Após privatização, Copasa corre para renovar contratos e universalizar o saneamento em Minas
Sob o comando da Equatorial, a Copasa inicia uma corrida para renovar mais de 200 contratos, destravar novos investimentos e cumprir a meta de saneamento até 2033

Entre sítios e plantações de alface, operários a serviço da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) assentam tubos de 1,8 metro de diâmetro que cruzam o município de Mário Campos, de apenas 15.000 habitantes, a cerca de 50 quilômetros de Belo Horizonte. É uma obra complexa que envolve escavações por baixo de linhas férreas para permitir a passagem de tubulações de grande porte. O resultado compensa o esforço. A primeira etapa da obra, já concluída, acrescentará até 86 milhões de litros de água por dia ao sistema, por meio de 3 quilômetros de adutoras que ligam a Estação de Tratamento de Água (ETA) Rio Manso, do Sistema Paraopeba, à torneira de 6 milhões de mineiros na região metropolitana da capital.
A obra que a EXAME visitou é apenas uma das mais de 100 que estão sendo executadas pela empresa. Até o fim de 2027, a previsão é de que 12 quilômetros de tubulações de água tratada sejam entregues entre as cidades de Mário Campos, Sarzedo e Betim, em um investimento de 400 milhões de reais. É uma corrida contra o tempo para cumprir a legislação que determina 99% de cobertura de água e 90% de cobertura de esgoto até 2033.
Nas últimas semanas, o esforço passou a ser coordenado por um novo acionista. No início de junho, a Equatorial, com atuação em energia e saneamento, passou a ser acionista de referência da estatal mineira, em uma oferta de 5,6 bilhões de reais por 30% da empresa. É o segundo grande desafio no setor assumido pela Equatorial em dois anos, depois de incorporar a Sabesp, em São Paulo. Em Minas, a companhia já chegou sabendo que vai precisar acelerar os investimentos — e destravar uma série de nós — para cumprir as metas e transformar o negócio. É um teste relevante para um país que ainda investe cerca de metade dos 200 bilhões de reais estimados como necessários para universalizar o saneamento.
“Neste momento, nos livramos das amarras públicas para criar um modelo de eficiência”, diz Marília Carvalho de Melo, presidente da companhia. Com quase 20 anos de experiência no setor público, a ex-secretária de Meio Ambiente foi alçada ao cargo no fim de 2025 para conduzir a venda da empresa.
B3, em São Paulo: cerimônia concretizou venda da Copasa por 8,38 bilhões de reais (Copasa/Divulgação)
A privatização aconteceu após sete anos de idas e vindas. A empresa, criada em 1963 e com ações em bolsa desde 2006, entrou no radar do então governador Romeu Zema (Novo) durante seu primeiro mandato, em 2019. Sem força política na Assembleia Legislativa para aprovar a mudança na lei que permitiria o avanço do projeto, a privatização virou uma agenda do segundo governo, após reeleição em 2022. “Quando ganhamos, muitos acreditavam que abandonaríamos o projeto de privatização. Em vez disso, nós dobramos a aposta”, diz Mateus Simões, atual chefe do Executivo mineiro e quem acompanhou cada fase do processo até sua conclusão.
Foram estudados o fatiamento da companhia em blocos, num projeto do BNDES, e a federalização para abater parte da dívida estadual com a União.
“A Copasa virou uma necessidade e uma oportunidade”, afirma. O desenho final do negócio veio em 2025, quando o governo federal sancionou um programa para facilitar as renegociações das dívidas dos estados com a União. Minas deixou a federalização de lado e decidiu usar o valor da venda da Copasa de entrada para renegociar os 179 bilhões de dívidas e levar a empresa à iniciativa privada. Na avaliação da gestão mineira, a mudança permitiria atacar uma das principais dificuldades da estatal: a lentidão na contratação e na execução de obras. Com a perspectiva de ganho de eficiência e valorização, Simões decidiu manter o estado com 5% das ações da companhia. “Vou deixar para o governo vender quando o preço estiver alto”, diz.
A privatização saiu do papel em pouco mais de um ano. A aprovação de uma lei que retirou a exigência de referendo popular, mudanças regulatórias e a renovação do contrato com Belo Horizonte, responsável por 30% do faturamento, abriram caminho para a venda. A Equatorial encontra em Minas uma empresa com números superlativos.
