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05/07/2026
5 min

As típicas férias do brasileiro: só 33% dos profissionais usam 100% dos dias para descanso

As típicas férias do brasileiro: só 33% dos profissionais usam 100% dos dias para descanso

Muitos profissionais aproveitam o início da semana para começar as tão sonhadas férias. Mas, para uma parcela significativa dos trabalhadores brasileiros, o período de descanso previsto em lei acaba ficando apenas no papel.

Um levantamento da Deel, plataforma global de recursos humanos e folha de pagamento, em parceria com a Andreessen Horowitz (a16z), mostra que apenas 33% dos trabalhadores brasileiros utilizam 100% dos dias de férias a que têm direito. Na prática, a mediana de férias efetivamente tiradas é de 20 dias, apesar de a legislação prever 30 dias anuais.

"Esse dado mostra que apenas 33% dos trabalhadores brasileiros usam todos os 30 dias de férias a que têm direito ao longo do ano, seja de uma vez só ou de forma parcelada. Na prática, a maioria acaba deixando parte desse benefício sem utilizar. A mediana observada foi de 20 dias efetivamente tirados", afirma Michele Cascardo, Diretora de Desenvolvimento de Negócios para a América Latina da Deel.

O estudo analisou mais de 1,5 milhão de trabalhadores em 150 países, com base em registros reais de solicitações de férias e licenças processadas pela plataforma. No Brasil, o recorte considerou 993 solicitações de férias, principalmente de profissionais de empresas de tecnologia, startups e organizações com modelo remoto ou híbrido.

O resultado coloca o país em uma posição curiosa. Apesar de oferecer a segunda maior quantidade de férias do mundo, atrás apenas da França (34 dias), os brasileiros utilizam apenas 72% do benefício. Entre os franceses, o índice de aproveitamento chega a 88%, uma diferença de 16 pontos percentuais.

"Na prática, isso significa que, embora o trabalhador brasileiro tenha direito a 30 dias de férias por ano, ele usa em média cerca de 22 dias. Ou seja, uma parte relevante dos dias concedidos acaba não sendo aproveitada. Já na França, além de terem mais dias de férias, os trabalhadores também utilizam uma parcela maior desse benefício, o que indica uma cultura mais consolidada de descanso integral", diz Cascardo.

Brasileiros preferem férias longas

Se muitos deixam parte das férias sem utilizar, quando decidem descansar fazem isso por períodos maiores. Segundo a pesquisa, 62% dos trabalhadores brasileiros tiram pelo menos um bloco de 11 dias consecutivos ou mais por ano, um dos maiores percentuais da amostra global.

O índice supera países frequentemente associados a uma cultura mais forte de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, como Suécia (55%) e Dinamarca (51%).

De acordo com a Deel, esse comportamento está diretamente ligado às regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que tradicionalmente organiza as férias em períodos mais longos.

Meio período ainda é raro

O levantamento também mostra que a cultura de flexibilização das férias ainda é pouco comum no Brasil.

Apenas 3% das solicitações de férias envolveram meio período. O percentual é muito inferior ao observado em mercados como França (11,5%), Reino Unido (11,3%) e Alemanha (9,4%).

"Em muitos países há maior flexibilidade para fracionar as férias em períodos curtos, como poucos dias ou até algumas horas. O estudo mostra que pedidos de meio período, por exemplo, são bem mais comuns em mercados como França, Reino Unido e Alemanha. Isso reflete modelos de trabalho em que pausas curtas e frequentes são mais aceitas. No Brasil, esse comportamento ainda é raro", diz Cascardo.

Segundo a pesquisa, enquanto esses países incorporaram formatos mais flexíveis de descanso, no Brasil ainda predomina a lógica de ausência integral: o trabalhador está totalmente disponível ou oficialmente de férias.

Enquanto há países que incorporaram formatos mais flexíveis de descanso, no Brasil ainda predomina a lógica de ausência integral nas férias: o trabalhador está totalmente disponível ou oficialmente de férias (Poike/Getty Images)

O que explica esse comportamento?

Especialistas em gestão de pessoas apontam que fatores culturais e organizacionais ajudam a explicar por que muitos brasileiros deixam parte das férias sem utilizar.

Entre eles estão:

  • medo de prejudicar a equipe ou acumular trabalho;
  • pressão por produtividade e entregas;
  • dificuldade de desconexão, especialmente em ambientes híbridos e remotos;
  • compra de parte das férias (abono pecuniário), permitida pela CLT.

Ao mesmo tempo, a tradição brasileira de concentrar as férias em períodos longos (muitas vezes durante o verão ou junto a feriados) faz com que o país figure entre aqueles que mais tiram descansos prolongados quando finalmente interrompem o trabalho.

"Há uma relação direta com a legislação trabalhista brasileira. A CLT historicamente estruturou as férias em períodos mais longos, incentivando pausas prolongadas em vez de descansos curtos e frequentes. Isso ajuda a explicar por que o Brasil apresenta esse comportamento singular: mesmo sem usar todos os dias de férias, o trabalhador tende a concentrar o descanso em blocos maiores, muitas vezes associados ao verão ou a feriados prolongados", diz Cascardo.

Como foi feito o estudo

O levantamento utilizou dados reais de solicitações de férias e licenças registradas na plataforma da Deel em parceria com a Andreessen Horowitz (a16z).

A base global reúne mais de 1,5 milhão de trabalhadores distribuídos por 150 países. No Brasil, a análise se concentrou em empresas de tecnologia, startups e organizações com modelos remoto e híbrido. Os autores destacam que os resultados representam esse perfil específico de profissionais e não necessariamente refletem toda a força de trabalho brasileira.

AutorLayane Serrano
FonteExame
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