As duas ameaças que podem complicar a vida de Trump nas eleições dos EUA
Pesquisa aponta preocupação de 75% dos americanos com o custo dos alimentos, enquanto cresce o risco de influência estrangeira

A menos de um mês das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, análises do Council on Foreign Relations (CFR), think tank americano de estudos de política externa, apontam que os dois problemas pressionam a confiança nas instituições em um momento de disputa pelo controle do Congresso: a insatisfação com o custo de vida, agravada pelas tarifas comerciais, e a ameaça de operações estrangeiras destinadas a influenciar o debate político ou a comprometer a segurança eleitoral.
Uma pesquisa do CFR, em parceria com a Morning Consult, indica que a preocupação com os preços atravessa diferentes grupos políticos, embora democratas e republicanos diverjam quanto às causas dos problemas econômicos e aos efeitos da política comercial de Trump.
Em paralelo, uma análise publicada pela instituição sobre ameaças eleitorais destaca que Rússia, China e Irã continuam desenvolvendo operações de influência, potencialmente facilitadas pelo avanço da inteligência artificial (IA). As eleições estão marcadas para 3 de novembro.
Tarifas ampliam preocupação com o custo de vida
Em meio à guerra comercial de Trump, cujas tarifas afetam exportadores importantes, eleitores se preocupam com custo de vida às vésperas das midterms (wildpixel/Getty Images)
O levantamento do CFR-Morning Consult, realizado em 18 e 19 de agosto com 2.200 adultos nos Estados Unidos, mostra que 75% dos entrevistados estão preocupados com a capacidade de pagar por alimentos e produtos de supermercado. Entre os que manifestaram essa preocupação, 83% afirmam que as tarifas elevam os preços desses produtos.
A apreensão também alcança outros setores: 68% dos americanos se preocupam com os custos de medicamentos e suprimentos médicos, 64% com roupas e calçados e 61% com tecnologia e eletrônicos. Os resultados reforçam o risco de que a política comercial da Casa Branca se torne um fator de desgaste eleitoral para os republicanos, que defendem as tarifas como instrumento de proteção da indústria nacional e de segurança econômica.
A percepção sobre os efeitos das tarifas, porém, varia conforme a filiação partidária. Enquanto 65% dos republicanos acreditam que a economia estará melhor daqui a um ano, 63% dos democratas preveem uma piora. Apesar dessa divergência, a preocupação com as despesas cotidianas é compartilhada por ambos os grupos.
A divisão também aparece na interpretação sobre quem paga os impostos de importação. Cerca de metade dos democratas considera que os custos recaem sobre os americanos, enquanto aproximadamente metade dos republicanos acredita que os encargos são pagos por estrangeiros. Entre os entrevistados, 41% entendem as tarifas como um imposto pago pelos americanos, e 40% as veem como uma taxa cobrada de outros países.
O debate tem implicações profundas para a estratégia comercial de Trump, segundo o CFR. Embora mais da metade dos americanos considere o Canadá, o Japão, o México e a União Europeia parceiros comerciais justos, a população permanece dividida quanto à manutenção das tarifas impostas a essas economias.
Em relação à China, 43% dos entrevistados consideram excessiva a tarifa de 23,2% em vigor em junho de 2026, enquanto 45% dos republicanos avaliam que o nível está adequado.
O estudo também revela divergências quanto aos poderes presidenciais. Entre os democratas, 61% defendem que o presidente não possa impor tarifas sem a aprovação do Congresso, enquanto, entre os republicanos, essa proporção cai para 21%.
A diferença evidencia como a avaliação da política comercial americana está ligada à polarização partidária, inclusive quando os eleitores discutem os limites do poder Executivo.
Os resultados da pesquisa, divulgada pelo CFR em 6 de outubro, sugerem que o custo de vida pode pesar na escolha dos candidatos nas eleições legislativas. Ainda assim, o levantamento não permite antecipar quantos votos serão alterados pela política tarifária, nem determinar qual será seu impacto efetivo sobre o resultado.
