Avibras: conheça a fabricante brasileira de mísseis comprada por Wesley e Joesley Batista
Dona do sistema Astros, a companhia de Jacareí voltou a operar em maio depois de uma greve de 1.280 dias, uma das mais longas da história do país

Na manhã de 4 de maio, uma fábrica em Jacareí, no interior de São Paulo, voltou a funcionar com 271 trabalhadores. Muitos deles não passavam por ali havia mais de três anos.
A fábrica é da Avibras, a maior fabricante de mísseis, foguetes e sistemas de artilharia do Brasil. Quando a empresa pediu recuperação judicial, em março de 2022, tinha cerca de 1.400 funcionários. A planta de Jacareí sozinha empregava 1.337 pessoas, segundo a petição inicial do processo.
Seis meses depois do pedido, com salários atrasados, os metalúrgicos cruzaram os braços. A greve começou em 9 de setembro de 2022 e só terminou em março de 2026 — 1.280 dias, uma das mais longas paralisações registradas na indústria brasileira. Parte dos trabalhadores passou mais de 30 meses sem receber.
Agora, esta fábrica, que voltou a funcionar desde maio, terá novo dono.
Nesta sexta-feira, 21, a companhia informou que o fundo Brasil Crédito, atual dono, submeteu ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) a venda da totalidade das ações para a Globe Investimentos, veículo de investimentos da família de Joesley e Wesley Batista.
Em nota, a Avibras afirma que a transação depende da aprovação do órgão e da conclusão dos trâmites de fechamento.
O que a Avibras fabrica
O produto mais conhecido é o Astros, sigla em inglês para Artillery Saturation Rocket System, ou sistema de artilharia para saturação de área.
Na prática, é um caminhão militar que carrega na traseira um bloco de tubos de lançamento. Dispara vários foguetes em sequência para cobrir uma área inteira de terreno, em vez de mirar um alvo específico.
A versão atual, o Astros II MK6, usa chassi da checa Tatra e cabine blindada. Segundo a empresa, o sistema atinge alvos entre 9 e 300 quilômetros de distância, dependendo da munição empregada. É apresentado pela companhia como o único no mundo capaz de lançar foguetes, mísseis balísticos e mísseis táticos de cruzeiro a partir da mesma plataforma.
A lista inclui ainda o míssil tático balístico AV-SS-100, com alcance acima de 100 quilômetros, a família de foguetes Skyfire de 70 milímetros, usados por helicópteros, sistemas de defesa antiaérea e componentes para o setor espacial.
Qual é a história da Avibras
A empresa foi fundada em 1961 por um grupo de engenheiros recém-formados no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos. O nome mais associado à companhia é o de João Verdi Carvalho Leite, que a dirigiu por quase cinco décadas.
Os primeiros produtos foram aviões.
A criação da Embraer, em 1969, tirou da Avibras o espaço no mercado de aeronaves. A empresa mudou de rota e foi para foguetes. Ainda nos anos 1960 passou a integrar o Programa Espacial Brasileiro, desenvolveu o propelente sólido usado em foguetes e produziu para o Ministério da Aeronáutica os foguetes Sonda I, o primeiro foguete espacial brasileiro, além do Sonda IIB e do Sonda IIC.
Nos anos 1970 entrou de vez no armamento: foguetes superfície-superfície e mísseis para o Exército, sistemas ar-terra para helicópteros da Força Aérea e da Marinha.
O produto que definiu a empresa nasceu de uma encomenda estrangeira. Em 1981, o Iraque, então em guerra contra o Irã, procurava artilharia capaz de conter ataques em massa. O Iraque já comprava foguetes e bombas de aviação da Avibras. O contrato saiu naquele ano e o Astros ficou pronto em 1983.
Foi a década de ouro da companhia. Em entrevistas concedidas ainda nos anos 2000, o fundador afirmou que a empresa chegou a vender cerca de 400 milhões de dólares por ano nos anos 1980, para clientes como Iraque e Arábia Saudita.
O sistema acabou adquirido também por Catar, Bahrein, Angola, Malásia e Indonésia, além do próprio Exército Brasileiro.
O batismo de fogo veio na Guerra do Golfo, em 1991, com Iraque e Arábia Saudita usando o mesmo equipamento brasileiro em lados opostos do conflito. Anos depois, o sistema voltou a ser empregado pela coalizão liderada pelos sauditas no Iêmen.
João Verdi Carvalho Leite morreu em 2008, aos 73 anos.
Depois de sua morte, Sami Hassuani assumiu a presidência, ampliou a atuação internacional e incluiu a empresa no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) com a linha Astros 2020. Em 2016, o comando passou ao filho do fundador, João Brasil Carvalho Leite.
Onde ficam as fábricas
A sede estatutária está em São José dos Campos, no Parque Tecnológico, mas ali trabalhavam apenas três pessoas quando a recuperação judicial foi pedida. A operação de verdade está em Jacareí, a cerca de 15 quilômetros dali.
