Após captar US$ 100 milhões, Canopy compra 'Uber do concreto' e quer mais negócios em infra

A Canopy comprou a Topcon, companhia de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, que desenvolve software e hardware para concreteiras.
É a segunda segunda aquisição da Canopy desde a captação de US$ 100 milhões, ou R$ 540 milhões, com a Bessemer Venture Partners e a Cloud9 Capital, em julho de 2025.
O valor da compra não foi divulgado. A Topcon atende mais de 300 clientes, tem 800 centrais de concreto conectadas à sua plataforma e monitora uma frota de 10.000 caminhões. Segundo as empresas, seus sistemas participam da gestão de 43% do concreto usinado produzido no Brasil.
A aquisição marca a entrada da Canopy na área de construção. A empresa nasceu para comprar negócios brasileiros de software voltados a clientes corporativos. Agora, quer usar a Topcon como ponto de partida para uma tese de consolidação em tecnologia para construção e infraestrutura.
“A Topcon reúne características importantes para um negócio de software vertical, como crescimento expressivo, clientes fiéis e funcionários especializados no setor. E principalmente, é uma empresa que está muito à frente dos concorrentes e vem adotando inteligência artificial de maneira muito inteligente”, afirma Thiago Rocha, fundador e CEO da Canopy.
A gestão da Topcon será mantida. Kleber Rodrigues segue como CEO. Samuel Oliveira, fundador da empresa, continua à frente das áreas comercial e de produtos. Os mais de 80 funcionários permanecem na operação.
A história da Topcon
A Topcon foi fundada em 2003 por Samuel Oliveira. Antes de criar a empresa, ele passou três anos dentro de uma concreteira para entender como funcionava a rotina do setor.
A dor era concreta: as concreteiras contratavam vários fornecedores para partes diferentes da operação. Um sistema cuidava de uma etapa, outro sistema cuidava de outra, e as informações não conversavam direito.
A Topcon nasceu para integrar esse fluxo. A plataforma cobre etapas como suprimentos, engenharia dos traços, produção, logística, faturamento e inteligência de negócios.
Em 2020, a empresa migrou para o modelo SaaS, com software em nuvem e cobrança recorrente. Depois dessa transição, cresceu 500%.
A sede fica em São José do Rio Preto, no interior paulista. A empresa também tem unidade em São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, presença em Portugal e planos de expansão para a América Latina.
Kleber Rodrigues entrou na Topcon em 2022 como investidor e conselheiro. Assumiu o cargo de CEO em 2025.
Sua ligação com o setor vem do fim dos anos 80, quando começou a trabalhar no mercado de concreto. Em 2000, fundou a KP Consulting, empresa de software para concreteiras vendida em 2010 para a Command Alkon. Depois, cofundou a WDG Automation, startup de automação de processos vendida para a IBM em 2020.
“Eu criei minha primeira empresa exatamente de software para concreto, que depois virou concorrente da Topcon. Hoje eu sou CEO do ex-concorrente”, diz Rodrigues.
Como funciona o ‘Uber do concreto’
O concreto tem uma operação mais complexa do que parece para quem vê apenas o caminhão betoneira passando na rua.
A concreteira precisa comprar areia, pedra, cimento e outros insumos. Depois, calcula a mistura para atingir a resistência exigida pela obra. Em seguida, programa a produção, carrega o caminhão, organiza a rota, acompanha a entrega, controla o descarregamento e emite documentos.
A Topcon conecta essas etapas em módulos. Há sistemas para controle dos insumos, engenharia dos traços, CRM, despacho, automação da usina, rastreamento da frota, faturamento, finanças e painéis de dados.
Rodrigues costuma explicar o centro da operação com uma frase simples.
“O mercado costuma dizer que a concreteira é uma empresa de logística que entrega concreto”, afirma.
A parte logística é uma das mais sensíveis. Um cliente pode pedir 40 metros cúbicos de concreto a partir das 7 da manhã, com um caminhão chegando a cada meia hora. O sistema calcula os intervalos, separa os caminhões, estima o tempo de carregamento, deslocamento, descarga e volta para a usina.
O monitoramento acompanha o caminhão na rua e informa se ele chegou à obra, se está descarregando no local correto e quanto ainda falta entregar.
“É como se fosse o Uber do concreto. O cliente vê o caminhão chegando, tem gráficos dizendo quanto já foi hoje e quanto está faltando”, diz Rodrigues.
A empresa também desenvolve sensores instalados nos veículos. Eles indicam se o caminhão está misturando concreto, descarregando ou parado. Outro produto monitora a quantidade de água colocada no balão da betoneira, ponto que pode alterar a resistência do concreto.
