Bamerindus: o que aconteceu com o banco que foi um dos maiores impérios financeiros do Brasil
Fundado no interior paranaense em 1929, o Bamerindus cresceu até ter mais de 1.200 agências e imortalizou o bordão "o tempo passa, o tempo voa"

"O tempo passa, o tempo voa, e a Poupança Bamerindus continua numa boa." Se você viveu no Brasil dos anos 1980 e 1990, certamente consegue completar o jingle. Ele tocou tanto, e por tanto tempo, que virou parte do idioma. Daquelas frases que as pessoas repetem até hoje sem lembrar exatamente de onde veio.
Na verdade, ele veio de um banco que nasceu no interior do Paraná e chegou a ser o segundo maior privado do país, com mais de 1.200 agências pelo Brasil.
E que deixou de funcionar há praticamente 30 anos, num episódio que ainda rende versões opostas sobre o que realmente aconteceu.
Qual é a história do Bamerindus
Em 1929, o mesmo ano da quebra da Bolsa de Nova York e do início da Grande Depressão, o empresário Avelino Antônio Vieira fundou, na pequena Tomazina, no norte do Paraná, uma instituição financeira em sociedade com amigos. Era o Banco Popular e Agrícola do Norte do Paraná.
O crescimento foi paciente e por incorporações.
Em 1944, o banco original foi absorvido pelo Banco Comercial do Paraná. Em 1951, Avelino assumiu o controle do Banco Meridional da Produção, que tinha apenas quatro agências, e mudou sua razão social para Banco Mercantil e Industrial do Paraná. Daí a origem da sigla que ficaria famosa: Bamerindus.
Em abril de 1971, virou Banco Bamerindus do Brasil S.A. e, ao longo dos anos 1970 e 1980, tornou-se uma das maiores instituições financeiras da América do Sul.
O banco tinha uma identidade fortemente paranaense, e fazia questão dela. Era o banco da terra, tocado por uma família da terra.
Como o marketing ajudou a marca a crescer
Para além de uma gigante de 1.200 agências, o Bamerindus também se destacou pelo marketing extremamente inovador para a época.
Dessa aposta saíram dois fenômenos. O primeiro foi o jingle da Poupança Bamerindus, creditado a Milce Junqueira, Fernando Rodrigues e Fernando Leite Colucci, que se tornou um dos mais reconhecíveis da publicidade brasileira. O segundo foi o "Gente que Faz": uma série de minidocumentários exibida em horário nobre, que mostrava brasileiros comuns empreendedores e trabalhadores, e que chegou a 230 episódios e ganhou prêmios.
No auge, o império correspondia ao tamanho da imagem. Em 1997, chegou a ter 1.450 agências, algo em torno de 23 mil empregados, 3,1 milhões de correntistas, mais de R$ 10 bilhões em ativos e uma das seguradoras mais rentáveis do país.
Foi também uma das primeiras instituições nacionais a ir além de conta corrente e poupança, oferecendo seguros, previdência privada e cartões de crédito.

Como o banco começou a chegar ao fim
Em 1981, um bimotor Piper Seneca II que partira de Curitiba caiu numa área de mata fechada nos Campos Gerais do Paraná, em meio a forte neblina e formação de gelo na fuselagem. No acidente morreram o então presidente do banco, Tomaz Edison de Andrade Vieira, seu irmão e vice-presidente, Cláudio Enoch de Andrade Vieira, três filhos de Cláudio e o piloto.
O desastre dizimou a cúpula do banco de uma só vez e forçou uma mudança sucessória inesperada. O comando recaiu sobre o único irmão remanescente, José Eduardo de Andrade Vieira. Foi sob a gestão dele que o banco viveria tanto seu auge como o fim.
A quebra do Bamerindus não pode ser entendida sem o Plano Real. Durante os anos de inflação altíssima, os bancos brasileiros ganhavam dinheiro com o chamado floating, a corrosão diária da moeda fazia o dinheiro parado render para a instituição.
Quando o Real estabilizou a economia em 1994, essa fonte de lucro evaporou de um dia para o outro. Vários grandes bancos, que pareciam sólidos, revelaram-se frágeis sem o ganho inflacionário. O Banco Econômico quebrou em 1995. O Nacional caiu em novembro do mesmo ano.
O Bamerindus tinha suas próprias fragilidades: dívidas antigas ligadas a uma empresa de papel do grupo, a Impacel, e a passivos herdados da extinta Superintendência da Marinha Mercante, além de despesas administrativas crescendo enquanto a captação e o lucro caíam.
A partir da quebra do Econômico, os boatos sobre a saúde do banco alimentaram uma fuga de depósitos que agravou tudo.
Em 26 de março de 1997, às 18 horas, depois do fechamento do mercado, o Banco Central decretou a intervenção. Duas horas antes, José Eduardo estivera no próprio BC tentando, mais uma vez, resolver a falta de liquidez.
A parte saudável do banco foi vendida ao britânico HSBC, que já detinha cerca de 6% do capital. Os ativos problemáticos ficaram numa liquidação extrajudicial que se arrastaria por mais de década.
De um lado, o Banco Central sustentou que o banco tinha um rombo patrimonial que justificava a intervenção. De outro, José Eduardo de Andrade Vieira construiu, e defendeu até o fim da vida, uma tese oposta. Em depoimentos no Senado, resumiu-a numa frase: "O Bamerindus não quebrou, foi quebrado." Segundo ele, não havia rombo, e sim uma crise de liquidez alimentada por boatos que as autoridades, sabendo serem falsos, não desmentiram.
O que sobrou do império
O epílogo se estendeu por anos. A massa falida do Bamerindus só teve desfecho em 2013, quando o BTG Pactual (do mesmo grupo da EXAME) comprou os ativos remanescentes, encerrando juridicamente a história. O HSBC, que herdou a rede, operou no Brasil até vender suas operações ao Bradesco em 2016, de modo que a estrutura do velho banco paranaense acabou, por um caminho tortuoso, dentro de um concorrente nacional.
O que ficou mesmo foi o jingle. "O tempo passa, o tempo voa".
