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Sacre Investimentos
CiênciaCMDT
30/09/2026
5 min

'Árvore contra a fome' pode alimentar milhões no mundo. Mas por que quase ninguém a cultiva?

Resistente à seca e a doenças, ensete pode sustentar uma família com apenas 60 plantas e permanecer anos sem replantio

'Árvore contra a fome' pode alimentar milhões no mundo. Mas por que quase ninguém a cultiva?

Uma planta cultivada quase exclusivamente na Etiópia pode ter potencial para ampliar a oferta de alimentos em outras regiões da África. Conhecido como ensete, o vegetal é resistente à seca e a doenças e já serve como alimento básico para mais de 20 milhões de pessoas no país.

Segundo o Royal Botanic Gardens, Kew, no Reino Unido, pesquisadores estudam o potencial da cultura diante da insegurança alimentar e das mudanças climáticas. Apesar da semelhança com uma bananeira, seus frutos não são consumidos. O alimento é produzido principalmente a partir do pseudocaule e de uma estrutura subterrânea rica em amido.

Um estudo publicado na revista científica Environmental Research Letters estimou que a área potencial de cultivo poderia ser até 12 vezes maior que a atual. Nesse cenário, o ensete poderia contribuir para alimentar até 111,5 milhões de pessoas adicionais na África Subsaariana.

O potencial ajuda a explicar apelidos como “árvore contra a fome” e “falsa banana”. Mas também levanta uma questão: se a planta apresenta tantas vantagens, por que seu cultivo continua concentrado em uma pequena parte da África?

O que é o ensete?

O ensete pertence à família Musaceae, a mesma das bananeiras. Apesar de espécies selvagens ocorrerem em vários países africanos, do norte do Sudão a Moçambique, a forma cultivada está praticamente restrita à Etiópia. Mesmo dentro do país, sua produção se concentra principalmente nas regiões montanhosas do sudoeste, em altitudes entre 1.500 e 3.000 metros.

A planta pode atingir cerca de 10 metros de altura, mas não é uma árvore. Trata-se de uma erva gigante cujo “tronco” é um pseudocaule formado pela sobreposição das bases das folhas. É justamente essa estrutura, junto ao cormo subterrâneo, que fornece a parte aproveitada como alimento.

O material é triturado, misturado com levedura e passa por fermentação em fossas subterrâneas. O processo pode durar entre três meses e dois anos. A mistura é utilizada na produção do kocho, alimento etíope semelhante a um pão. Outro produto é a bulla, obtida de um líquido rico em amido e usada para preparar mingaus e outros alimentos.

Por que é chamada de 'falsa banana'?

A aparência explica parte da comparação com a banana, mas há uma diferença importante. Os frutos amarelos ou alaranjados do ensete possuem grande quantidade de sementes pretas e duras e não são utilizados como alimento. Por isso, a espécie também ganhou o apelido de “falsa banana”.

O valor alimentar está em outras partes da planta. De acordo com o Royal Botanic Gardens, Kew, cerca de 60 plantas podem sustentar uma família de cinco pessoas durante um ano.

O ensete também é perene e pode permanecer no campo por mais de dois anos sem precisar ser replantado. Além disso, apresenta alto rendimento e tolerância à seca e a doenças.

Essas características aumentam o interesse pela cultura diante de condições climáticas cada vez menos previsíveis.

Por que o ensete não se espalhou pelo mundo?

Apesar dessas características, levar o ensete para outras regiões envolve obstáculos que vão além das condições climáticas. Uma das barreiras está na transferência internacional de material vegetal. A Etiópia mantém regras rigorosas para proteger sua biodiversidade contra práticas como a biopirataria.

Variedades selvagens encontradas em outros pontos da África também não oferecem as mesmas características alimentares da planta domesticada cultivada pelos agricultores etíopes, segundo biólogos.

Há ainda dificuldades relacionadas ao próprio processamento. A colheita é bastante trabalhosa e realizada principalmente por mulheres. Universidades etíopes desenvolvem alternativas mecanizadas, mas elas ainda não foram implementadas em larga escala.

Além disso, transformar a planta em alimento exige conhecimento especializado, resultado de técnicas desenvolvidas durante séculos pelas comunidades locais.

Mudanças climáticas aumentam interesse pela planta

O ensete também desperta atenção diante dos efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura. A dependência global de poucas culturas pode deixar os sistemas agrícolas mais vulneráveis a pragas, doenças e alterações ambientais. Nesse cenário, espécies pouco utilizadas e adaptadas a diferentes condições podem ganhar importância.

Ao mesmo tempo, o cultivo do próprio ensete enfrenta pressão na Etiópia. Um estudo de 2025 realizado por pesquisadores dos Jardins Botânicos Reais de Kew e parceiros da Universidade de Addis Abeba entrevistou mais de 400 agricultores do sudoeste do país.

Cerca de 60% afirmaram que a área destinada ao ensete diminuiu nas últimas décadas. Muitos também relataram uma redução acentuada no consumo doméstico da planta.

Entre os fatores apontados estão urbanização, globalização e a substituição do ensete por culturas comerciais mais rentáveis, como trigo, milho e batata.

Diante desse cenário, pesquisadores de Kew desenvolvem projetos com agricultores etíopes para preservar variedades ameaçadas e manter a diversidade da cultura.

Para os cientistas, ampliar o interesse por culturas pouco exploradas como o ensete pode incentivar sua preservação e, ao mesmo tempo, aumentar as opções disponíveis para a produção de alimentos diante das mudanças ambientais.

AutorVanessa Loiola
FonteExame
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