Por que a Canopy comprou a Topcon
A Topcon chegou à Canopy por uma apresentação da Cloud9 Capital, uma das investidoras da compradora.
Segundo Rocha, três fatores pesaram na decisão: o mercado, o produto e o uso de inteligência artificial.
O primeiro ponto foi o tamanho do setor. A Topcon atende concreteiras, um mercado ligado à construção e à infraestrutura. Segundo a Canopy, há mais de 3.000 empresas desse tipo no Brasil.
O segundo ponto foi a profundidade do produto. A Topcon não vende apenas um sistema isolado. A plataforma cobre várias partes da operação, de vendas a entrega. Isso torna a troca de fornecedor mais difícil para o cliente.
“É uma suíte completa de produtos. Não é um produto simples e de fácil desenvolvimento, de fácil troca pelo cliente”, diz Rocha.
O terceiro ponto foi a IA. Durante a diligência, a Canopy viu usos da tecnologia em produtos e processos internos.
“A gente conseguiu observar casos concretos de uso da inteligência artificial, tanto para a Topcon melhorar seus processos internos quanto para gerar novas soluções para a concreteira”, afirma Rocha.
Os números da Topcon
A Topcon atende mais de 300 empresas clientes. São mais de 800 centrais de concreto integradas, mais de 3.000 usuários ativos por dia e cerca de 10.000 veículos monitorados.
A plataforma gerencia mais de 1,4 milhão de metros cúbicos de concreto por mês. Segundo as empresas, isso representa 43% do concreto usinado produzido no Brasil.
A receita vem de assinaturas. O cliente paga uma mensalidade conforme o volume de concreto produzido. Se ultrapassa o volume contratado, paga pelo excedente.
“É tudo SaaS. O cliente produz 20.000 metros cúbicos por mês, então tem um valor por mês dessa assinatura. O que ele passar disso, paga um excedente”, afirma Rodrigues.
O que muda com a aquisição
A Topcon continuará com a mesma marca e a mesma gestão. A Canopy afirma que pretende preservar a operação e apoiar a empresa em governança, capital e futuras aquisições.
Rodrigues diz que a flexibilidade da compradora pesou na decisão de venda. Segundo ele, a Topcon era abordada por compradores quase todos os meses.
“Essa flexibilidade que ele começou a falar é real. Muita facilidade de processo, de estudos, de fechamento de contrato e início dos trabalhos”, afirma Rodrigues. “É um processo de aquisição, sim, mas é uma maneira em que a gente segue trabalhando sem muita interferência.”
Para a Topcon, a entrada da Canopy amplia a capacidade de investimento. A empresa pretende manter o foco em concreteiras, mas acelerar o desenvolvimento de produtos e ampliar a presença fora do Brasil.
“Construímos uma empresa que hoje participa de uma parcela relevante do concreto produzido no Brasil. A chegada da Canopy amplia nossa capacidade de investimento sem alterar aquilo que fez a Topcon chegar até aqui: proximidade com os clientes, especialização e inovação”, afirma Rodrigues.
Os próximos produtos da Topcon
A inteligência artificial deve entrar no centro dos próximos lançamentos da Topcon.
Rodrigues afirma que a empresa usa IA para desenvolver produtos com clientes. A lógica é testar protótipos, validar com concreteiras, corrigir e só depois levar a solução para a bancada de desenvolvimento.
“Testar, errar, consertar, refazer e colocar um produto final no mercado, validado pelo cliente, está muito mais fácil”, diz.
Um dos caminhos está na frota. A Topcon tem mais de 10.000 veículos em sua base e quer criar produtos que levem mais tecnologia para esses caminhões.
A empresa também quer usar IA em processos internos, como atendimento ao cliente, navegação dentro dos sistemas e redução de atritos na operação.
“Depois que pega, é muito rápido. Tem uma decisão da direção da empresa de assumir isso como um projeto, dar liberdade para as áreas e acompanhar a execução dentro de cada departamento”, afirma Rodrigues.
O que faz a Canopy
A Canopy é uma empresa brasileira criada para comprar, desenvolver e manter empresas de software. O foco está em negócios que atendem clientes corporativos e já têm produto, carteira de clientes, receita recorrente e lucro.
A companhia começou a operar em 2025. Antes disso, Rocha passou mais de 20 anos no mercado financeiro e de tecnologia. Nos 13 anos anteriores à Canopy, foi executivo da Sinqia, empresa de software para instituições financeiras. Lá, participou do IPO e liderou 19 das 24 aquisições feitas pela companhia.
