Arquiteto do iPhone, John Ternus estreia no comando da Apple com lucro em alta e marca em xeque
Como a estreia do novo CEO John Ternus no evento desta quarta-feira, 9, testam se a gigante de Cupertino ainda dita o ritmo da tecnologia ou se virou refém de sua própria sombra

A transição de comando na Apple chega nesta quarta-feira, 9, ao seu primeiro grande teste. Realizado às vésperas do evento anual mais importante da companhia, o "Surprise and Shine", no Steve Jobs Theater, em Cupertino, marca a estreia de John Ternus à frente da empresa — e ocorre em um momento de forte pressão para que a Apple volte a sustentar uma de suas principais promessas de marca: a inovação.
Ternus assumiu o cargo após Tim Cook, CEO da companhia por 15 anos, tornar-se chairman do conselho de administração. Funcionário da Apple há mais de 25 anos e ex-vice-presidente de engenharia, o executivo chega ao comando com um perfil mais ligado ao desenvolvimento de produtos e hardware.
Para o especialista em branding Galileu Nogueira, o momento escolhido para a sucessão não é trivial. "Quando a Apple decide anunciar um novo CEO às vésperas de seu maior evento e vitrine da marca, na perspectiva de brand, isso tem um objetivo muito claro, que é posicionar uma nova era. A nova era de John Ternus simboliza uma guinada estratégica: a troca da eficiência operacional de Tim Cook pelo perfil focado em hardware e inovação de Ternus, sinalizando ao mercado e aos investidores que a Apple volta a priorizar o produto e as necessidades do consumidor."
Do ponto de vista financeiro, Ternus herda uma companhia em posição sólida. No trimestre mais recente, a receita do iPhone avançou 22%, para US$ 54,25 bilhões, enquanto Serviços alcançou US$ 30,74 bilhões, alta de 12% na comparação anual. A base ativa da Apple chegou a 2,5 bilhões de dispositivos, segundo dados citados pelo BofA.
Para o Citi, a combinação entre essa enorme base instalada, mercados ainda pouco explorados e o potencial de monetização dos pagamentos abre espaço relevante para a expansão de Serviços.
O desafio da inovação
Se os números operacionais dão conforto, a percepção da marca conta outra história. O pano de fundo da troca de comando é o desgaste da imagem da Apple como referência em inovação, sobretudo diante do avanço da inteligência artificial generativa.
No Kantar BrandZ 2026, a Apple aparece na segunda posição, com a marca avaliada em US$ 1,3 trilhão, após perder neste ano a liderança global para o Google. Para Nogueira, o movimento reflete, em parte, a demora da companhia em responder à corrida da IA.
"Do ponto de vista de operação, a Apple apresentou ótimos resultados. Mas todos os principais índices de valor de marca mostram um sinal de alerta. Além da perda de lugar para o Google no ranking da Kantar, no da Interbrand houve uma queda de 4% no valor total de marca, e isso tem relação com os atrasos de lançamentos relacionados a IA."
O problema ganha peso porque, nos últimos anos, inteligência artificial e inovação passaram a caminhar quase como sinônimos no setor de tecnologia. Para uma empresa que construiu parte relevante de seu valor sobre a capacidade de antecipar tendências e redefinir categorias de produtos, ficar atrás nessa corrida cobra um preço.
"Quando a IA generativa explode em termos de consumo e a Apple deixa de entregar novidades ao mercado, principalmente envolvendo a Siri, que foi sinônimo de IA por anos, um clima de desconfiança passou a ser criado a cada lançamento. Os investidores começaram a pressionar a empresa para ter simplesmente algum tipo de lançamento, algum produto, alguma coisa que faça o atributo de inovação voltar a construir para a marca no longo prazo", afirma Nogueira.
É nesse contexto que o primeiro grande evento sob o comando de Ternus ganha uma dimensão que vai além dos novos aparelhos. As expectativas em torno do "Surprise and Shine" se concentraram em entregas capazes de romper a percepção de estagnação: das novas linhas Pro ao aguardado primeiro iPhone dobrável, além de atualizações consideradas fundamentais para reposicionar a estratégia de inteligência artificial da Apple.
Para Nogueira, o evento funciona como um teste de fogo para o novo CEO e pode colocar a marca diante de dois caminhos. Se a apresentação se limitar a inovações incrementais, preços mais altos e poucos avanços na Siri, a troca no comando corre o risco de ser interpretada como uma mudança de nomes sem alteração de rumo.
No cenário oposto, uma novidade capaz de surpreender o mercado — como o aguardado iPhone dobrável — pode ajudar Ternus a recuperar um atributo que durante décadas diferenciou a Apple de seus concorrentes: a capacidade de transformar novos produtos em acontecimentos. Além de renovar a percepção de inovação, uma entrega desse porte poderia estimular um novo ciclo de troca de aparelhos e reforçar a tese de crescimento da companhia entre os investidores.
