Arábia Saudita, Iêmen e Iraque: os novos países envolvidos na guerra Irã-EUA
Nesta quarta-feira, 29, EUA e Arábia Saudita realizaram uma série de bombardeios contra bases de milícias iraquianas, que resultaram em 20 mortes

Iniciada em fevereiro, com ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, a guerra no Oriente Médio se estendeu a novos países na última semana. Após o fechamento do Mar Vermelho e ataques a alvos sauditas por rebeldes Houthis do Iemen, apoiados pelo governo iraniano, a Arábia Saudita passou a participar diretamente da guerra ao lado dos EUA. Outra nova chegada é a do Iraque, que, após um período de relativa estabilidade política, também foi envolvido na guerra após iraquianos membros de milícias alinhadas a Teerã serem mortos em ataques sauditas e americanos.
Nesta quarta-feira, 29, EUA e Arábia Saudita realizaram uma série de bombardeios contra bases das Forças de Mobilização Popular (PMF, na sigla em inglês), coalizão que reúne dezenas de milícias iraquianas, muitas delas apoiadas financeiramente e militarmente pelo governo iraniano. Segundo o PMF, ao menos 20 combatentes morreram nos ataques.
Autoridades americanas disseram ao New York Times que entre os mortos estavam cerca de 20 conselheiros iranianos, integrantes da Guarda Revolucionária Islâmica e técnicos militares que atuavam junto às milícias.
Os bombardeios ampliam oficialmente o teatro de operações para o território iraquiano. Até então, Bagdá vinha tentando equilibrar sua relação tanto com Washington quanto com Teerã, evitando ser arrastada diretamente para a guerra. O governo iraquiano condenou os ataques e classificou a operação como uma violação da soberania nacional.
Teerã: imagens contrárias a Trump inundam as fachadas da capital iraniana (AFP)
Ao mesmo tempo, a escalada militar provocou forte reação nos mercados internacionais. Os preços do petróleo dispararam diante do temor de que a guerra comprometa ainda mais a oferta global de petróleo, especialmente após o bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz e a redução das exportações sauditas pelo Mar Vermelho.
Arábia Saudita e Houthis em conflito no Mar Vermelho
A entrada oficial da Arábia Saudita na guerra ocorreu na sexta-feira passada, 24, depois de uma série de ataques atribuídos aos Houthis, grupo rebelde do Iêmen apoiado pelo Irã.
Houthis: grupo rebelde do Iêmen luta contra a Arábia Saudita no Mar Vermelho desde a semana passada (AFP)
Segundo autoridades americanas, milícias pró-Irã lançaram mais de 30 ataques com drones nesta semana contra forças dos Estados Unidos no Oriente Médio e contra instalações petrolíferas sauditas. Em resposta, Riad realizou, pela primeira vez de forma assumida publicamente, bombardeios conjuntos com Washington contra grupos aliados de Teerã no Iraque.
Embora a Arábia Sauditamantenha uma histórica rivalidade com o Irã, o reino vinha tentando reduzir as tensões nos últimos anos para preservar seus projetos econômicos e de diversificação da economia.
Analistas ouvidos pelo New York Times afirmam que o governo saudita evitou entrar diretamente no conflito durante meses, mas decidiu agir após sucessivos ataques contra seu território e sua infraestrutura energética.
O porta-voz do Ministério da Defesa saudita, general Turki al-Malki, afirmou que o país "não busca escalada", mas exercerá seu direito de autodefesa diante de novas agressões.
Além dos ataques diretos, osHouthis mantêm uma campanha contra o transporte marítimo no Mar Vermelho. O grupo reivindicou novos ataques contra navios sauditas e declarou um bloqueio aos petroleiros do reino que cruzam a região na última semana.
A instabilidade em outras rotas marítimas e alta no petróleo
Nesta quarta-feira, 29, duas embarcações pegaram fogo após uma explosão no porto egípcio de Damietta, no Mediterrâneo. Uma delas pertence a uma empresa americana de armazenamento de gás natural.
Empresas de monitoramento marítimo apontam fortes indícios de que o incidente tenha sido provocado por drones, embora as autoridades egípcias ainda investiguem as causas.
O impacto já chegou ao mercado internacional de energia. O barril do petróleo Brent fechou em alta de 7,91%, cotado a US$ 90,74, enquanto o WTI avançou 6,56%, para US$ 84,46. Segundo analistas, os investidores temem que a expansão do conflito comprometa ainda mais a produção e o transporte de petróleo na região.
Conflito se estende ao Iraque
O novo foco da guerra tem como principal alvo as Forças de Mobilização Popular (PMF), coalizão formada por dezenas de milícias xiitas criada em 2014 para combater o Estado Islâmico.
Luto no Iraque: ataques americanos e sauditas foram responsáveis pelas mortes de 20 pessoas ligadas a milícias locais (AFP)
A origem desses grupos, porém,remonta à invasão americana do Iraque em 2003. Na época, diversas milícias foram treinadas e armadas pelo Irã para combater as tropas americanas que ocupavam o país. Mais tarde, durante a ofensiva contra o Estado Islâmico, elas passaram a atuar de forma coordenada dentro do PMF e, em vários momentos, chegaram a cooperar com a coalizão internacional liderada pelos próprios Estados Unidos.
Com o tempo, essas milícias ampliaram sua influência política. Parte de seus líderes assumiu cargos no governo iraquiano e o PMF passou oficialmente a integrar a estrutura das forças de segurança do país. Apesar disso, várias organizações continuam operando com ampla autonomia e preservam estreitas relações com Teerã.
Entre os grupos atingidos pelos bombardeios desta quarta-feira está a Organização Badr, uma das milícias mais poderosas do Iraque e historicamente próxima da Guarda Revolucionária iraniana. Outra organização frequentemente envolvida no conflito é a Kataib Hezbollah, considerada organização terrorista pelos Estados Unidos desde 2009.
Segundo Washington, os ataques tiveram como objetivo impedir que essas milícias continuem lançando drones e mísseis contra forças americanas e contra instalações sauditas. Nenhuma delas assumiu oficialmente os ataques recentes à Arábia Saudita.
Fontes ligadas ao PMF informaram à AFP que cinco conselheiros iranianos morreram nos bombardeios. Correspondentes da agência acompanharam funerais em Bagdá e registraram caixões cobertos por bandeiras iranianas.
Após os ataques, a chamada Resistência Islâmica no Iraque, aliança de grupos armados pró-Irã, afirmou que uma resposta contra Estados Unidos e Arábia Saudita é "inevitável" e indicou que novos ataques poderão atingir interesses americanos e sauditas na região.
O governo do primeiro-ministro Ali al-Zaidi voltou a defender que o território iraquiano não seja utilizado nem como plataforma para ataques contra países vizinhos nem como campo de disputa entre potências estrangeiras. O Conselho de Segurança Nacional do Iraque anunciou um plano para reforçar o controle estatal sobre o país e impedir que grupos armados utilizem o território iraquiano para ampliar a guerra regional.
Apesar dessas iniciativas, tentativas anteriores de integrar completamente as milícias ao Estado fracassaram, e algumas das organizações mais influentes continuam rejeitando qualquer limitação à sua autonomia.
