Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
29/08/2026
6 min

Após comprar 220 caminhões a gás de uma vez, irmãos gaúchos apostam em elétricos e faturam R$ 2,5 bi

Reiter Log recebe primeiro cavalo mecânico elétrico vendido pela Scania no Brasil e amplia estratégia que combina gás, biometano e eletrificação da frota

Após comprar 220 caminhões a gás de uma vez, irmãos gaúchos apostam em elétricos e faturam R$ 2,5 bi

Poucos dias depois de comprar 220 caminhões a gás de uma única vez, os irmãos gaúchos Vinicius e Vanessa Reiter Pilz decidiram avançar em outra frente.

Nesta semana, a transportadora Reiter Log colocou em operação o primeiro cavalo mecânico elétrico vendido pela Scania no Brasil.

O veículo chega a uma empresa que começou em 2008 com um único caminhão e hoje integra um grupo com faturamento de cerca de 2,5 bilhões de reais.

A Reiter opera uma frota de 2.500 veículos e vem tentando reduzir a dependência do diesel com uma combinação de caminhões a gás, biometano, híbridos e elétricos.

A chegada do elétrico ocorre pouco depois do maior movimento já feito pela empresa nessa estratégia. Na última semana, a Reiter anunciou com exclusividade à EXAME a compra de 220 caminhões a gás da Scania de uma só vez.

O lote será entregue até dezembro e representa, segundo as empresas, a maior aquisição de caminhões a gás da Scania já realizada no Brasil.

“Acreditamos que a transformação do transporte de cargas passa pela combinação de diferentes tecnologias, e é isso que temos construído na Reiter”, diz Vanessa Reiter Pilz, vice-presidente de ESG da Reiter Log.

A meta da companhia é chegar a 2035 com 100% da frota movida por fontes alternativas. Até o fim deste ano, a previsão é superar 600 veículos sustentáveis em operação.

Como é o primeiro caminhão pesado da Scania

O novo caminhão foi comprado ainda durante a Fenatran de 2024, feira de transporte realizada em São Paulo.

Trata-se do modelo Scania 30G 4x2, o primeiro cavalo mecânico elétrico comercializado pela montadora no país.

Caminhão eletrico da Scania comprado pela Reiter Log (Leandro Fonseca /Exame)

Cavalo mecânico é a parte dianteira do caminhão responsável por tracionar semirreboques. É o tipo de veículo usado em operações de carga de maior porte.

O modelo tem autonomia de até 250 quilômetros e foi desenvolvido principalmente para trajetos curtos, distribuição e operações hub to hub, transporte realizado entre centros logísticos.

Essa limitação ajuda a explicar por que a aposta da Reiter nos elétricos não substitui a estratégia com caminhões a gás.

Para viagens mais longas, o gás e principalmente o biometano continuam ocupando espaço maior na frota.

Os elétricos devem ser direcionados a operações urbanas ou dedicadas a clientes, em que o veículo percorre rotas previsíveis e pode voltar a pontos de recarga conhecidos.

Por que apostar em gás e elétrico ao mesmo tempo

A Reiter começou sua aposta em caminhões a gás em escala em 2021.

Naquele ano, comprou 124 veículos da Scania. Depois, fez novas aquisições e ampliou gradualmente a frota.

Em 2026 veio o maior pedido até agora: 220 caminhões a gás de uma única vez.

Fundador do negócio, Vinicius Pilz vê uma mudança importante por trás da decisão. Nas primeiras compras, a companhia assumia o risco antes de saber se haveria demanda suficiente.

“No passado a gente comprou os caminhões no escuro, comprou os caminhões para oferecer aos clientes. Agora a gente já compra sob a demanda dos clientes”, diz Pilz.

A expansão passou a acompanhar novos contratos e ampliações de operações existentes.

Entre os clientes que já utilizam rotas com menor emissão estão L’Oréal, Natura, Grupo Boticário, Suzano, Mondelez, Copersucar, Femsa, Coty e Beiersdorf, dona das marcas Nívea e Eucerin.

A lógica da companhia é tratar cada combustível de acordo com a rota.

O elétrico entra onde a autonomia e a infraestrutura de recarga permitem. O gás e o biometano ficam principalmente em trajetos maiores.

“A logística verde deve aliar a redução das emissões de gases de efeito estufa à sustentabilidade financeira. Buscamos personalizar as soluções de acordo com a demanda e as necessidades de cada cliente”, diz Vinicius.

Qual é o tamanho da frota sustentável

Hoje, mais de 40% dos veículos da Reiter Log já operam com fontes alternativas.

Com a entrega do novo lote de caminhões a gás, a expectativa é ultrapassar 500 veículos considerados sustentáveis até dezembro.

Mas comprar os caminhões é apenas parte do problema. Para conseguir usar gás e biometano em viagens de longa distância, a Reiter precisou montar sua própria infraestrutura de abastecimento.

A empresa mantém nove pit stops, pontos internos de abastecimento instalados em suas unidades. Eles permitem operar rotas que conectam o Rio Grande do Sul a estados como Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Os pontos são de uso exclusivo da companhia.

À EXAME, Vinicius afirmou que essa infraestrutura permite à Reiter fazer viagens interestaduais de longa distância sem depender apenas da rede pública de abastecimento.

A empresa também investe em telemetria, sistema que acompanha dados dos veículos à distância, e monitoramento das emissões geradas pelas operações.

Da fazenda para o tanque

A estratégia de biometano levou a família Pilz para um passo além da compra de combustível.

O grupo também controla uma operação agropecuária e pretende usar resíduos gerados pelo próprio gado como matéria-prima para produzir biometano.

O grupo planta milho, que serve de alimento para os animais. O esterco pode ser enviado para biodigestores, equipamentos que transformam matéria orgânica em biogás. Depois de purificado, esse gás pode virar biometano e abastecer parte dos caminhões da Reiter.

O processo também gera biofertilizante, que pode voltar para as lavouras. A produção própria não deverá abastecer toda a frota. A empresa também compra biometano de fornecedores.

Ainda assim, a integração permite ao grupo participar de mais etapas da cadeia que termina no tanque dos caminhões.

Qual é a história da Reiter Log

A Reiter Log foi fundada em 2008, em Nova Santa Rita, na região metropolitana de Porto Alegre.

Vinicius Pilz tinha 22 anos quando começou o negócio com um único caminhão. A irmã, Vanessa, também entrou cedo na empresa e assumiu a área comercial aos 22 anos.

No início, a operação era concentrada no transporte frigorificado. A empresa depois decidiu migrar também para bens de consumo para reduzir a dependência de um único setor.

A diversificação abriu espaço para contratos com grandes indústrias.

Uma das regras adotadas pela família foi limitar a exposição a cada cliente. A ideia era evitar que uma única empresa tivesse peso excessivo sobre o faturamento da transportadora. “Se tivesse uma crise sanitária, como uma gripe aviária, a gente quebrava”, diz Vanessa.

A operação cresceu a partir daí.

Em 2024, a Reiter Log registrou receita de 721 milhões de reais. Agora, Vinicius afirma que o grupo controlado pela família, que inclui o braço agropecúario, fatura cerca de 2,5 bilhões de reais e emprega aproximadamente 2.500 pessoas.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por