Depois da venda da Sinqia para a Evertec, Rocha iniciou o projeto que daria origem à Canopy. A empresa recebeu US$ 100 milhões de dois fundos para fazer suas primeiras aquisições no Brasil.
“A Canopy é uma empresa brasileira que adquire, desenvolve e perpetua empresas de software locais que têm foco em clientes corporativos”, diz Rocha.
O modelo é diferente do venture capital, que costuma comprar participações minoritárias em empresas em crescimento. A Canopy compra o controle das empresas ou uma fatia de controle. O alvo são companhias mais maduras, com produtos já testados e base de clientes formada.
“Eu não me comparo com os fundos, porque os fundos, em geral, têm uma abordagem de investimento minoritário em empresas de crescimento, o que é diferente do que a gente faz aqui”, afirma Rocha.
Como a Canopy escolhe empresas
A Canopy olha métricas como crescimento, recorrência de receita, retenção de clientes, concentração de carteira e lucratividade. Também busca empresas com presença forte em nichos específicos.
Segundo Rocha, os critérios são parecidos com os usados por outros compradores de software. A diferença está na régua.
“As métricas que a gente olha são as mesmas que qualquer investidor de software olha. Um dos diferenciais é onde está a barra”, diz. “A gente coloca a barra mais alta e tende a ser um pouco mais seletivo na aquisição.”
Outro ponto citado por ele é a forma de negociar. Rocha afirma que parte dos consolidadores de software trabalha com modelos rígidos para estrutura, preço e integração. A Canopy tenta ter um processo mais flexível para os empreendedores que estão vendendo suas empresas.
“A nossa abordagem é mais amigável e flexível para os empreendedores que estão no momento de vender suas empresas”, afirma.
O time também usa a experiência anterior em aquisições como parte da tese. Além de Rocha, o sócio Guilherme veio da Constellation Software, uma das principais consolidadoras globais de software. Entre os investidores estão a Bessemer Venture Partners e a Cloud9 Capital.
A IA entrou na diligência
A inteligência artificial virou um ponto da análise de novas compras da Canopy. Segundo Rocha, a empresa já incluiu critérios de IA em seus processos de diligência.
A análise envolve entender se a tecnologia ameaça o produto da empresa, se pode melhorar a operação interna e se abre caminho para novos produtos.
“A gente já incorporou no nosso processo de análise de investimento critérios relacionados à inteligência artificial”, afirma Rocha. “A gente já tomou a decisão de comprar e já deixou de comprar uma empresa que estava em diligência por conta de inteligência artificial.”
Para ele, compradores e investidores de software passam por um momento de espera para entender o impacto da IA sobre empresas do setor.
“Os investidores e adquirentes de empresas de software tradicionais estão num momento de pausa de reflexão para avaliar o impacto da inteligência artificial sobre o negócio de software”, diz.
No caso da Topcon, a IA apareceu como ponto positivo. A companhia já usa a tecnologia no desenvolvimento de produtos, na operação interna e em soluções para concreteiras.
O plano da Canopy para construção
A compra da Topcon abre uma nova frente para a Canopy. A tese é comprar empresas que atendam o mesmo tipo de cliente ou façam parte da mesma cadeia. Podem ser softwares complementares à Topcon ou negócios ligados a outras etapas da construção e da infraestrutura.
“A partir do momento que a gente entra no mercado de construção, se eu for dar uma definição mais ampla do que concreteira, vamos buscar um projeto de consolidação naquele mercado”, afirma Rocha.
Segundo ele, há empresas que poderiam se somar à Topcon por atenderem os mesmos clientes ou estarem na mesma cadeia.
Além da Topcon, a Canopy tem três aquisições encaminhadas para anúncio ainda em 2026.
Expansão fora do Brasil
A Topcon já tem clientes em Portugal e olha agora para a América Latina. A empresa ainda não detalha países, metas de receita ou prazos de abertura.
A expansão internacional aparece em paralelo ao aumento da base no Brasil. A companhia pretende seguir vendendo módulos para concreteiras que ainda usam apenas parte da plataforma.
O ponto de partida é uma operação que já toca uma fatia relevante do setor no país. Para a Canopy, isso dá base para um projeto maior em tecnologia para construção.
“Passamos mais de duas décadas desenvolvendo tecnologia para resolver desafios muito específicos de um setor fundamental para a construção de cidades, rodovias, portos, aeroportos e grandes obras de infraestrutura”, afirma Samuel Oliveira, fundador da Topcon.
“Encontramos na Canopy um parceiro que entende esse legado e compartilha nossa visão de longo prazo para o futuro da empresa.”
