Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
10/09/2026
7 min

Após alcançar meio bilhão, rede de produtos saudáveis do RJ prepara abertura de 25 novas unidades

Com franquias que exigem investimento entre R$ 250 mil e R$ 450 mil, companhia aposta em expansão seletiva e marca própria para competir no varejo

Após alcançar meio bilhão, rede de produtos saudáveis do RJ prepara abertura de 25 novas unidades

Há quase quatro décadas, a Mundo Verde começou vendendo arroz integral e chás a granel em uma época em que alimentação saudável ainda era um nicho no Brasil. Agora, num mercado em que creatina, whey protein e snacks proteicos disputam espaço até nas gôndolas de supermercados e farmácias, a rede prepara uma nova etapa de expansão.

Depois de faturar R$ 500 milhões em 2025, a companhia projeta crescer 12% neste ano e ampliar sua presença pelo país. A rede tem hoje 170 franquiasem operação, além de oito lojas próprias, usadas, também, para testar formatos e produtos antes de levá-los aos franqueados.

O plano de expansão, porém, está mais seletivo do que o inicialmente previsto. Segundo Ana Paula Seixas, CEO da Mundo Verde, dez lojas foram abertas até agora em 2026 e outras duas ou três devem sair do papel ainda neste ano.

Ao todo, 25 novas unidades estão no pipeline para serem inauguradas até meados de 2027.

“Este ano foi um ano um pouco mais interno, de expansão interna. A gente tem alguns fatores externos que mexem com franchising, como uma Selic mais alta e um ano eleitoral”.

A estratégia significa abrir lojas, mas também tentar tirar mais receita das unidades existentes. A companhia está reformando pontos de venda, ampliando a marca própria e criando novos formatos para acompanhar as mudanças no consumo de produtos ligados à saúde e ao bem-estar.

Como a Mundo Verde quer abrir novas lojas

O próximo ciclo de expansão deve se concentrar principalmente nas regiões Norte e Nordeste, além de São Paulo, Rio de Janeiro e Sul. A CEO diz que há três unidades em desenvolvimento no Norte e Nordeste, uma no Sul, duas em São Paulo e outras duas no Rio de Janeiro.

A entrada na rede exige um investimento inicial de R$ 250 mil, no caso das operações menores, de cerca de 40 metros quadrados. Dependendo da área e do estoque, o valor pode chegar a aproximadamente R$ 450 mil. Há lojas que alcançam 200 metros quadrados.

Segundo a CEO, o retorno sobre o investimento costuma ocorrer entre 18 e 24 meses. A rentabilidade final fica geralmente entre 15% e 18%, podendo chegar a 20%, dependendo do mercado.

Em vez de buscar apenas novos franqueados, a Mundo Verde diz que estimula os operadores atuais a assumir mais unidades em suas próprias regiões.

“A gente trabalhou com uma expansão muito mais orgânica. Estamos fortalecendo a rede de franqueados, onde quem tinha às vezes uma unidade ou duas começa a assumir o mercado dele”, diz Ana.

Como uma loja de arroz integral virou uma rede nacional

A história da Mundo Verde começou em 1987, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. A primeira unidade nasceu da dificuldade da família fundadora de encontrar alimentos adequados para um filho celíaco.

Era um mercado bem diferente do atual. “No começo do Mundo Verde, a gente tinha fila para comprar arroz integral”, afirma. Naquela época, o negócioestava mais concentrado em alimentos integrais, produtos sem glúten, itens sem lactose, chás e castanhas. Suplementação ainda não ocupava o espaço que possui hoje.

A transformação em franquia começou em 1993, segundo a informação confirmada durante a entrevista. Em 2014, o negócio passou para a família Martins. Atualmente, o controle é de Charles Martins, filho do empresário Carlos Wizard Martins.

Ana entrou na empresa em 2022, inicialmente à frente das lojas próprias, e assumiu como CEO em março de 2024. Antes disso, construiu carreira no franchising e passou por grupos de educação, entre eles Wizard e Grupo SEB.

A mudança do consumidor também alterou o que ocupa as prateleiras. Se no começo a alimentação era praticamente o centro do negócio, hoje suplementos são uma das categorias mais relevantes. Entre os campeões de venda citados pela executiva estão creatina, whey protein, colágeno, ômega 3 e psyllium.

