Banco do Brasil admite 'erro' em cartão e trava linha após pico de inadimplência
Analistas destacam piora do crédito em pessoas físicas e veem riscos ainda pela frente; ações caem nesta quinta-feira, 13, após balanço do 2° trimestre

O Banco do Brasil (BBAS3) reconheceu que uma modalidade de parcelamento automático de faturas contribuiu para o salto da inadimplência no cartão de crédito de pessoas físicas no 2° trimestre e decidiu interromper a operação. A piora, que já havia sido identificada pelos modelos de risco do banco no 1° trimestre, foi reconhecida integralmente no balanço divulgado na noite de quarta-feira, 12. Apesar da recuperação do lucro, o avanço do risco de crédito e a pressão sobre o capital mantiveram o tom cauteloso dos executivos e de analistas nesta quinta-feira, 13.
Segundo Geovane Tobias, vice-presidente financeiro do Banco do Brasil, o banco percebeu ainda no primeiro trimestre que a nova modalidade de parcelamento automático, criada para clientes que não conseguiam pagar a fatura integralmente,estava produzindo um comportamento de crédito diferente do esperado.
“Quando começou a rodar essa nova modalidade de parcelamento automático, sem o pagamento de uma entrada, a gente percebeu que isso virou quase que como se fosse um [movimento] se retroalimentando”, afirmou Tobias. Segundo o VP financeiro, o banco interrompeu a operação no fim de março, antecipou as provisões e passou a reavaliar os contratos para reconhecer como atraso operações que não haviam sido efetivamente pagas.
A dimensão do problema apareceu no balanço. A inadimplência acima de 90 dias no cartão de crédito de pessoas físicas saltou de 7,12% em março para 14,58% em junho, alta de 746 pontos-base em apenas três meses. Um ano antes, o indicador estava em 6,53%. A carteira de cartões para pessoas físicas encerrou o trimestre em R$ 69,9 bilhões, queda de 3,1% no trimestre, mas alta de 15,1% em 12 meses.Tarciana Medeiros, presidente do BB, afirmou que a instituição preferiu “estancar a linha” diante da deterioração. “A tendência é que a gente tenha realmente ali uma normalização dessa curva de inadimplência”, disse. Segundo a CEO, o banco espera que o indicador volte, no próximo trimestre, a patamares anteriores aos observados no segundo trimestre.
Felipe Prince, vice-presidente de Riscos, reforçou que a deterioração havia sido capturada antecipadamente pelos modelos do banco. “Primeiro, os modelos indicaram a potencial deterioração e aí a gente toma a decisão com base na perda esperada de fazer o provisionamento”, afirmou. O executivo afirmou que a estratégia passou também pela redução da concessão de crédito para clientes considerados menos resilientes.
A explicação ajuda a entender por que a piora do cartão não foi acompanhada por uma deterioração equivalente no resultado do trimestre. O custo do crédito somou R$ 18,48 bilhões entre abril e junho, queda de 2,1% sobre o primeiro trimestre, mas alta de 16,1% em relação ao mesmo período de 2025. No primeiro semestre, a despesa chegou a R$ 37,3 bilhões, avanço de 43,3%.
Alta na inadimplência geral acende alerta
A deterioração, porém, não ficou restrita aos cartões. A inadimplência acima de 90 dias de toda a carteira alcançou 5,61% em junho, alta de 56 pontos-base no trimestre e de 165 pontos-base em 12 meses. Segundo o banco, pessoas físicas e produtores rurais foram os principais responsáveis pela piora da qualidade do crédito.
É justamente nesse ponto que está uma das principais preocupações para os próximos trimestres. Tobias afirmou que o banco considera ter atingido um pico de provisões, mas condicionou uma recuperação mais consistente da rentabilidade à evolução da carteira rural e à implementação das medidas de renegociação de dívidas.“É muito cedo estabelecer qual vai ser o nível de rentabilidade”, afirmou. O executivo disse que o banco trabalha para chegar ao topo da faixa de provisões prevista no guidance, de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões, e que a execução das medidas voltadas ao crédito rural será determinante para a trajetória dos resultados.
A pressão já aparece no retorno sobre o patrimônio. O ROAE ficou em 8,3% no segundo trimestre, acima dos 7,2% registrados nos três primeiros meses do ano, mas abaixo dos 8,4% de um ano antes. No primeiro semestre, o lucro líquido ajustado ficou 34,2% abaixo do registrado no mesmo período de 2025.
O lucro do segundo trimestre, por outro lado, mostrou recuperação. O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,91 bilhões, alta de 13,9% sobre o primeiro trimestre e de 3,3% em relação ao segundo trimestre de 2025. O lucro líquido contábil foi de R$ 3,17 bilhões, avanço de 2,7% no trimestre e de 4,6% em 12 meses.
Para a presidente do Banco do Brasil, os números mostram que a capacidade de geração de receitas continua sendo um contraponto à pressão do crédito. “Estamos sempre falando da inadimplência, a estamos sempre falando da adimplência, falando do risco, mas estamos deixando de falar da capacidade dessa empresa de gerar resultado”, afirmou.
A receita com prestação de serviços somou R$ 9,12 bilhões no trimestre, alta de 3,4% sobre o primeiro trimestre e de 4,2% em um ano. A margem financeira bruta chegou a R$ 27,48 bilhões, praticamente estável na comparação trimestral e 9,6% acima de um ano antes.
Ações do BB recuam no pregão desta quinta
O problema é que a melhora operacional ainda precisa conviver com uma estrutura de capital mais pressionada. O Índice de Basileia terminou junho em 13,91%, abaixo dos 14,23% registrados em março e dos 14,14% de um ano antes. O capital principal ficou em 11,27%.
Esse conjunto de números explica a cautela dos analistas e recuo das ações do banco, que caíam 3,21% por volta das 14h. O Safra manteve uma visão negativa para asações do Banco do Brasil mesmo diante de um lucro acima do projetado.
Para o banco de investimento, a surpresa positiva no resultado foi secundária diante da piora dos indicadores de qualidade dos ativos e dos impactos negativos sobre o patrimônio líquido.
A avaliação é de que o resultado do segundo trimestre não traz evidências suficientes de uma recuperação sustentável da rentabilidade. O Safra também chama atenção para a formação de inadimplência no varejo, que chegou a R$ 11,8 bilhões no trimestre, e para a necessidade de melhora expressiva na carteira de agronegócio e deimplementação efetiva das medidas de renegociação rural.O Itaú BBA também destacou a deterioração em pessoas físicas. Segundo a instituição, a formação de novos créditos inadimplentes nesse segmento mais que dobrou na comparação trimestral, chegando a R$ 11,8 bilhões.
A avaliação é de que operações de cartão e de crédito consignado privado originadas nos últimos trimestres ainda não amadureceram completamente, mantendo riscos adicionais para os próximos períodos.
A própria administração reconhece que o desafio não está apenas em absorver o problema já identificado, mas em evitar que novas concessões reproduzam a deterioração. “Vamos estar atento para poder crescer, mas cuidando para que esse crescimento também não traga mais risco, como aconteceu, por exemplo, no segmento de cartão de crédito”, afirmou Tobias.
