Ata do Copom: BC sinaliza necessidade de juros mais altos por mais tempo

O Banco Central reforçou na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada nesta terça-feira, 23, que o ambiente de expectativas de inflação desancoradas exige manutenção de juros mais altos por maior tempo.
“A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, afirmou o Copom.
O documento foi divulgado após a decisão de reduzir a taxa Selic para 14,25% ao ano, em um corte de 0,25 ponto percentual. Apesar da flexibilização, o texto mantém um tom cauteloso e evita qualquer sinalização de aceleração ou fim do ciclo de cortes de juros.
No cenário externo, o Copom destaca que a incerteza permanece elevada, com impactos das tensões geopolíticas no Oriente Médio e volatilidade em preços de commodities e ativos. O ambiente, segundo o comitê, exige cautela adicional de economias emergentes diante de choques simultâneos de oferta e demanda global.
O recente acordo entre Estados Unidos e Irã e oconsequente alívio das tensões no Oriente Médio ainda não entraram na conta do Copom.
No cenário doméstico, o Banco Central aponta aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre, com mercado de trabalho ainda resiliente e inflação cheia voltando a subir, tanto nos índices gerais quanto nas medidas subjacentes. As últimas leituras afastaram ainda mais a inflação da meta, com o IPCA acima do limite superior na divulgação mais recente.
As expectativas de inflação seguem como principal ponto de atenção. Segundo o Copom, elas permanecem acima da meta em todos os horizontes e apresentaram nova desancoragem nos prazos mais longos, especialmente para 2028. Esse movimento, segundo o comitê, aumenta o custo do processo de desinflação ao longo do tempo.
O Banco Central também projeta inflação de 5,2% em 2026 e de 3,7% no quarto trimestre de 2027, horizonte relevante da política monetária, ainda acima do centro da meta. O cenário de referência considera câmbio em R$ 5,10 e trajetória de juros baseada na pesquisa Focus.
Estímulos do governo e desancoragem das expectativas estão entre os riscos de alta da inflação
No campo dos riscos, o Copom afirma que o balanço segue assimétrico, com viés altista. Entre os principais fatores estão a persistência da desancoragem das expectativas, possível resiliência da inflação de serviços, pressões cambiais e estímulos à demanda acima do crescimento potencial da economia.
Por outro lado, o comitê cita riscos de baixa ligados a uma desaceleração mais forte da atividade doméstica ou global e eventual queda mais acentuada dos preços de commodities.
A política fiscal volta a aparecer como elemento relevante na avaliação do cenário. O BC afirma que incertezas sobre a sustentabilidade da dívida e o esmorecimento de reformas estruturais podem elevar a taxa de juros neutra, reduzindo a potência da política monetária.
O Copom também reforça que a transmissão da política monetária já é visível na desaceleração do crédito e na moderação gradual da atividade, mas destaca que esse processo ainda não é suficiente para garantir convergência rápida da inflação à meta.
Na avaliação do comitê, diferentes trajetórias de juros foram consideradas, mas o cenário atual favorece uma condução mais cautelosa, evitando movimentos bruscos que possam gerar volatilidade excessiva nos mercados e na atividade econômica.
O documento conclui que, em um ambiente de incerteza elevada, a calibração da taxa Selic seguirá dependente da evolução dos dados, sem compromisso prévio com ritmo de cortes ou trajetória futura definida.
A expectativa de economistas ouvidos pela EXAME é que o ciclo de queda deve se encerrar na próxima reunião. No Boletim Focus, divulgado na segunda-feira, 22, o mercado passou a projetar a Selic em 14% no fim de 2026.
