B3 aciona circuit breaker pela primeira vez desde 2020 após reeleição de Lula
As negociações dos ativos devem ser retomadas em leilão das 10h30 às 10h35

A B3 interrompeu as negociações logo no início do pregã desta segunda-feira, 26. É o primeiro circuit breaker na bolsa brasileira desde março de 2020 e a reação mais extrema do mercado à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Com a parada, nenhuma ação é comprada ou vendida por 30 minutos. Se, na reabertura, a queda chegar a 15%, o pregão volta a ser suspenso, desta vez por uma hora.
É a primeira vez desde março de 2020 que a bolsa brasileira chega ao segundo estágio do mecanismo. Se a queda alcançar 20%, a B3 pode suspender as negociações pelo prazo que definir, algo que nunca aconteceu.
O sinal veio ainda de madrugada. No pregão noturno de Nova York, 20 ações e ADRs de companhias brasileiras registraram negócios, e todas operavam no vermelho por volta de 1h (horário de Brasília). As perdas iam de 1,20%, na Embraer, a 19,49%, na PagSeguro, segundo dados do Investing.com e do Yahoo Finance. O EWZ, principal fundo de ações brasileiras negociado lá fora, recuava 19,61%.
"A B3 informa que, devido ao acionamento do mecanismo de Circuit Breaker a negociação dos ativos à vista, renda fixa privada e opções referenciadas em ações, BDR, Ibovespa, Ibovespa B3 BR+, IBrX-50, Índice Small Cap, e ETFs está suspensa por 30 minutos. Durante esse período, as ofertas que não estiverem participando de leilão poderão ser canceladas", afirmou em nota.
As negociações dos ativos devem ser retomadas em leilão das 10h30 às 10h35.
O movimento inverteu a aposta que dominava o mercado desde o primeiro turno, em 4 de outubro, quando o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente. Entre as duas votações, o Ibovespa subiu quase 7% esuperou pela primeira vez os 200 mil pontos.
"A bolsa vai devolver tudo e mais um pouco", disse Alfredo Menezes, CEO da Armor Capital, em entrevista à EXAME durante a transmissão da apuração.
O freio de emergência da bolsa
O circuit breaker é um mecanismo que interrompe as negociações quando a bolsa registra oscilações muito fortes. A régua é o Ibovespa, medido em relação ao fechamento do pregão anterior.
Durante a pausa, ninguém compra nem vende. A interrupção vale para ações, derivativos e títulos de renda fixa privada negociados na B3.
A lógica nasceu nos Estados Unidos, depois da Black Monday de 1987, quando o Dow Jones caiu 22,6% em um único pregão. No Brasil, o mecanismo foi adotado em 1997.
A ideia é funcionar como um freio para momentos de pânico, a fim de reduzir a volatilidade extrema e evitar decisões precipitadas, segundo o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME).
Na B3, o circuit breaker funciona em três níveis, definidos pelo tamanho da queda do Ibovespa:
- Estágio 1: queda de 10% interrompe o pregão por 30 minutos.
- Estágio 2: se, após a reabertura, a queda chegar a 15%, há nova paralisação, de uma hora.
- Estágio 3: com recuo de 20%, a B3 pode suspender as negociações pelo prazo que definir, o que muitas vezes significa encerrar o pregão.
O mecanismo não pode ser acionado nos 30 minutos finais do pregão. Se a interrupção ocorrer na última hora, o horário de encerramento é prorrogado para garantir meia hora de negociação após a reabertura.
O terceiro estágio nunca foi acionado. O mais perto que a bolsa chegou foi em 12 de março de 2020, quando o Ibovespa passou pelos dois primeiros níveis no mesmo dia e fechou em queda de 14,78%.
Os episódios anteriores
Até esta segunda-feira, a B3 havia acionado o circuit breaker 23 vezes. A primeira foi em 28 de outubro de 1997, durante a crise asiática, quando o colapso da bolsa de Hong Kong espalhou turbulência pelos mercados globais.
A crise da Rússia, em 1998, levou a cinco interrupções. No ano seguinte, a mudança do regime cambial e a desvalorização do real provocaram mais duas.
A crise financeira global de 2008, desencadeada pelo colapso do mercado imobiliário americano, gerou seis paralisações, todas entre setembro e outubro daquele ano.
Depois de quase uma década sem interrupções, o mecanismo voltou a ser acionado em 18 de maio de 2017, no episódio conhecido como "Joesley Day". A divulgação de uma conversa entre o empresário Joesley Batista, da JBS, e o então presidente Michel Temer levantou o temor de uma nova crise política e de impacto sobre as reformas em discussão. O Ibovespa fechou o dia em queda de 8,80%.
O episódio mais recente havia sido em março de 2020, no início da pandemia de covid-19. A combinação de incerteza sobre os efeitos do vírus na economia e o colapso nos preços do petróleo levou a B3 a acionar o circuit breaker seis vezes em um intervalo de dez dias.
No período, o Ibovespa registrou algumas das maiores perdas de sua história recente, como os recuos de 14,78% em 12 de março e de 13,92% em 16 de março.
Até esta segunda-feira, a B3 havia acionado o circuit breaker 23 vezes. (B3)
