Após Huawei, Xiaomi lança chip para smartphone visando reduzir dependência de fornecedores
O Xring O3, fabricado em processo de 3 nanômetros pela taiwanesa TSMC, pressiona Qualcomm e MediaTek, mas, ao contrário da rival Huawei, a Xiaomi não está sob sanção americana e ainda depende fortemente dos fornecedores estrangeiros

A Xiaomi lançou nesta segunda-feira, 25, um novo processador para seus aparelhos de linha principal, movimento que pressiona diretamente Qualcomm e MediaTek, fornecedoras que por anos garantiram o componente mais estratégico dos smartphones da chinesa.
O chip, batizado Xring O3, foi anunciado pela empresa, sediada em Pequim, em publicação na rede social chinesa Weibo, com promessa de processamento de imagem mais eficiente em energia e capacidades de inteligência artificial reforçadas.
Segundo publicação do fundador Lei Jun no WeChat, o novo silício é fabricado em processo de 3 nanômetros, mais próximo do nó usado nos chips A19 Pro mais recentes da Apple, e bem à frente dos designs internos do maior rival doméstico da Xiaomi, a Huawei. A fabricação ficou a cargo da taiwanesa TSMC, segundo apurou a Reuters.
Em nota, os analistas Steven Tseng e Rebecca Wang, da Bloomberg Intelligence, observam que o Xring O3 mantém o processo de 3 nanômetros mesmo enquanto concorrentes de ponta já migram para 2 nanômetros, sinal de que a Xiaomi está apostando mais em arquitetura e recursos do que em miniaturização pura para buscar ganhos de desempenho.
Segundo eles, o redesenho de computação, memória mais rápida e IA embarcada mais robusta devem ajudar a diferenciar os smartphones topo de linha da marca, e espalhar os chips Xring por mais aparelhos deve maximizar a eficiência do investimento em pesquisa e desenvolvimento.
A ressalva dos analistas, porém, é dura: o volume de produção do chip próprio ainda é limitado, o que significa que a Xiaomi continuará fortemente dependente de Qualcomm e MediaTek no curto e médio prazo. Ter um chip interno para seus produtos principais fortalece o poder de barganha da empresa nas negociações com fornecedores e reforça o apelo da marca num mercado extremamente competitivo, mas não substitui, ainda, a base de fornecimento externa.
Duas estratégias, duas situações regulatórias
O caso da Xiaomi contrasta com o da Huawei, que passou a usar processadores próprios da linha Kirin em seus aparelhos premium depois que uma série de restrições americanas cortou o acesso da empresa a fornecedores globais essenciais, incluindo a própria Qualcomm.
A Xiaomi está numa posição distinta: não está sob sanções que a impeçam de continuar contratando fornecedores internacionais, o que torna sua aposta em silício próprio mais uma escolha estratégica de longo prazo do que uma necessidade imediata de sobrevivência.
Ainda assim, o movimento se encaixa num esforço mais amplo da China por autossuficiência em semicondutores, tema que a EXAME já vem acompanhando, num país que segue atrás da liderança em Taiwan, mas que transformou a pressão comercial dos Estados Unidos em incentivo político para nunca mais depender tanto de chips estrangeiros.
A própria Huawei anunciou recentemente uma nova arquitetura, batizada Lei de Escalonamento de Tau, que promete aproximar seus processadores dos concorrentes de ponta até 2031, mesmo sem acesso aos equipamentos de fabricação mais avançados controlados pelos americanos.