A planta de Jacareí concentra a fabricação de munição e mísseis, a produção de propelentes e a montagem dos veículos.
Em 2014, a companhia inaugurou ali uma fábrica de blindados sobre rodas. No mesmo ano recebeu do Ministério da Defesa o selo de Empresa Estratégica de Defesa, que exige controle nacional majoritário, domínio brasileiro da tecnologia e compromisso de manter a linha de produção no país. Em troca, dá benefícios fiscais e vantagem comercial na venda para as Forças Armadas.
Há ainda uma terceira unidade, em Lorena, também no Vale do Paraíba. Concluída em 2019, ocupa 55.000 metros quadrados e produz PBHT (polibutadieno hidroxilado), insumo do combustível sólido usado nos foguetes.
Como foi a recuperação judicial
O problema estava no modelo de negócio. Segundo a própria petição de recuperação judicial, o mercado externo respondia por cerca de 85% da receita da Avibras. E, nesse mercado, negociação se faz pessoalmente: contratos de defesa envolvem sigilo e segurança nacional, e as tratativas acontecem em reuniões presenciais.
Quando as fronteiras fecharam na pandemia, a equipe comercial ficou pelo menos um ano e meio sem conseguir visitar os clientes. Ao mesmo tempo, as compras de armamento caíram no Oriente Médio e no Sudeste Asiático, as duas regiões que sustentavam a carteira da empresa.
Os números da petição mostram o tamanho da queda. A receita líquida saiu de 920,8 milhões de reais em 2019 para 848,1 milhões em 2020 e despencou para 223,2 milhões em 2021. O lucro de 84,5 milhões de reais em 2019 virou prejuízo de 134 milhões em 2021. A margem bruta ficou negativa.
A companhia optou por segurar o quadro de funcionários sem demissões em massa, apostando numa retomada rápida do mercado, e foi buscar dinheiro no sistema financeiro para bancar o caixa. A retomada não veio no ritmo esperado. Em 18 de março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial na comarca de Jacareí.
O valor atribuído à causa foi de 394,7 milhões de reais, correspondente ao passivo sujeito ao processo. O endividamento total foi estimado em cerca de 600 milhões de reais.
1.280 dias de greve
Seis meses depois do pedido, com salários atrasados, os metalúrgicos cruzaram os braços. A greve começou em 9 de setembro de 2022 e só terminou em 11 de março de 2026 — 1.280 dias, uma das mais longas paralisações registradas na indústria brasileira. Parte dos trabalhadores passou mais de 30 meses sem receber.
Enquanto isso, o controle da empresa mudou de mãos. Em 2025, as ações de João Brasil Carvalho Leite foram penhoradas judicialmente e transferidas para o fundo Brasil Crédito, principal credor. O TJSP homologou a destituição do controlador histórico em julho daquele ano.
A saída negociada foi um acordo de 230 milhões de reais em dívidas trabalhistas, parcelado em 12 a 48 vezes conforme a faixa salarial, com cerca de 1.400 pessoas na fila para receber.
O que exatamente a família Batista está comprando
Aqui está o detalhe que muda a leitura do negócio. A Avibras Indústria Aeroespacial, a empresa de 1961, continua existindo e continua em recuperação judicial, carregando o passivo. Não é ela que foi vendida.
O que retomou a produção em maio é a Avibras Aeroco, uma sociedade constituída em 1º de outubro de 2025, com CNPJ próprio, dentro do processo de recuperação. Ela recebeu as fábricas, a propriedade intelectual e os programas tecnológicos — Astros, mísseis, atividades espaciais.
OA Globe Investimentos, mesmo veículo usado pela família Batista para comprar participação na Usiminas em 2025, fica com 100% da holding dessa nova estrutura.
O assédio estrangeiro e o debate sobre estatização
A crise transformou a Avibras em alvo. Entre 2024 e 2025, ao menos três grupos estrangeiros sondaram a compra: a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries. Nenhuma negociação avançou.
A possibilidade de controle estrangeiro sobre tecnologia de foguetes e mísseis mobilizou setores das Forças Armadas e do Congresso. O governo chegou a estudar uma solução mista, com capital privado somado a financiamento público via Finep ou PAC para assumir o controle do papel.
A parte pública não saiu do papel, e o fundo credor decidiu tocar a retomada apenas com dinheiro privado.
Em 24 de julho, Lula visitou a fábrica de Jacareí, acompanhado de ministros. Na ocasião, defendeu mais investimento nas Forças Armadas "para não deixar ninguém meter o nariz no nosso país", disse o presidente.
Em agosto, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara aprovou requerimento pedindo explicações ao Ministério da Defesa sobre a reorganização societária da companhia e a preservação de seus ativos tecnológicos.
