Ata do Copom: BC eleva preocupação com inflação, mas evita sinal claro sobre próximos passos; confira

O Banco Central publicou na manhã desta terça-feira (23) a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.) para 14,25% ao ano. Após leituras diferentes do mercado em relação ao comunicado da semana passada, o documento de hoje vem para detalhar a condução da política monetária.
Na ata, o comitê destaca que o ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências nas condições financeiras globais.
Além disso, a equipe segue em tom cauteloso em relação a volatilidade de preços de ativos e commodities.
Cenário doméstico
Do lado doméstico, o Copom avaliou que a atividade econômica segue em trajetória de moderação, em linha com o esperado pela autoridade monetária. Na ata, o colegiado reforçou que “o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta”.
O Banco Central também destacou que os efeitos da política monetária restritiva continuam sendo observados na economia, especialmente por meio da desaceleração do crédito. Segundo o documento, os impactos dos juros elevados “ainda se fazem sentir por meio da desaceleração do saldo de crédito, em particular de créditos livres”.
O mercado de trabalho também permaneceu no radar da autoridade monetária. O comitê observou que a taxa de desemprego segue em patamares historicamente baixos, enquanto os rendimentos reais continuam avançando acima da produtividade. Nesse contexto, o BC afirmou que segue atento à transmissão dos níveis de ocupação para os salários e, posteriormente, para os preços da economia.
Na frente fiscal, o tom continuou duro. O Copom voltou a defender a necessidade de políticas fiscal e monetária alinhadas e alertou que “o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública” podem elevar a taxa de juros neutra da economia e aumentar o custo do processo de desinflação.
Inflação é o principal destaque
A inflaçãosegue em destaque na discussão. O BC afirmou que houve uma “desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos”, especialmente para 2028, e ressaltou que esse movimento dificulta o trabalho da política monetária, porque reduz a confiança de que a inflação convergirá para a meta no tempo esperado.
Na avaliação do comitê, quando as expectativas ficam desancoradas, o processo de desinflação tende a exigir uma postura mais dura por parte da autoridade monetária, com juros mais altos por mais tempo do que seria necessário em um cenário de maior credibilidade.
O Banco Central também indicou que esse quadro aumenta a sensibilidade da economia a novos choques e reforça a necessidade de vigilância sobre a evolução dos preços administrados, dos serviços e dos núcleos de inflação, que costumam responder de forma mais lenta à política monetária.
Além disso, o comitê reconheceu que os dados mais recentes de inflação já refletem os impactos do conflito no Oriente Médio. Segundo a ata, as últimas divulgações de inflação ao consumidor e ao produtor mostraram “sinais claros de efeitos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio”, ficando “significativamente acima dos inicialmente esperados”.
Diante desse cenário, o Copom reiterou que os próximos passos dependerão da evolução dos dados e do balanço de riscos para a inflação. O documento revelou ainda que os diretores discutiram trajetórias alternativas para a Selic envolvendo “diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”, reforçando que o processo de definição dos juros segue em aberto.
Próximos passos
Em relação à condução da política monetária, a ata indicou que o Copom pretende manter uma postura cautelosa diante do aumento das incertezas. O comitê afirmou que o cenário atual é marcado por riscos elevados e assimétricos para a inflação, especialmente em função dos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre os preços de energia e das expectativas inflacionárias ainda desancoradas.
Segundo o documento, os diretores avaliaram diferentes trajetórias para a taxa Selic, incluindo cenários que combinavam momentos de pausa e eventual retomada do ciclo de ajustes. O BC destacou que essas alternativas permitiriam a convergência da inflação para a meta sem gerar volatilidade excessiva sobre a atividade econômica e os mercados financeiros.
A autoridade monetária reiterou ainda que a magnitude dos próximos movimentos dependerá da evolução do cenário econômico e dos riscos para a inflação. “A magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário”, afirmou o comitê.
No trecho final da ata, o Copom reforçou que pretende incorporar novas informações sobre a profundidade e a duração dos conflitos no Oriente Médio antes de definir os próximos passos da política monetária, mantendo uma postura de “serenidade e cautela” diante do ambiente de elevada incerteza.