A Copasa possui concessões em 636 municípios, sendo 309 com contratos de água e esgoto e o restante apenas de água. Somadas, as redes se estendem por 70.000 quilômetros — o suficiente para dar quase duas voltas ao redor da Terra. Os investimentos anuais previstos antes da venda chegavam a 3,1 bilhões de reais, os maiores da história. “Essa operação reúne todos os elementos que buscamos em uma alocação de capital: relevância, alinhamento estratégico e potencial de geração de valor”, afirmou Augusto Miranda, CEO da Equatorial, em conferência com investidores após a vitória no processo.
Parte da geração de valor, na visão do grupo, poderá vir de uma receita conhecida em outras aquisições: eficiência operacional. Entre as alavancas estão redução do quadro, horas extras e adicionais salariais. Hoje, o custo com pessoal representa 40% das despesas. A referência é o próprio histórico da Equatorial: na Sabesp, os custos operacionais caíram cerca de 15% em dois anos. O plano na Copasa é combinar o quadro técnico interno com executivos do mercado. A execução deve começar em setembro, após os trâmites no Cade, órgão de defesa da concorrência, e a assembleia dos novos acionistas.
Geração de valor
A busca por eficiência não começa do zero. A Equatorial encontrará uma Copasa mais enxuta e rentável do que aquela que entrou no radar da privatização sete anos atrás. A empresa reduziu o quadro em 2.000 pessoas em seis anos e chegou a março de 2026 com 1,16 funcionário por ligação de água ou esgoto, principal indicador de eficiência do setor. Quanto menor essa relação, maior é a capacidade de atender a uma ampla base de clientes com uma estrutura mais otimizada.
A reorganização também chegou à estrutura interna. As unidades operacionais foram reduzidas para quatro diretorias, em um espelho do que foi feito na Sabesp. A empresa criou um centro de serviços compartilhados em Belo Horizonte para otimizar contratações e ganhar escala e eficiência. A avaliação -Triple A por agências de risco, nota máxima de boa pagadora, ajuda na captação de recursos.
Os efeitos aparecem no balanço. As margens líquidas registradas entre 2023 e 2025 foram as maiores da Copasa desde 2011, chegando a 19,5%. “A Copasa nunca foi tão rentável nos últimos 15 anos. Está com uma margem de lucro líquido magnífica”, diz Ricardo Machado Ruiz, doutor em economia pela The New School for Social Research, em Nova York, e ex-conselheiro do Cade. A Sabesp, hoje privada, atingiu uma margem líquida de 22% no último trimestre. Na avaliação do também professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os resultados podem ser ainda melhores com o fim das amarras estatais. “Vem uma nova Copasa por aí, longe da restrição fiscal violenta”, diz.
Esses números também já haviam chamado a atenção de investidores antes mesmo da privatização. Como da Perfin, gestora de investimentos independentes de longo prazo. Com a privatização, o grupo se tornou o segundo maior acionista da Copasa, com 20% das ações. A construção dessa posição, porém, começou cerca de um ano e meio antes da conclusão do processo. A avaliação era de que a empresa valia mais do que indicava sua cotação.
“Havia muita coisa que, independentemente até da própria privatização, víamos mal precificada”, diz Carolina Rocha, COO e sócia da gestora. Ela afirma ainda que a mudança abre espaço para rever desde a forma de contratar fornecedores até os prazos e a organização dos investimentos. “Achamos que existe um retorno bastante razoável dentro da companhia, por isso temos bastante conforto de continuar dentro da tese [da Copasa]”, afirma.
Marília Carvalho de Melo, CEO da Copasa: “A Copasa entra nessa nova fase em uma condição muito favorável para dar respostas rápidas” (Copasa/Divulgação)
O primeiro grande teste da nova empresa está nos contratos. Dos 636 municípios atendidos pela Copasa, apenas 15 renovaram o contrato até 2073. Outros 273, que têm apenas cobertura de água e podem ser renovados com a inclusão do esgoto, estão em aberto. Existem ainda 58 cidades com o contrato encerrado sem renovação, mas com o serviço em operação. Hoje, 331 cidades em contrato com a Copasa não dão lucro. Ainda assim, entre os dez maiores contratos, só dois foram renovados, mantendo incerteza sobre acordos associados a 70% da receita.
