Áustria inaugura delegacia na casa de Adolf Hitler para afastar neonazistas

A Áustriainaugurou oficialmente nesta quarta-feira, 22, uma delegacia de polícia na casa onde Adolf Hitler nasceu, em uma tentativa de impedir que o imóvel continue sendo ponto de encontro e peregrinação de grupos neonazistas.
Localizado na cidade de Braunau am Inn, próxima à fronteira com a Alemanha, o edifício do século XVII passou por uma ampla reforma que custou 20 milhões de euros (cerca de R$ 115 milhões). Após anos de obras, o prédio ganhou uma fachada branca e discreta, substituindo o antigo revestimento amarelo.
Na entrada foi instalado o emblema da polícia austríaca. Já na calçada permanece uma placa inaugurada anteriormente com a inscrição: "Pela paz, a liberdade e a democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos nos fazem lembrar."
A cerimônia de inauguração reuniu cerca de 100 pessoas, incluindo aproximadamente 30 policiais uniformizados, e foi aberta por uma apresentação de orquestra.
Durante o evento, o prefeito de Braunau, Johannes Waidbacher, afirmou que a inauguração demonstra que a cidade enfrenta sua própria história e assume responsabilidades pelo passado.
Segundo ele, a expectativa é que a nova função do edifício traga mais tranquilidade aos moradores e permita que a cidade siga olhando para o futuro.
O ministro do Interior, Gerhard Karner, também participou da cerimônia.
País demorou a enfrentar o passado nazista
A inauguração ocorre em meio às críticas de que a Áustria levou décadas para reconhecer sua responsabilidade durante o Holocausto.
Segundo dados citados pelas autoridades, cerca de 65 mil judeus austríacos morreram durante o regime nazista e outros 130 mil foram levados ao exílio.
Os historiadores estimam que aproximadamente seis milhões de pessoas, a grande maioria judeus, foram mortas pelo regime nazista entre sua ascensão ao poder na Alemanha e o fim da Segunda Guerra Mundial.
Expropriação e disputa judicial
A residência pertenceu à mesma família desde 1912. Em 1972, o Estado austríaco alugou o imóvel e instalou no local um centro de atendimento para pessoas com deficiência, um dosgrupos perseguidos pelo regime nazista.
Mesmo assim, o endereço continuou atraindo simpatizantes do nazismo. A então proprietária, Gerlinde Pommer, resistiu à mudança de uso do prédio e contestou judicialmente sua desapropriação.
Em 2016, o Parlamento austríaco aprovou uma lei específica autorizando a expropriação do imóvel por interesse público. Três anos depois, a Suprema Corte confirmou a aquisição da propriedade pelo governo por 810 mil euros.
Antes da decisão final, as autoridades analisaram diferentes alternativas para o edifício. Uma comissão de especialistas descartou transformá-lo em museu ou memorial, por considerar que isso poderia reforçar seu apelo simbólico entre grupos extremistas. A demolição também foi rejeitada, sob o argumento de que o país deveria preservar o local para enfrentar seu passado histórico.
Projeto ainda gera críticas
Embora o governo considere que a instalação da delegacia deixará claro que manifestações em defesa do nacional-socialismo não serão toleradas, a iniciativa continua dividindo especialistas.
Robert Eiter, integrante do Comitê Austríaco de Mauthausen, associação formada por sobreviventes do antigo campo de concentração, afirmou estar cético quanto à eficácia da medida.
Segundo ele, a transformação do prédio dificilmente impedirá que neonazistas continuem visitando o local. Eiter também manifestou preocupação com a presença de setores das forças de segurança que, segundo afirmou, demonstrariam simpatia por posições de extrema direita.
A inauguração ocorre em ummomento de crescimento da extrema direita no país. Pesquisa divulgada no último domingo pelo jornal Kronen Zeitung aponta que o partido FPÖ, fundado por ex-integrantes do movimento nazista e atualmente na oposição, aparece com 38% das intenções de voto, acima dos quase 29% obtidos nas eleições legislativas de setembro de 2024.
Com AFP
