidade.
A formatação da franquia começou de forma bastante prática. Com formação em direito e experiência acadêmica em contratos empresariais, Sales adaptou modelos de documentação ao negócio e estruturou os processos com base nos dois anos de operação da primeira unidade.
A primeira unidade franqueada foi aberta em Recife. Como os investidores eram conhecidos dos sócios, havia receio de que a operação não funcionasse. O retorno veio rapidamente: segundo Sales, o investimento foi recuperado em cerca de dez meses.
A venda das franquias teve um boom durante a pandemia.
"Durante a pandemia, quem queria empreender tinha poucas alternativas: abrir um supermercado, uma farmácia ou um delivery. Entre elas, o delivery era o modelo mais acessível e, para mim, também o mais interessante”, diz Sales.
Hoje o negócio soma 20 unidades em operação distribuídas em 12 estados.Três marcas, uma mesma operação
Outro ponto de virada da marca veio em 2022. As unidades franqueadas iam bem, mas sem um grande crescimento no faturamento.
As lojas abriram apenas no período da noite e os restaurantes ficaram inutilizados pela manhã. Foi quando decidiu apostar nas vendas de poke durante o almoço e lançou a marca Mangu Shoyu.
“Criamos a marca de poke para aumentar o faturamento dos franqueados durante o almoço, aproveitando os mesmos insumos e a mesma estrutura”, diz Sales.
Quando a segunda marca foi lançada, a rede já estava estruturada – apostaram em agência de publicidade para criar logos e pensar na estratégia de divulgação. A aposta funcionou e o poke se transformou no produto mais vendido da rede, superando inclusive o sushi.
Com o sucesso, Sales decidiu lançar mais uma marca no ano seguinte: a Hot Chop, com foco na comida asiática quente. Os insumos são semelhantes, apenas com a adição de alguns ingredientes a mais.
A Hot Chop, no entanto, ainda passa por um desafio: padronizar o preparo dos pratos quentes entre as unidades. Para isso, a empresa está desenvolvendo um sistema de fornecimento centralizado de proteínas, que serão enviadas semiprontas aos franqueados para garantir maior uniformidade na operação.
"Hoje a participação da marca ainda é pequena no faturamento da rede, mas enxergamos um grande potencial de crescimento a partir da padronização da operação”, afirma.
Os franqueados podem operar as três marcas pelo investimento inicial de R$ 150 mil, com prazo estimado de retorno em até 18 meses. O empreendedor explica que as marcas Home Sushi Home e Mangu Shoyu são obrigatórias, enquanto a Hot Chop pode ser incorporada ou não.
Próximos passos
Para 2026, a Home Sushi Home projeta a venda de seis novas franquias e pretende encerrar o ano próxima da marca de R$ 70 milhões em faturamento. Em 2025, a rede realizou cerca de 650 mil pedidos. Para este ano, a expectativa é atingir 780 mil entregas.
"Queremos crescer, mas sem abrir mão da qualidade. Hoje buscamos parceiros que estejam alinhados à cultura da empresa e ao modelo de operação que construímos ao longo desses anos."
Entre as regiões prioritárias está o interior de São Paulo, apontado por Sales como um dos mercados mais promissores para a rede. Segundo o empreendedor, a região reúne cidades com forte cultura de franquias e empreendedores mais familiarizados com esse tipo de negócio.
Outra novidade que já chegou em 2026 é a primeira unidade presencial da Mangu Shoyu, com foco em alimentação saudável e bem-estar. Além do cardápio do delivery, a loja apresenta outros produtos, como smoothies.
"É uma maneira de aproximar as pessoas da marca e oferecer uma experiência que vai além do delivery."
A Casa Mangu Shoyo, primeira operação física da rede, também será franqueada. O modelo combina atendimento presencial e delivery e deve se tornar uma nova frente de expansão da companhia, paralelamente às dark kitchens que deram origem ao negócio.
