Artur Grynbaum, do Grupo Boticário, defende adiar reforma tributária: 'É mais sensato postergar'
Artur Grynbaum critica falta de clareza nas regras e defende adiar implementação para 2028; pesquisa da ABF mostra que carga tributária é a principal preocupação das franquias

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Artur Grynbaum, vice-presidente do Conselho do Grupo Boticário, companhia com mais de 4 mil pontos de venda, defendeu postergar a reforma tributária para 2028, a pouco mais de dois meses do início da implementação. O executivo cita falta de clareza nas regras; pesquisa da ABF e do Sebrae mostra que 55% dos franqueadores apontam a carga tributária como principal desafio.
A pouco mais de dois meses do início da implementação da reforma tributária, empresas ainda enfrentam incertezas sobre as alíquotas e as regras que vão orientar a cobrança dos novos impostos. A falta de definições preocupa o setor e dificulta o planejamento para 2027.
“É mais sensato postergar a implementação para 2028”, afirma Artur Grynbaum, vice-presidente do Conselho do Grupo Boticário, durante entrevista coletiva na ABF Con, conveção que reúne as maiores franquias do Brasil.
Embora concorde com os princípios que deram origem à reforma, como a simplificação do sistema, Grynbaum questiona a falta de clareza sobre pontos que afetam diretamente a operação das companhias.
Um prazo maior, segundo ele, daria às empresas mais condições de se preparar e reduziria o risco de erros e disputas sobre a interpretação das regras.
A preocupação não é isolada. Um estudo realizado pela ABF em parceria com o Sebrae mostra que a carga tributária é o principal desafio apontado pelos franqueadores para os próximos 12 meses. O tema foi citado por 55% dos entrevistados, à frente de mão de obra, juros e acesso a crédito e inflação.
Reforma tributária preocupa o setor de franquias
Um dos principais problemas apontados por Grynbaum é a falta de clareza sobre como as novas regras vão funcionar na prática. Sem definições sobre o cálculo de créditos e débitos tributários, as empresas têm dificuldade para estimar os efeitos da mudança sobre custos e rentabilidade.
A incerteza também chega à formação de preços. O executivo questiona como as companhias podem definir a precificação dos produtos sem saber exatamente quais regras tributárias deverão seguir.
Para uma operação da dimensão do Grupo Boticário, que conta com mais de 4 mil pontos de venda e GMV de R$ 38,1 bilhões, a adaptação envolve ainda sistemas, processos internos, controles de estoque e rotinas fiscais.
A companhia já mobilizou equipes para acompanhar a reforma e preparar a operação. Mesmo assim, Grynbaum vê dificuldades na transição, especialmente diante da possibilidade de trabalhar simultaneamente com dois sistemas tributários. Na avaliação dele, isso representa mais complexidade e custos para os negócios.
A preocupação vai além doGrupo Boticário e também se reflete nas decisões de investimento das redes de franquias. Nas entrevistas qualitativas da pesquisa da ABF e do Sebrae, franqueadores relataram que investidores têm adiado decisões à espera de definições sobre a reforma tributária.
A preocupação é ainda maior entre redes de médio e grande porte. Nesse grupo, 61% apontaram a tributação como um dos principais desafios para os próximos 12 meses, ante 44% das micro e pequenas empresas.
O estudo também aponta outros fatores de pressão sobre os negócios, como os juros altos, o aumento de custos, a compressão das margens e a sensibilidade dos consumidores aos preços.
Escala 5x2 também entra na conta do franchising
O fim da escala 6x1 também preocupa o Grupo Boticário. Grynbaum chamou a atenção para o impacto que a mudança pode ter sobre lojas com equipes reduzidas.
"As operações menores são as mais afetadas. O impacto para lojas com dois ou três funcionários chega a 50%", diz o executivo.
O efeito, porém, varia conforme o modelo de negócio e o tamanho da operação. Para redes que dependem de atendimento presencial e funcionam aos fins de semana, a mudança pode exigir novas contratações ou redistribuição das equipes.
A preocupação encontra eco em um estudo de impacto realizado pela ABF em março de 2026. A entidade avaliou diferentes modelos de negócio, estruturas de funcionários e formatos de contratação e identificou um potencial aumento de 20% no custo da folha em determinados modelos, como restaurantes e outros segmentos analisados.
A pesquisa da ABF e do Sebrae também mostra que a mão de obra já é uma preocupação relevante para o franchising. 55% das redes relataram dificuldade grande ou muito grande para contratar e reter funcionários.
Varejo enfrenta cenário desafiador em 2027
As mudanças regulatórias chegam em um momento de cautela para o varejo. Grynbaum avalia que o próximo ano deve ser desafiador para as empresas, em um ambiente marcado por juros elevados, pressão sobre a renda das famílias e consumidores mais atentos aos gastos.
“O cenário do varejo está mega desafiador”, diz Grynbaum. Uma das dificuldades apontadas por ele é a redução do fluxo de consumidores nas lojas físicas.
O custo do crédito também pesa sobre as decisões de investimento. Juros elevados tornam mais cara a expansão das operações e aumentam a concorrência entre investir em um negócio ou manter o capital aplicado em ativos financeiros. No franchising, esse cenário afeta tanto as redes que buscam crescer quanto os candidatos a franqueados que avaliam abrir uma unidade.
No Grupo Boticário, a estratégia para enfrentar as mudanças no comportamento do consumidor também passa por fortalecer a experiência nas lojas. A companhia tem investido em serviços que vão além davenda de produtos, como maquiagem, cuidados com a pele e cabelo e experiências de perfumaria. A ideia é aumentar o fluxo de clientes, estimular novas visitas e fazer com que a loja física tenha um papel que não se limite à transação comercial.
Para Grynbaum, o tamanho da operação não elimina a necessidade de se preparar para um ambiente em transformação. Entre areforma tributária, areorganização das jornadas de trabalho e um cenário econômico mais desafiador, o planejamento das empresas dependerá cada vez mais de previsibilidade e eficiência.