“Sem dúvida vai ser um ponto-chave nos primeiros meses da nova gestão”, diz Lucas Rodrigues, sócio e especialista em saneamento da Perfin. A adesão é decisiva para definir não apenas o tamanho da companhia no futuro mas também a dimensão dos investimentos necessários nos próximos anos.
Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), levantados pela EXAME, mostram que pelo menos 170 cidades mineiras que podem incluir esgoto no contrato estão com 0% de tratamento de esgoto ou não disponibilizaram informações.
O plano de investimento de 21 bilhões de reais até 2030 está em revisão. Nas contas da Trata Brasil, o novo valor pode ultrapassar 28 bilhões para universalização com os novos municípios. O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) estima que serão necessários mais 5 bilhões de reais, além dos 21 bilhões de reais que já estavam previstos. O banco ainda leva em conta que a renovação com todos os municípios acrescentará até 1,5 milhão de novas ligações de esgoto.
A expectativa da Perfin é de que Minas possa repetir uma experiência já vivida no Rio Grande do Sul. Na Corsan, a concessionária gaúcha, cerca de metade dos contratos estava renovada na privatização; de lá para cá, a proporção chegou a 95%. “Achamos que será um ambiente muito parecido”, diz Rodrigues.
A expectativa do presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM) e prefeito de Iguatama, Lucas Vieira, é de que todas as cidades renovem. Ele também elogiou a atual gestão, que tem realizado reuniões com gestores públicos. “No primeiro momento, ficavam meio receosos com toda a situação, mas hoje, não”, diz. “Os prefeitos já estão bem pró [renovação], estão dialogando”, afirma. A adesão poderá ocorrer até 29 de setembro. O município que não recusar o novo acordo terá o instrumento renovado automaticamente. Entre as medidas de convencimento estão um aporte de 350 milhões de reais no fundo de saneamento municipal, uma tarifa única para todas as cidades, mesmo as deficitárias, e a cobrança da tarifa de esgoto apenas a partir de 2029.
Estação de tratamento de esgoto Sarzedo: a renovação de contratos pode adicionar 1,5 milhão de novas ligações de esgoto da Copasa (Copasa/Divulgação)
A adesão de mais municípios, porém, amplia também o tamanho da conta da universalização. A receita com esgoto cresce a partir de 2029, mas os investimentos vêm antes. À medida que novas cidades aderirem e os investimentos avançarem, a Copasa terá de encontrar recursos para financiar a expansão. Parte da resposta está no novo modelo regulatório, que permite incorporar os investimentos à base de ativos remunerada da companhia e, assim, recuperar esses aportes por meio das tarifas.
Nas projeções do BTG Pactual, as tarifas devem subir acima de dois dígitos em 2028 e 2029, com alta de até 17% em 2029. O Citi, em relatório, cita a tarifa como um “risco político” num cenário eleitoral indefinido em Minas: se o próximo governo atribuir à companhia a responsabilidade pelos preços, pode haver pressão sobre a ação e dificuldade para atingir a estimativa otimista de 80 reais. Hoje, o papel opera perto de 63,29 reais, ante 20,50 reais em janeiro de 2025, quando o processo ganhou corpo.
Por trás da conta bilionária e da pressão sobre as tarifas está o objetivo final: transformar investimento em receita recorrente para a empresa e em desenvolvimento para o estado. Um estudo da Trata Brasil mostra que a universalização do saneamento pode gerar 70 bilhões de reais até 2040 para a economia mineira. Os ganhos vão de aumento de produtividade no emprego até diminuição do gasto em saúde. Minas registrou 46.198 internações e 766 óbitos no último ano por doenças relacionadas ao saneamento inadequado.
