Ataques de drones pressionam Rússia enquanto Putin rejeita cessar-fogo
Governo mantém a posição de que não haverá cessar-fogo antes de um acordo considerado “duradouro e confiável”

A guerra na Ucrânia passou a ter efeitos cada vez mais visíveis dentro da Rússia, com ataques de drones contra fábricas, refinarias e outras infraestruturas, aumento das mortes de civis e pressão sobre setores da economia.
Mesmo diante da escalada dos ataques, o governo de Vladimir Putin mantém a posição de que não haverá cessar-fogo antes de um acordo considerado “duradouro e confiável”.Em julho, 201 civis morreram em território russo e nas regiões ucranianas ocupadas pela Rússia, segundo fontes oficiais citadas pela EFE. O número continuou a crescer nas duas primeiras semanas de agosto, período em que a Ucrânia manteve ataques contra instalações russas.
A dimensão dos ataques ficou evidente novamente neste sábado, 15. Durante a madrugada, as autoridades russas afirmaram ter derrubado 598 drones ucranianos sobre 19 regiões do país e a Crimeia, segundo informações divulgadas pelas próprias autoridades.
Ao mesmo tempo em que a população russa passa a sentir mais diretamente os efeitos da guerra, o Kremlin rejeita uma interrupção das hostilidades. O ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, afirmou que não haverá cessar-fogo até que seja alcançado um acordo que garanta o fim do conflito de forma “duradoura e confiável”.
Guerra passa a atingir mais a Rússia
Os ataques ucranianos contra a retaguarda russa se intensificaram nos últimos meses e passaram a afetar instalações industriais e setores considerados estratégicos. Entre os alvos citados estão fábricas, refinarias e galpões da Wildberries, uma das maiores empresas de comércio eletrônico do país.
O grupo independente russo Conflict Intelligence Team (CIT) estima que 634 civis tenham sido vítimas da guerra em julho, considerando os dois lados do conflito. Segundo o grupo, cerca de dois terços eram cidadãos ucranianos.
A Organização das Nações Unidas (ONU), que costuma apresentar estimativas mais conservadoras, contabilizou 437 civis mortos e 2.610 feridos nos dois lados em julho. Segundo as informações apresentadas, números desse nível não eram registrados desde maio de 2022, nos primeiros meses da guerra.
Os dados também mostram uma mudança na distribuição das vítimas. Segundo o CIT, nos primeiros sete meses deste ano, o número de civis mortos na Ucrânia aumentou 25% em relação ao mesmo período anterior. Na retaguarda russa, sem considerar as regiões anexadas, o número de mortes mais que dobrou.
Oposição pacifista perde espaço
A pressão sobre o governo russo também aparece no campo político. Nesta semana, a Suprema Corte da Rússia impediu o Yabloko, único partido legal de oposição que se posiciona contra a guerra, de disputar as eleições legislativas de setembro.
A decisão ocorreu menos de duas semanas depois do registro das listas da legenda. O principal ponto do programa do Yabloko é justamente a interrupção dos combates e a assinatura de um acordo de cessar-fogo com a Ucrânia.
O partido havia obtido menos de 2% dos votos nas eleições de cinco anos atrás. Desta vez, porém, pesquisas oficiais e independentes citadas na matéria indicavam que a legenda poderia superar a barreira de 5% necessária para conquistar cadeiras na Câmara dos Deputados.
Pesquisas do Centro Levada citadas pela reportagem indicam que dois terços dos russos estão cansados da guerra e querem que o conflito termine em breve. Representantes do Yabloko afirmam que a exclusão da legenda busca impedir o surgimento de um movimento pacifista no país. O partido recorreu da decisão.
A possibilidade de avanço da oposição seria especialmente relevante em um momento em que o partido governista Rússia Unida conduz sua campanha com o lema “Tudo pela vitória”. Pela primeira vez desde 2007, Putin participa diretamente da campanha da legenda.
Ataques pressionam economia russa
A guerra também aumentou a pressão sobre setores importantes da economia. Cinco das principais refinarias russas foram atingidas por ataques ucranianos, e algumas tiveram de interromper as operações por até seis meses.
A paralisação agravou a crise de combustíveis e levou a Rússia a importar gasolina de Marrocos e Índia. Os ataques também atingiram empresas privadas: segundo fontes independentes citadas na reportagem, as perdas da Wildberries já superam US$ 1 bilhão.
Os portos do Mar Negro também estão entre os alvos. Segundo as informações apresentadas, os ataques reduziram entre 20% e 25% as exportações russas de grãos. A União Cerealista Russa afirmou que não dispõe de dinheiro para financiar o próximo plantio.
(Com EFE)
