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InvestMercados
07/10/2026
5 min

Ata mostra Fed confiante no emprego, mas payroll de setembro põe leitura em xeque

O que deu ao comitê a segurança para subir os juros foi a leitura de um mercado de trabalho mais firme, e é exatamente essa leitura que os dados das últimas semanas colocam em dúvida

Ata mostra Fed confiante no emprego, mas payroll de setembro põe leitura em xeque

• A ata da reunião do Federal Reserve (Fed) de 15 e 16 de setembro mostra que quase todos os dirigentes viam os riscos para o emprego como reduzidos e equilibrados, leitura que sustentou a primeira alta de juros desde 2023

• A maioria avaliava que o mercado de trabalho tinha se fortalecido, com desemprego de 4,1% e contratações acelerando em agosto

• O payroll de setembro veio com apenas 29 mil vagas, desemprego de 4,2% e revisão para baixo de julho e agosto

• A maior parte do comitê via mais uma alta até dezembro, mas o mercado agora aposta em manutenção na reunião de 27 e 28 de outubro

A ata da reunião de setembro do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), divulgada nesta quarta-feira, 7, mostra em que bases se apoiou a primeira alta de juros no país desde 2023. A inflação persistente foi o motivo declarado. Mas o que deu ao comitê a segurança para agir foi a leitura de um mercado de trabalho mais firme, e é exatamente essa leitura que os dados das últimas semanas colocaram em dúvida.

Segundo o documento, quase todos os participantes avaliaram que, embora os riscos para a inflação seguissem inclinados para cima, os riscos para o mercado de trabalho tinham diminuído e estavam "amplamente equilibrados".

A maioria foi além e afirmou que o emprego havia se fortalecido um pouco nos meses anteriores, com a criação de vagas superando ligeiramente o crescimento da força de trabalho.

O retrato que o Fed tinha em mãos

Os números apresentados pela equipe técnica na reunião eram favoráveis. A taxa de desemprego tinha recuado para 4,1% em julho e agosto, 0,3 ponto percentual abaixo da média do segundo semestre de 2025. A geração de vagas fora do setor agrícola havia acelerado de forma notável em agosto, com ganhos espalhados por vários setores, e a taxa de participação na força de trabalho voltou a subir.

Com esse quadro, os 12 membros votantes aprovaram por unanimidade a alta de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica para o intervalo entre 3,75% e 4%. O comunicado incluiu a frase de que o comitê "vai entregar estabilidade de preços", e a ata registra que a maioria dos participantes considerava provável que outra alta fosse apropriada até o fim do ano.

O que mudou em três semanas

O relatório de emprego de setembro, divulgado no dia 2 de outubro, mostrou a criação de apenas 29 mil vagas, contra uma expectativa de cerca de 90 mil. A taxa de desemprego subiu para 4,2%, acima dos 4,1% que o próprio Fed projetou em setembro como média para o último trimestre do ano. As revisões ainda cortaram 60 mil vagas de julho e agosto, o que esvazia parte da aceleração de agosto citada na ata.

A própria ata já trazia uma ressalva que agora ganha peso. Vários participantes apontaram que a dinâmica do mercado de trabalho era "incomumente baixa", com poucas contratações, poucas demissões, uma taxa baixa de recolocação e um desemprego de longa duração persistentemente elevado. É o retrato de um mercado que não demite, mas também não contrata, e que pode virar com rapidez.

O salário médio por hora subiu 3% em 12 meses até setembro, ritmo que não indica pressão vinda do emprego sobre os preços. Alguns dirigentes já haviam registrado na ata que o mercado de trabalho não era, naquele momento, umafonte de pressão inflacionária.

A inflação também andou

Do lado dos preços, a ata registra que o índice PCE, a medida de inflação preferida do Fed, teria subido 3,8% em 12 meses até agosto, com o núcleo em 3,4%.

Alguns participantes ponderaram que itens como software e taxas de gestão de carteiras vinham inflando as leituras recentes e que a nova metodologia do Escritório de Análise Econômica (BEA) reduziria essa contribuição. A equipe técnica estimou que, pelo novo método, a inflação cheia de agosto ficaria em 3,6% e o núcleo em 3,2%.

Os dados oficiais, divulgados em 30 de setembro já com a metodologia revisada, vieram abaixo até dessa estimativa, com 3,4% no índice cheio e 3% no núcleo em 12 meses.

Isso não elimina a preocupação central do comitê. A ata registra que alguns dirigentes temem que, depois de mais de cinco anos de inflação acima de 2%, as expectativas comecem a contaminar a formação de preços e salários. A equipe técnica só vê a inflação voltando à meta em 2029, e muitos participantes alertaram que, quanto mais tempo a energia ficar cara por causa das tensões geopolíticas, maior o risco de a alta se espalhar.

Um juro que o Fed nem considera tão alto

Outro trecho ajuda a entender por que o comitê ainda vê espaço para subir. Vários participantes disseram considerar que a taxa atual não é restritiva, ou é apenas levemente restritiva, e dois deles afirmaram ter elevado sua estimativa para a taxa neutra, aquela que nem estimula nem freia a economia.

Os dirigentes também observaram que as condições financeiras seguem favoráveis ao crescimento, com bolsas em alta e spreads de crédito corporativo estreitos, puxados pelos investimentos em inteligência artificial.

Warsh tem evitado dar sinais sobre os próximos passos, postura que já havia deixado clara em Jackson Hole. A ata repete que cada reunião será decidida com base nos dados.

Depois do payroll, a ferramenta FedWatch, do CME Group, passou a indicar 77% de chance de manutenção dos juros na reunião de 27 e 28 de outubro, que acontece menos de uma semana antes das eleições legislativas de 3 de novembro. O presidente Donald Trump, que indicou Warsh esperando cortes de juros, criticou a alta de setembro. Antes de outubro, o Fed ainda recebe o índice de preços ao consumidor de setembro, o último dado relevante de inflação antes da decisão.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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