Argentina sobe no radar dos investidores com novo rating da S&P

A decisão da agência de classificação de risco S&P Global Ratings de elevar a nota de crédito soberano da Argentina impulsionou os títulos da dívida pública do país denominados em dólares, que registraram valorização em toda a curva de vencimentos nesta quinta-feira, 11. Os papéis de longo prazo apresentaram alta superior a 2 centavos de dólar, refletindo o otimismo do mercado com o segundo upgrade recebido pelo país em um período inferior a dois meses.
O movimento levou os títulos globais com vencimento em 2035, que servem como referência para a dívida internacional argentina, a avançarem até 2,9 centavos, atingindo a cotação de 79,4 centavos de dólar — o maior valor nominal para os papéis emitidos na reestruturação de 2020. No mesmo ritmo de alta, os títulos de médio prazo, com vencimento em 2030, registraram avanço superior a 1,2 centavo.
Fundamentos para a elevação de rating da S&P
A agência elevou a nota de crédito soberano da Argentina após o fechamento dos mercados na quarta-feira. A instituição citou a consolidação de resultados fiscais positivos e o conjunto de medidas adotadas pela administração de Javier Milei, presidente da Argentina, para assegurar o cumprimento dos pagamentos futuros da dívida externa.
Com o ajuste, a classificação do país subiu de CCC+ para B-, posicionando a nota soberana argentina seis níveis abaixo do considerado grau de investimento. A agência atribuiu uma perspectiva estável para o novo rating.
De acordo com o relatório, os principais fatores determinantes para a decisão foram a redução das vulnerabilidades econômicas e a melhoria dos indicadores de liquidez externa. Os analistas da agência pontuaram que a combinação de superávits fiscais contínuos e o acúmulo de reservas cambiais por parte do banco central fortaleceram o perfil financeiro do governo, estabelecendo bases para uma recuperação econômica.
Patrícia Krause, economista-chefe da Coface para a América Latina, entende que isso é um reconhecimento para a melhora do cenário fiscal argentino: “Neste ano o governo tem conseguido acumular reservas internacionais, ainda que o risco seja alto e as reservas sigam em um patamar baixo. É um avanço”.
A economista explica, ainda, que o movimento tende a comprimir os spreads, reduzindo o custo de captação de novas dívidas e pode aumentar a confiança de investidores. Krause, contudo, alerta que o crescimento desigual no país fez com que aumentasse, nos últimos meses, o nível de inadimplência bancária, especialmente das famílias, que chegou a 11,5% em março.
Diretrizes econômicas e histórico das classificações
A valorização dos ativos ocorre em um cenário de aperto fiscal, desregulamentação econômica e reestruturação do regime monetário e cambial conduzidos pelo governo federal. No decorrer deste ano, o banco central argentino realizou a compra de mais de US$ 10 bilhões em reservas cambiais. Para o atendimento das demandas financeiras imediatas, o governo tem recorrido a canais locais de financiamento — incluindo emissões domésticas atreladas ao dólar — e a empréstimos com garantias de organismos multilaterais.
A manutenção do superávit fiscal primário tem sido respaldada pelo desempenho do setor de exportações, com destaque para os embarques dos complexos agrícola e de energia. O desempenho levou os spreads dos títulos de volta aos patamares mínimos da atual gestão.
Com a atualização, a S&P alinha-se à Fitch Ratings, que em maio já havia elevado a nota da Argentina da categoria CCC para B-, também com perspectiva estável. Adicionalmente, a agência Moody’s Ratings atribui ao país a nota Caa1, após duas revisões altistas, sendo a última realizada em julho de 2025.
Desafios fiscais e cenário político
Apesar das revisões positivas, o relatório da S&P pondera que o governo argentino deve enfrentar condições desafiadoras nos próximos 18 meses, período que antecede a preparação para as eleições presidenciais de 2027. O documento sinaliza que investidores mantêm questionamentos acerca da sustentabilidade das reformas estruturais em caso de alternância de poder.
Contudo, a agência ressaltou que a atual política econômica do país apresenta mecanismos estruturados para suportar as pressões fiscais e financeiras durante o próximo ciclo eleitoral.