Expansão seletiva: Mundo Verde prepara 25 novas unidades até meados de 2027 e investe na modernização das lojas existentes (Mundo Verde/Divulgação)

Como competir quando todo mundo vende produto saudável

O sucesso do mercado de saúde e bem-estar criou um paradoxo para a Mundo Verde.

Por um lado, há muito mais consumidores interessados em proteínas, suplementos, vitaminas e alimentos funcionais. Por outro, a rede deixou de ter esse mercado quase exclusivo para disputar o cliente com supermercados, farmácias, marketplaces e lojas de conveniência.

“O que a gente era muito forte há 20 anos com alimentação, alguns produtos não fazem mais sentido”, diz a CEO. “A parte de suplementação em farmácia é um complemento para a gente, porque a farmácia não tem todo o meu mix, não tem todo o lançamento e a quantidade de marcas que eu tenho.”

A aposta da companhia é vender especialização junto com o produto.

Isso inclui curadoria do portfólio, degustação e funcionários preparados para explicar diferenças entre itens. A lógica é a seguinte: um consumidor que sabe exatamente qual whey quer pode comprá-lo em uma farmácia ou supermercado. Quem ainda está escolhendo produto, dosagem ou composição seria mais propenso a procurar uma loja especializada.

“Essa curadoria e essa especialização eu acho que não morrem nunca”, afirma a CEO.

A própria popularização do conceito de alimentação saudável exige cuidado. Ana diz que o atual boom de produtos com proteína não significa necessariamente que todos tenham uma composição adequada.

“É muito bom todo mundo falando de saudabilidade, mas ao mesmo tempo com pouco conhecimento do que é ser saudável. A gente está com uma febre de tudo proteico. Não quer dizer que porque tem proteína ele é saudável”, afirma.

O que as canetas emagrecedoras mudaram nas lojas

Poucos fenômenos recentes aceleraram tanto essa transformação quanto a popularização dos medicamentos agonistas de GLP-1, conhecidos como canetas emagrecedoras.

A lógica é que parte dos usuários passa a consumir menos alimentos e aumenta a preocupação com ingestão adequada de proteínas e outros nutrientes. Isso abriu uma nova frente para empresas de suplementação e alimentos funcionais.

A chegada desse público havia provocado um aumento entre 5% e 6% nas vendas das lojas da Mundo Verde e atraído consumidores que anteriormente não frequentavam a rede. A empresa passou inclusive a organizar produtos como proteínas, fibras e itens de hidratação pensando nesse consumidor.

Para a Mundo Verde, o movimento funciona nas duas pontas: aumenta o público interessado em suplementação, mas também atrai novos concorrentes para as categorias que mais crescem.

“Esse boom é muito positivo para o Mundo Verde. Nós somos uma marca que cresce com isso”, diz Ana. “Ao mesmo tempo, você pega muitos concorrentes.”

Por que apostar em marca própria

Uma das formas encontradas para diminuir essa disputa direta é aumentar a presença de produtos exclusivos. Hoje, a Mundo Verde possui 62 produtos de marca própria. O portfólio passa por suplementos, encapsulados, ingredientes culinários e snacks.

Além de serem comercializados nas franquias, alguns desses produtos já chegam a mais de 1.500 pontos de venda, incluindo redes de farmácias e estabelecimentos como Graal e Frango Assado.

A estratégia amplia a presença da marca sem necessariamente exigir uma nova franquia em cada endereço.

“É uma outra linha de expansão que a gente tem”, diz Ana.

A companhia também está reformulando as lojas. Três unidades passaram por retrofit neste ano e, segundo a CEO, houve casos em que o faturamento avançou 20% após a reforma e o reposicionamento.

O novo desenho inclui espaços de degustação e uma área infantil batizada de Mini Mundo Verde, criada neste ano para reunir alimentos e bebidas voltados às crianças. A unidade da Oscar Freire, em São Paulo, funciona como uma das vitrines desse novo posicionamento, enquanto a empresa prepara a modernização de outros endereços.

A experiência também deixa de terminar na porta da loja. O cliente pode comprar pelo ponto físico, WhatsApp ou e-commerce, receber o pedido em casa em até três horas ou retirá-lo em uma unidade. A rede também está presente em plataformas de entrega.

Para 2027, outro projeto previsto é o Clube Mundo Verde, programa de cashback e pontos que poderão ser utilizados com parceiros.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
Distribuído por