Risco de interferência estrangeira
Medos de interferência estrangeira pairam sobre midterms americanas (Win McNamee / Equipe/Getty Images)
Além dos desafios econômicos, o CFR também alerta para os riscos de operações estrangeiras de influência e de interferência eleitoral. Em episódio do podcast The President’s Inbox, publicado em 7 de outubro, o especialista James M. Lindsay conversou com Jessica Brandt, pesquisadora da instituição que dirigiu o Foreign Malign Influence Center, ligado à comunidade de inteligência americana, durante o ciclo eleitoral de 2024.
A análise diferencia duas modalidades de atuação estrangeira: as operações de influência, que procuram moldar as preferências dos eleitores, ampliar as divisões sociais ou questionar a legitimidade dos procedimentos eleitorais, e a interferência eleitoral, que, em sentido estrito, envolve tentativas clandestinas de interromper a votação, comprometer bancos de dados eleitorais ou alterar a contagem dos votos.
A primeira modalidade tem precedentes históricos. A Rússia ganhou notoriedade por utilizar campanhas de desinformação nas redes sociais para aprofundar divisões políticas e raciais durante a eleição presidencial de 2016, na qual Donald Trump enfrentou Hillary Clinton.
A China também realizou operações de influência, frequentemente direcionadas a candidatos críticos ao governo chinês, enquanto o Irã invadiu os sistemas digitais da campanha de Trump em 2024.
A disseminação de ferramentas de inteligência artificial pode ampliar a escala e reduzir os custos dessas operações, facilitando a produção de conteúdos falsos e de campanhas coordenadas.
Entre os riscos estão a disseminação de informações enganosas sobre os candidatos, os deepfakes, a exploração de tensões sociais e as tentativas de desacreditar os resultados eleitorais.
Os especialistas, contudo, fazem uma distinção importante: não há evidências de que um governo estrangeiro tenha conduzido uma operação substancial para alterar diretamente a contagem de votos nos Estados Unidos.
Na manifestação de julho sobre a segurança eleitoral, Trump acusou a China de tentar influenciar a eleição de 2020, mas não apresentou provas de que votos tenham sido adulterados ou de que a votação tenha sido comprometida. As ações citadas envolviam a aquisição legal de cadastros eleitorais.
Mesmo assim, a ausência de episódios comprovados de alteração do resultado não elimina os riscos.
Segundo Brandt, dois fatores dificultam uma operação em grande escala: a administração descentralizada das eleições americanas, conduzidas por estados e autoridades locais com sistemas distintos, e o alto custo diplomático e político de uma tentativa de adulterar votos, que poderia ser interpretada como uma grave agressão.
Outro ponto de preocupação é a redução das estruturas federais dedicadas a combater a influência estrangeira e proteger a infraestrutura eleitoral. De acordo com Brandt, o Foreign Malign Influence Center, a força-tarefa do FBI voltada à influência estrangeira, e a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA) tiveram suas atividades reduzidas ou parcialmente encerradas durante o segundo governo Trump.
A pesquisadora considera a retração um erro, sobretudo porque as operações de influência representam, para governos estrangeiros, uma forma relativamente barata de aprofundar divisões internas.
Mesmo quando não alteram diretamente os votos, essas campanhas podem comprometer a confiança no processo democrático, dificultar o debate público e alimentar dúvidas sobre a legitimidade dos resultados.
Os dois trabalhos do CFR apontam, assim, para desafios distintos no ambiente político das eleições de novembro.
O descontentamento com os preços pode influenciar diretamente a escolha dos candidatos, enquanto operações estrangeiras podem distorcer as informações disponíveis aos eleitores ou enfraquecer a confiança no processo eleitoral. Em ambos os casos, a polarização dificulta a construção de consensos sobre as causas dos problemas e as medidas necessárias para enfrentá-los.
O resultado das eleições legislativas ainda é incerto, mas os estudos indicam que o debate não se limitará à disputa partidária no Congresso.
O custo de vida, os limites da política comercial e a capacidade das instituições de proteger a integridade eleitoral também estarão no centro das discussões sobre a governabilidade e a confiança na democracia americana.
