Banco Central pressionado: juros, inflação e o gatilho que pode levar o dólar de volta aos R$ 6

A guerra no Oriente Médio pode estar com os dias contados, diante da possibilidade de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, mas seus efeitos devem continuar pressionando a inflação no Brasil e no mundo. Essa é a avaliação de Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG, em participação no podcast Touros e Ursos.
O problema, segundo o economista, é que o choque do petróleo atingiu o país com a economia já aquecida, desemprego baixo e pouca capacidade de aumento de produção. Nesse contexto, aumento de custos costumam se transformar mais rapidamente em inflação.
Para ele, o principal problema não está apenas na alta temporária nos preços dos combustíveis e fertilizantes, mas no impacto sobre as expectativas de inflação no futuro.
Com o governo aumentando os estímulos ao consumo via crédito, a economia teve dificuldade para absorver o choque inicial e refletiu para vários setores.
“Mesmo com o preço do petróleo voltando e, eventualmente, os preços dos combustíveis também voltando, não resolve mais. A economia já refletiu todo esse choque e é a gente que vai ter que trabalhar para resolver”, disse.
A projeção de Serrano é de inflação de 5,40% neste ano, bastante acima da meta perseguida pelo Banco Central, de 3%.
Juros e comunicação
Na avaliação de Serrano, a comunicação recente do Banco Central trouxe dúvidas sobre como a autoridade monetária está vendo o impacto da inflação na economia.
Antes da escalada das tensões no Oriente Médio, havia expectativa de cortes consistentes e rápidos na taxa de juros. Agora, o cenário se tornou mais complexo.
Para o economista, o mais adequado seria interromper temporariamente o ciclo de afrouxamento nos juros para avaliar os efeitos do ambiente externo e da inflação doméstica.
Ele defende que a Selic permaneça no nível atual, de 14,25% ao ano, por mais tempo, em vez de uma redução que possa dificultar o processo de convergência da inflação.
O cenário internacional também pesa nessa avaliação. Serrano destacou a postura do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), que sinalizou umapolítica monetária mais restritiva do que o mercado esperava.
Juros mais altos nos Estados Unidos fortalecem o dólar globalmente e tendem a pressionar os preços em economias emergentes como a brasileira, tornando o controle da inflação ainda mais desafiador.
O fiscal e o dólar
Embora o possível aumento de juros nos EUA pressione o real em relação ao dólar, para Serrano, o gatilho que pode fazer a moeda norte-americana voltar ao patamar de R$ 6 é outro: o risco para as contas públicas.
Segundo ele, o dólar estaria hoje em um patamar compatível entre R$ 5,00 e R$ 5,20. No entanto, uma deterioração fiscal pode alterar rapidamente essa dinâmica.
A preocupação é que déficits elevados nas contas públicas e crescimento acelerado da dívida reduzam a confiança dos investidores, aumentando a demanda por dólar e pressionando a taxa de câmbio.
Embora reconheça que o processo eleitoral de 2026 deve elevar a volatilidade dos mercados e o prêmio de risco dos ativos brasileiros, Serrano considera a questão fiscal um problema mais relevante por seu caráter estrutural.
Na visão do economista, sem uma melhora consistente das contas públicas, inflação elevada e juros altos podem permanecer como obstáculos ao crescimento do país.
Touros e ursos da semana
No quadro que dá nome ao podcast, Serrano escolheu o petróleo como seu “urso” (destaque negativo) da semana. A justificativa foi o impacto da commodity sobre diferentes setores da economia, dos combustíveis aos alimentos.
Já o “touro” (destaque positivo) foi para as taxas de juros oferecidas atualmente ao investidor de renda fixa, especialmente nos títulos do Tesouro Direto.
Outros destaques escolhidos foram o senador Jaques Wagner (PT/BA) como urso, após as investigações da Polícia Federal revelarem possíveis vantagens indevidas no caso Master.
Já a Compass (PASS3) ganhou o touro por ser o primeiro IPO na bolsa brasileira desde 2021. Apesar da queda das ações após a estreia, analistas veem potencial de valorização de até 50% nos próximos meses.
