Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
EmpresasACS
04/08/2026
8 min

Após correr para subir preços por causa da guerra, Tenda (TEND3) colhe os frutos com lucro líquido acima das expectativas no 2T26

A construtora reportou lucro e Ebitda acima do consenso de mercado no segundo trimestre e elevou o guidance para 2026 da Tenda. Em entrevista ao Seu Dinheiro, o CFO comentou a estratégia de preços, o cenário de crédito e o desempenho da Alea

Após correr para subir preços por causa da guerra, Tenda (TEND3) colhe os frutos com lucro líquido acima das expectativas no 2T26

Subir preços, preservar as margens e ainda continuar vendendo costuma ser um equilíbrio delicado para qualquer empresa. No entanto, a Tenda (TEND3) tem conseguido dar um "check" nessas três frentes. Essa é a avaliação do CFO da companhia, Luiz Mauricio de Garcia, após a divulgação dos resultados do segundo trimestre nesta terça-feira (4).

Em entrevista ao Seu Dinheiro, o executivo afirmou que essa combinação rara foi possível graças aos reajustes de preços implementados ao longo dos últimos meses para compensar as pressões inflacionárias — intensificadas pela guerra no Oriente Médio — e aos ganhos de produtividade da operação, que elevaram a eficiência da companhia.

Entre abril e junho, a construtora popular registrou um lucro líquido consolidado considerando as operações de Tenda e Alea (braço de casas pré-fabricadas da empresa) de R$ 179,1 milhões, queda de 12,2% em relação ao mesmo período do ano passado. O número veio acima do consenso de mercado compilado pela Bloomberg, que esperava R$ 127 milhões.

Desconsiderando o efeito contábil das operações de swap — contratos financeiros usados pela companhia para proteger seu programa de remuneração baseado em ações —, o lucro líquido ficou em R$ 161,3 milhões, um salto de 109% em base anual.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado consolidado foi de R$ 275,2 milhões, salto de 65% em relação ao mesmo período do ano passado e acima do consenso, que apontava para R$ 196 milhões, segundo a Bloomberg.

Já a rentabilidade (ROE) consolidada alcançou 42,6%, avanço de 4,8 pontos percentuais (p.p) na comparação anual. A construtora também teve geração de caixa operacional consolidada de R$ 52,5 milhões.

"É difícil ver uma combinação simultânea de crescimento, melhora de margem e geração de caixa em uma empresa. Geralmente, quando você cresce, consome caixa. Ou cresce abrindo mão de margem. Hoje estamos conseguindo entregar as três coisas juntas", disse Garcia.

Mais detalhes do balanço

Como sempre, quem puxou o resultado foi a marca Tenda, enquanto a Alea segue focada na estabilização da operação. Entre abril e junho, a principal unidade de negócios da companhia registrou receita líquida de R$ 1,2 bilhão, alta de 35% em relação ao mesmo período de 2025.

O Ebitda ajustado cresceu 57,8% na comparação anual, para R$ 299,8 milhões, enquanto a margem Ebitda — indicador de eficiência operacional avançou — 3,6 p.p, para 24,9%.

Já a margem bruta ajustada, que mostra quanto da receita da empresa sobra após descontados os custos diretamente ligados aos produtos vendidos, atingiu 40,4%, um ganho de 3,9 p.p em um ano e o maior nível da história da companhia.

Segundo a administração, parte desse desempenho veio da estratégia de reposição de preços para compensar a inflação de custos, aliada à evolução operacional, com um mix de projetos mais qualificado, maior produtividade dos canteiros e manutenção do ritmo de obras mesmo diante do forte crescimento do volume lançado.

Para Garcia, o resultado começou a ser construído quando a companhia decidiu agir rapidamente diante da aceleração dos custos provocada pelo conflito no Oriente Médio. Em vez de absorver a pressão inflacionária, a Tenda optou por repassar os aumentos aos preços dos imóveis, acumulando reajustes de 11,5% nos últimos 12 meses.

Segundo o executivo, o movimento foi suficiente para mais do que compensar o aumento dos custos, explicando boa parte da margem recorde registrada no trimestre.

Mas o CFO afirma que apenas aumentar preços não seria suficiente. Segundo ele, a companhia vive hoje seu melhor momento de eficiência construtiva, com concretagem ocorrendo em 99% dos dias úteis, resultado de melhorias na produtividade dos canteiros.

Na avaliação de Garcia, foi justamente essa combinação entre disciplina comercial e ganhos operacionais que permitiu à Tenda crescer, ampliar a rentabilidade e ainda gerar caixa — uma combinação que ele classificou como rara no setor.

Como o risco inflacionário que motivou a política de reposição de preços já se dissipou, segundo a Tenda, a estratégia deixa de ser proteger margens a qualquer custo e passa a buscar uma recuperação da velocidade de vendas (VSO).

"A gente já fez o repasse de preços. Como a inflação está sob controle, agora podemos subir um pouco abaixo do índice, mas não vamos baixar preço", afirmou o executivo.

O foco passa a ser recuperar a VSO para a faixa considerada ideal, entre 25% e 30%, uma vez que o risco inflacionário que motivou a política de reposição de preços já se dissipou. No trimestre, a VSO líquida a Tenda ficou em 23,9%, ante 27,7% no segundo trimestre de 2025, uma queda de 3,8 p.p.