O desafio de transformar esses benefícios em realidade não será tarefa exclusiva da Copasa. Nove projetos de saneamento previstos para leilão no país somam cerca de 58,4 bilhões de reais em investimentos para 18 milhões de pessoas. Essa nova onda encontrará um mercado diferente: parte dos maiores ativos já está com operadores como Aegea, Iguá e Sabesp, comprometidos com bilhões em investimentos. “Esse comprometimento dos grandes também abre espaço para novos operadores”, diz Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria e especialista em infraestrutura e saneamento, que cita GS Inima, Acciona e Norte Saneamento entre os nomes que podem avançar. A oportunidade vem acompanhada de maior complexidade. “O Brasil aderiu ao novo marco com os projetos mais rentáveis, com os maiores. Agora, os que vão vir são uma segunda leva que não eram os mais triviais”, afirma.
Para a Copasa, um mercado aquecido significa disputar não apenas capital, mas também fornecedores, mão de obra e capacidade de execução para transformar bilhões de reais em obras. É em lugares como Mário Campos, em meio aos pés de alface, que todo esse dinheiro pode efetivamente fazer a diferença na vida dos cidadãos.
“Necessidade e uma oportunidade”
Articulador da privatização da Copasa, o governador de Minas Gerais e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD), fala sobre as razões para a venda, a escolha da Equatorial e os desafios à frente
Mateus Simões: “Minha confiança é tão grande no sucesso da operação que eu não permiti que vendessem os outros 5%” (Guilherme Bergamini/ALMG/Divulgação)
Por que privatizar a Copasa?
A Copasa sempre foi economicamente e financeiramente saudável, mas faltou durante muito tempo capacidade de execução das obras. Ela era ruim para contratar, descontratar e fiscalizar. Parte disso resolvemos com a profissionalização, mas parte é insolúvel dentro do modelo estatal. Quando o Propag (o programa federal para renegociar dívidas estaduais) começou a ser discutido, a Copasa virou uma necessidade e uma oportunidade. A venda passou também a ser essencial para a adesão de Minas ao programa de renegociação da dívida com a União.
A escolha da Equatorial foi o resultado que o governo esperava?
Quando me convenci da necessidade de um investidor de referência, sabia que tínhamos poucas possibilidades. Não adianta ter um sócio de referência que não tenha nada de saneamento. Fora Aegea e Equatorial, não temos outro grande grupo no Brasil com condição de assumir uma operação desse tamanho. Ter ficado com a Equatorial traz mais tranquilidade para quem estava atrás de um sócio de referência. Acho que a operação foi de extremo sucesso.
A falta de renovação dos contratos com parte dos municípios preocupa?
Os municípios que importam financeiramente para a Copasa já renovaram. Os pequenos são deficitários e, se resolverem não renovar, a companhia ganha valor. É péssimo para os municípios. Por isso, não recomendo que fiquem de fora. Eles assumirão o risco de ter de tirar dinheiro do bolso do munícipe para fazer uma infraestrutura que não dominam. Quero que todos façam a adesão. Quando a Equatorial comprou, já sabia que teria de fazer esses investimentos caso os municípios aderissem.
Há risco de a privatização resultar em tarifas mais altas?
A revisão tarifária está a quatro anos de distância e temos reajustes contratuais anuais. Pode ser que um ou outro pague mais se a companhia melhorar a identificação de fraudes. Se houver gato, tem que ser cobrado, porque hoje esse custo já recai sobre quem paga corretamente. Mas tenho certeza de que o consumidor médio não vai perceber nenhuma alteração. O que espero é que ele perceba uma melhora na qualidade do serviço. Agora temos muito mais condição de ser duros com a Copasa: está contratado? Executou? Ótimo. Não executou? Medição, multa e penalidade.
Qual é o maior desafio da nova Copasa para cumprir os investimentos?
O problema tem menos a ver com capacidade de captar dinheiro e mais com capacidade de executar obras. Hoje nós temos um drama no Brasil: o volume de obras da Sabesp faz com que haja pouca disponibilidade de prestadores especializados. Por outro lado, essa demanda também empurrou mais gente para se capacitar. Não dá para diminuir a velocidade, porque senão perdemos os prazos. Acredito que até novembro ou dezembro teremos um bom desenho do cronograma de execução.
Por que o Estado manteve 5% da Copasa?
Minha confiança é tão grande no sucesso da operação que eu não permiti que vendessem os outros 5%. Tenho certeza de que vamos ter eficiência operacional, ganho de escala e melhoria de velocidade, e a companhia será cada vez mais valorizada. Vou deixar para o governo vender quando o preço estiver alto.
