Às vésperas da COP31, países cortam em até 80% financiamento público a combustíveis fósseis
Estudo sobre coalizão criada na COP em Glasgow mostra avanço rumo à transição energética; Por outro lado, apenas 42% do valor cortado foi redirecionado para energia limpa

Os combustíveis fósseis respondem por cerca de 68% das emissões globais de gases de efeito estufa e estão no centro dos esforços para combater as mudanças climáticas.
A menos de duas semanas da COP31, em Antália, na Turquia, um novo relatório mostra que uma coalizão de 40 países e instituições reduziu em até 80% o financiamento público internacional ao setor, mas ainda enfrenta dificuldades para direcionar esses recursos à energia limpa.
Divulgado nesta terça-feira, 27, pelo Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD), pela Oil Change International (OCI) e pela Friends of the Earth US, o estudo analisa os avanços da Parceria para a Transição Energética Limpa (CETP, na sigla em inglês), criada na COP26, em Glasgow, em 2021.
Na ocasião, seus integrantes se comprometeram a encerrar o financiamento público internacional direto a combustíveis fósseis sem abatimento de emissões e priorizar a energia limpa.
Na comparação com a média anual de 2019 a 2021, o apoio aos fósseis poluentes caiu para US$ 3,3 bilhões em 2025, uma redução anual estimada entre US$ 8,5 bilhões e US$ 13,2 bilhões.
O avanço, no entanto, levanta um parodoxo: apenas 42% dos recursos retirados dos fósseis poluentes foram redirecionados para energia limpa.
O financiamento às fontes limpas chegou a US$ 5,6 bilhões em 2025, crescimento de 28% em relação à média de 2019 a 2021.
Para Adam McGibbon, estrategista de campanhas da Oil Change International, os resultados mostram que a cooperação internacional pode ajudar a transformar compromissos climáticos em medidas concretas.
"O histórico de implementação dos membros fez da CETP uma das coalizões climáticas mais bem-sucedidas", afirmou.
Quais países ainda financiam combustíveis fósseis
Cinco anos após a coalizão ser criada, o levantamento indica que parte importante dos integrantes incorporou essa promessa às suas políticas de financiamento. Atualmente, 11 dos 16 signatários de alta renda têm regras totalmente alinhadas ao compromisso, contra dez no levantamento anterior.
Mas o dinheiro que ainda chega ao setor fóssil está concentrado em poucos países. A Itália lidera, com US$ 6 bilhões destinados a combustíveis fósseis entre 2023 e 2025, seguida pela Alemanha, com US$ 2,5 bilhões, e pela Suíça, com US$ 1,6 bilhão.
As agências de crédito à exportação, responsáveis por oferecer empréstimos, seguros e garantias respaldados pelos governos, responderam por 64% do financiamento aos fósseis concedido pelos membros em 2025.
Segundo os pesquisadores, essas instituições representam um dos principais pontos de atenção para impedir que brechas nas regras permitam a continuidade do apoio público ao setor.
Por que o dinheiro ainda não chega à energia limpa
Embora os cortes no financiamento aos combustíveis fósseis tenham sido expressivos, a expansão do apoio à energia limpa ainda não acompanhou esse movimento.
Os US$ 5,6 bilhões destinados a projetos de energia limpa em 2025 representam um crescimento de 28% sobre a média anterior à criação da coalizão. No mesmo período, os países do G20 que não integram a CETP ampliaram esse tipo de financiamento em 36%.
O problema não está apenas no volume de recursos, mas também em sua distribuição.
Em 2025, as economias avançadas concentraram 71% do financiamento para energia limpa concedido pelos membros da CETP, enquanto os países emergentes e em desenvolvimento receberam apenas 24%.
Segundo a análise, o desequilíbrio evidencia um dos desafios da transição energética: garantir que os países com menor capacidade de investimento também tenham acesso aos recursos necessários para substituir os combustíveis fósseis.
Para os autores, ampliar o financiamento não é suficiente se as condições oferecidas aumentarem o endividamento de países que já enfrentam restrições fiscais.
A recomendação é que os integrantes da parceria ampliem o apoio financeiro em condições mais justas, com recursos públicos previsíveis e maior participação de doações, em vez de depender principalmente de empréstimos.
O retrocesso dos EUA
O relatório também chama atenção para o risco de retrocessos nas políticas de financiamento climático. Um dos exemplos citados pelos pesquisadores é a saída dos EUA da parceria, ainda em 2025.
No ano fiscal de 2025, o Banco de Exportação e Importação dos Estados Unidos (Ex-Im Bank) financiou quase US$ 8 bilhões em projetos de combustíveis fósseis, enquanto o apoio à energia limpa ficou em US$ 117,5 milhões.
"Os EUA mostraram o que acontece quando um país deixa a coalizão: seu financiamento aos combustíveis fósseis dispara", afirmou Kate DeAngelis, vice-diretora de Política Econômica da Friends of the Earth US.
Segundo ela, o Congresso americano deveria aproveitar a renovação da autorização de funcionamento do Ex-Im Bank para restringir o financiamento ao setor.
Além de defender a manutenção dos compromissos existentes, os pesquisadores pedem a ampliação da coalizão. Coreia do Sul, Japão e China são apontados como os maiores fornecedores de financiamento público internacional para combustíveis fósseis fora da CETP.
A Oil Change International defende que os três países ingressem na parceria até a COP31, movimento que permitiria acelerar os cortes e direcionar bilhões de dólares adicionais à energia limpa.
O que está em jogo na COP31
O financiamento da transição energética será uma das discussões centrais da COP31, em novembro, na Turquia. Em sua quarta carta, a presidência turco-australiana definiu os quatro nós para desatar: transição justa, financiamento climático, mitigação e adaptação.
O encontro acontece em meio às dificuldades dos países para avançar na redução da dependência de carvão, petróleo e gás, tema que ganhou destaque na COP30, em Belém, mas não resultou na inclusão de um roteiro global de abandono dos combustíveis fósseis no acordo final da ONU.
Desde então, iniciativas paralelas às negociações formais tentam manter o tema vivo na agenda internacional. Uma delas foi uma conferência pioneira realizada em abril, em Santa Marta, na Colômbia, dedicada à transição para longe dos combustíveis fósseis.
Para a COP31, a eletrificação das economias está entre suas prioridades e a presidência lançou a meta "35 até 35", que propõe elevar a participação da eletricidade no consumo final global de energia para 35% até 2035.
A proposta busca acelerar a substituição do uso direto de combustíveis fósseis por eletricidade em setores como transportes, indústria e edifícios.
Do ponto de vista climático, porém, essa transformação depende também da origem da energia utilizada. Para contribuir com a mitigação climática, a eletrificação precisa avançar acompanhada da expansão de fontes de baixo carbono, além de investimentos em redes elétricas, armazenamento e infraestrutura.
Para Natalie Jones, assessora sênior de políticas do IISD, a COP31 precisa transformar os avanços já registrados em mais recursos para os países que enfrentam dificuldades para financiar a transição.
"Precisamos aproveitar esse progresso e ampliar o financiamento para energia limpa em condições justas para as economias emergentes e em desenvolvimento", afirmou.
