Azzas perdeu quase R$ 10 bi em valor de mercado desde a fusão entre Arezzo e Soma
Na reorganização do negócio, empresas voltam a atuar de forma independente, enquanto Farm ficará em uma terceira sociedade

Em pouco mais de dois anos, a Azzas 2154 saiu de uma das maiores apostas do varejo brasileiro para uma companhia em processo de separação. Criada a partir da fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma, a empresa chegou ao mercado com a promessa de combinar dezenas de marcas e ganhar escala.
Quando Arezzo e Soma anunciaram a combinação, em fevereiro de 2024, a nova empresa chegou ao mercado com valor estimado em R$ 13 bilhões e a ambição de criar uma das maiores companhias de moda do país. A união reuniu marcas como Arezzo, Schutz, Farm, Animale, Reserva e Hering.
Pouco mais de dois anos depois, a Azzas valia cerca de R$ 3,42 bilhões na B3, uma queda de, aproximadamente, 73% em relação ao valor atribuído à companhia no momento da fusão.
A estreia da Azzas na bolsa em 2024
A Azzas havia começado a ser negociada na B3 em agosto de 2024. Na estreia, a nova companhia tinha valor de mercado de R$ 10,2 bilhões, abaixo dos R$ 13 bilhões estimados quando a fusão foi anunciada.
A estrutura criada pela fusão previa uma divisão de poder, em que os acionistas da Arezzo ficaram com 54% da companhia, enquanto os do Soma receberam 46%. O conselho de administração tinha composição paritária e as principais posições executivas foram distribuídas entre os antigos grupos.
Alexandre Birman, então CEO da Arezzo&Co e um dos principais executivos do grupo, assumiu como CEO global da companhia. Roberto Jatahy, fundador do Grupo Soma, ficou à frente da operação de moda feminina.
Nos meses seguintes, porém, a Azzas passou a mexer na própria estrutura, enquanto os acionistas aprovaram o nome Azzas 2154, consolidando a nova identidade da companhia. A empresa também começou a revisar o portfólio e a integração das operações herdadas dos dois grupos.
A estratégia incluía simplificar a quantidade de marcas e concentrar recursos nos negócios considerados mais promissores. Ao mesmo tempo, a companhia precisava integrar estruturas, equipes, logística e operações que, até pouco antes, pertenciam a empresas independentes.
Quando a fusão começou a perder força
A promessa da combinação dependia de que a escala e as sinergias se transformassem em resultados. Mas, enquanto a companhia avançava na integração, as ações começaram a perder valor na bolsa; e a deterioração do papel passou a contrastar com a tese original da fusão.
A Azzas, que havia chegado ao mercado como uma companhia de cerca de R$ 10 bilhões, viu seu valor diminuir progressivamente. Questões relacionadas à integração dos negócios, ao futuro de determinadas marcas e, especialmente, à Farm, ganharam peso na relação entre Birman e Jatahy.
O mercado perdeu quase três quartos do valor
A perda de confiança apareceu no preço das ações. Atualmente, a Azzas vale cerca de R$ 3,42 bilhões na B3, aproximadamente 73% menos do que os R$ 13 bilhões atribuídos à companhia no anúncio da fusão. As ações (AZZA3) acumulam queda de 33,60% neste ano e de 50,10% nos últimos 12 meses.
No segundo trimestre, a receita bruta das marcas continuadas somou R$ 3,4 bilhões, queda de 7,1% em relação a igual período do ano anterior. A receita líquida recuou 8,2%, para R$ 2,66 bilhões.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, em inglês) recorrente caiu 29,1%, para R$ 379,6 milhões, enquanto a margem Ebitda passou de 18,5% para 14,2%. Já o lucro líquido despencou 62,5%, de R$ 283,7 milhões para R$ 106,5 milhões.
Farm virou peça central do divórcio
A marca Farm ganhou importância que vai além do desempenho operacional, tendo em vista que a marca se tornou um dos principais ativos em discussão entre os acionistas e passou a fazer parte das alternativas consideradas para reorganizar a companhia.
A Azzas espera receber até o fim de setembro propostas não vinculantes pela marca. Cerca de 15 interessados já teriam assinado acordos de confidencialidade, segundo O Globo, e o preço pedido estaria próximo de US$ 1 bilhão.
O valor representa uma parcela relevante da atual capitalização da Azzas e já teria levado fundos internacionais a recusar a proposta, conforme o jornal. Ainda assim, permanece sobre a mesa a possibilidade de uma eventual listagem da Farm nos Estados Unidos.
O fim da Azzas como foi criada
A reorganização prevê a criação de duas companhias abertas independentes, ambas listadas no Novo Mercado da B3, a Arezzo&Co, liderada pelo bloco de Alexandre Birman, e a Soma, sob o comando do bloco de Roberto Jatahy. Cada uma terá estruturas próprias de administração e governança.
A Farm, porém, terá um caminho diferente e a operação prevê a criação de uma terceira sociedade, que concentrará a Farm Brasil, a Farm Internacional e a Fábula. A Arezzo&Co ficará com 57,4% dessa empresa, enquanto a Soma terá os 42,6% restantes.
As duas companhias continuarão avaliando alternativas estratégicas para a Farm Rio, incluindo a possibilidade de uma operação envolvendo a marca.
Na divisão dos demais negócios, a Arezzo&Co ficará com as marcas Arezzo, Schutz, Anacapri, Vans e Carol Bassi, além da Hering e suas extensões. Já a Soma concentrará Animale, NV, Maria Filó e Cris Barros, além de Reserva e suas extensões, Oficina e Foxton.
"A reorganização será implementada em duas etapas: uma cisão parcial, mediante a segregação das marcas e operações entre Arezzo&Co e Soma e a constituição da sociedade que concentrará os negócios da FARM Rio; e uma etapa subsequente de permuta de ações, na qual os acionistas do Bloco Birman e os acionistas do Bloco Jatahy realizarão uma permuta de ações da Arezzo&Co e da Soma", detalhou a Azzas.
A operação ainda depende de uma série de aprovações, entre elas estão a análise dos órgãos de administração da companhia, a aprovação dos acionistas em assembleia geral, o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a aprovação da listagem das ações no Novo Mercado da B3.