Atualização no guidance para Tenda e Alea

Com os resultados considerados fortes pela diretoria, a empresa decidiu revisar para cima suas projeções para 2026. O guidance para o Ebitda ajustado da marca Tenda passou de um intervalo entre R$ 950 milhões e R$ 1,05 bilhão para R$ 1,1 bilhão a R$ 1,2 bilhão.

A estimativa de vendas líquidas foi elevada de R$ 5 bilhões - R$ 5,5 bilhões para R$ 5,5 bilhões - R$ 6 bilhões, enquanto a projeção de lucro líquido consolidado (ex-swap) subiu de R$ 520 milhões - R$ 600 milhões para R$ 600 milhões - R$ 660 milhões.

Garcia afirmou que a revisão não significa que a companhia passou a enxergar um cenário livre de riscos, mas que os resultados do primeiro semestre deram conforto para elevar as expectativas.

Ao mesmo tempo, a companhia também cortou as projeções para Alea. O guidance de Ebitda da operação passou de um intervalo entre R$ 50 milhões e R$ 70 milhões negativos para uma faixa entre R$ 70 milhões e R$ 90 milhões negativos, refletindo a decisão de priorizar a estabilização do negócio em vez de acelerar o crescimento. Já as projeções para vendas líquidas e consumo de caixa foram mantidas.

Cabe lembrar que a operação de casas pré-fabricadas é o grande calcanhar de Aquiles da Tenda. A subsidiária, criada para industrializar a construção de moradias populares, ainda acumula prejuízos e consumo elevado de caixa, permanecendo como a principal preocupação do mercado.Veja detalhes nesta reportagem.

Garcia afirmou que o objetivo da Alea neste momento não é expandir rapidamente, mas consolidar o modelo operacional. A estratégia da empresa é primeiro provar que o negócio consegue operar de forma eficiente e consumir pouco caixa antes de acelerar o ritmo de crescimento. Nesse processo, um dos principais projetos da companhia é a verticalização da produção de casas industrializadas, modelo que busca aumentar a produtividade, reduzir custos e dar mais previsibilidade à operação.

Segundo o executivo, o projeto-piloto em Ribeirão Preto atingiu, em julho, a meta de produzir quatro casas por dia entre as etapas de montagem e acabamento. Agora, esse modelo está sendo replicado em Bauru e servirá de base para a abertura de uma nova frente operacional em Campinas, que se tornará a terceira "mancha construtiva" da Alea.

Os resultados da Alea no 2T26

A unidade de negócios encerrou o trimestre com receita líquida de R$ 85,1 milhões, queda de 14,2% em relação ao período de abril a junho de 2025, e prejuízo líquido de R$ 29,9 milhões.

O Ebitda ajustado permaneceu negativo em R$ 24,6 milhões, enquanto a operação consumiu R$ 16,4 milhões. Apesar disso, os indicadores mostram uma melhora gradual em relação ao ano passado, especialmente na geração de caixa, cujo consumo caiu 73,4%, movimento que, segundo a administração, reflete os esforços para tornar o negócio mais eficiente antes de iniciar uma nova fase de crescimento.

A Alea encerrou o trimestre com VSO (velocidade de vendas) de 36,5%, superior à registrada pela marca Tenda, além de um aumento de 3% no preço médio de venda em relação ao trimestre anterior. A operação também passou a contar com 17 canteiros de obras ativos.

Inadimplência preocupa

Apesar do otimismo com a operação, Garcia afirmou que a companhia continua cautelosa em relação ao cenário de crédito. Segundo ele, a Tenda decidiu elevar as provisões para devedores duvidosos (PDD) porque enxerga uma deterioração temporária da capacidade de pagamento das famílias de baixa renda.

"A gente acha que esse cenário ainda piora antes de melhorar", afirmou. Na avaliação do executivo, o elevado endividamento das famílias continua sendo um fator de preocupação.

A PDD sobre a receita operacional bruta passou de 1,8% no primeiro semestre de 2025 para 2,7% no mesmo período deste ano, movimento que, segundo a companhia, já reflete integralmente a expectativa de maior inadimplência da carteira.

O receio ganhou força nos últimos meses com o endividamento das famílias cada vez mais atingindo níveis preocupantes. Para as construtoras do programa Minha Casa, Minha Vida, isso aumenta o risco de inadimplência, especialmente nas parcelas da entrada dos imóveis — conhecidas no setor como pró-soluto e financiadas diretamente pela própria construtora.

Por isso, a companhia optou por adotar uma postura mais conservadora nas provisões e pretende reduzir gradualmente sua exposição ao pró-soluto após a entrega das chaves (TCD). Segundo Garcia, a estratégia será facilitada pelos reajustes de preços implementados ao longo do primeiro semestre, permitindo diminuir esse risco sem pressionar as margens nem recorrer a cortes nos preços dos imóveis.

A empresa também afirmou que seguirá ajustando suas políticas de crédito e intensificando as ações de cobrança ao longo do segundo semestre.

AutorBia Azevedo
FonteSeu Dinheiro
Distribuído por