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Sacre Investimentos
Exame INACSBDR
17/08/2026
9 min

'Bancões' projetam conta da eleição e cobram 'pacote fiscal' pós-urnas

Executivos veem eleição adicionando volatilidade a um cenário de juros altos, crédito mais seletivo e maior cautela dos bancos

'Bancões' projetam conta da eleição e cobram 'pacote fiscal' pós-urnas

A eleição de 2026 deve colocar os mercados brasileiros diante de uma combinação incômoda: mais volatilidade no curto prazo e maior pressão por respostas fiscais no período seguinte ao pleito. É essa a leitura que emerge das últimas semanas de balanços financeiros de Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), cujos executivos apontaram, durante apresentação de resultados, o calendário eleitoral como um fator adicional de cautela em um cenário já marcado por juros altos, endividamento das famílias e incertezas sobre as contas públicas.

No Itaú, o CEO Milton Maluhy Filho afirmou que a polarização eleitoral tende a manter os investidores atentos às pesquisas e, principalmente, à comunicação dos candidatos. Até o momento, o pleito está desenhado para opor, de um lado, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e, do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL).

A expectativa, segundo Maluhy Filho, é de que os mercados passem a antecipar cada vez mais os possíveis resultados conforme a disputa avance. "As pesquisas têm saído todos os dias, todo dia tem uma atualização, claramente mostra um cenário eleitoral polarizado, como imaginávamos, mas ainda com muitas discussões nos próximos meses. Eu acho que alguma volatilidade sempre pode ter, mas não estamos vendo nenhuma volatilidade desproporcional", afirmou em coletiva à imprensa.

Na última terça-feira, 11, contudo, o instituto MDA soltou uma nova rodada de sua pesquisa sobre as eleições presidenciais e mostrou Lula com 42,3% das intenções de voto no primeiro turno contra 28,7% de Flávio Bolsonaro (PL). A vantagem do atual presidente, somada ao rebaixamento das ações brasileiras pelo JP Morgan, levou o Ibovespa,o principal índice acionário da B3, a uma queda de 2,50%.

No Bradesco, o CEO, Marcelo Noronha, diz que a demanda costuma diminuir durante algumas semanas do período eleitoral, especialmente em operações de renda variável. "O mercado normalmente se retrai um pouco nesse período. Então não dá para você imaginar um cenário que tem uma demanda como se teve no primeiro semestre", afirmou.

Bancos esperam clareza sobre a política fiscal após o pleito

O executivo disse que o banco chegou ao início do ano esperando um mercado de equities mais forte, mas a resiliência dos juros e as oscilações do mercado americano mudaram esse cenário.

A preocupação com o mercado de capitais, porém, é apenas uma parte da equação. Para os bancos, o principal ponto de atenção no horizonte eleitoral é fiscal.

Noronha afirmou esperar que, depois da eleição, independentemente de quem vencer, o próximo presidente apresente uma política fiscal para os quatro anos de mandato. "Eu tenho expectativa positiva", afirmou.

O CEO do Bradesco acrescentou que o país deve entrar em 2027 com um cenário de ajuste fiscal mais forte.

No Itaú, o debate sobre as contas públicas aparece associado diretamente à trajetória dos juros. Maluhy Filho defendeu que o mercado passe a olhar menos apenas para o resultado primário e dê mais peso ao déficit nominal, que incorpora o efeito dos juros sobre a dívida.

A preocupação, segundo o executivo, é que uma eventual queda dos juros de curto prazo não seja suficiente para reduzir o custo de financiamento de empresas e consumidores caso o risco fiscal continue elevado. "Às vezes o juro curto cai, mas se existe uma insegurança, uma incerteza e o prêmio de risco aumenta, as taxas de juros longas aumentam. Isso é onde os clientes se financiam. O cliente não se financia no CDI diário", disse.

Maluhy também colocou a agenda social dentro dessa mesma equação. Para o CEO do Itaú, uma política fiscal desordenada pode aumentar a inflação e, consequentemente, reduzir o poder de compra das famílias. "Tão importante quanto o social é o fiscal, porque se o fiscal anda desordenado, traz mais inflação e afeta não só a capacidade do governo de investir no social, mas também gera inflação e reduz o poder de compra das famílias", afirmou.

Santander prefere abrir mão de margem para reduzir risco no crédito

No Santander, a eleição aparece como um problema ainda mais difícil de incorporar às projeções. O CFO Carlos Muñiz Gonzalez-Blanch afirmou que o banco não consegue antecipar quais premissas econômicas deverão ser usadas para os próximos anos diante da proximidade do pleito. "Temos eleições na volta da esquina. Sinceramente, não sei qual é o cenário macro que temos que colocar para 2027, 2028 e 2029", afirmou.

A incerteza ajuda a explicar uma decisão que aparece de forma bastante concreta no balanço do Santander, onde o banco está deliberadamente abrindo mão de receitas de curto prazo para reduzir o risco da carteira de crédito. "Gostaria de ter as receitas bombando, mas, com as dúvidas que temos sobre o entorno macro, prefiro jogar um pouco mais seguro, mesmo que isso esteja custando no curto prazo", disse o CFO durante a teleconferência com analistas.

A estratégia consiste em reduzir a exposição a produtos de margem elevada, como crédito rotativo, e ampliar operações com garantias. A perspectiva para a qualidade do crédito também é cautelosa. Mesmo desconsiderando efeitos extraordinários sobre as provisões, Gonzalez-Blanch não espera uma melhora relevante nos próximos meses. "Eu, pessoalmente, não estou otimista. Se tivesse que colocar uma data, provavelmente essa data estaria mais em 2027 do que no fim de 2026", afirmou.

O Santander também terá de lidar com a carteira antiga de operações mais arriscadas enquanto as novas safras, mais conservadoras, ganham peso. O índice de inadimplência acima de 90 dias permaneceu em 3,3%, mas a pressão continua concentrada na pessoa física, especialmente entre clientes de menor renda.

Cautela no crédito e no agro

No Bradesco, a cautela também chegou à concessão de crédito. Noronha classificou o cenário econômico do segundo semestre como pior, citando o comprometimento de renda das famílias e a persistência dos juros elevados. "O cenário é pior. O comprometimento de renda subiu e a taxa de juro resiliente dessa maneira não tem muito jeito. Você vai pressionar as empresas que têm margem líquida menor", afirmou.

A resposta do banco foi semelhante à de Santander e Itaú, que também reduziram exposição a linhas mais arriscadas para priorizar operações com garantias. "Não estamos fazendo loucura. Estamos reduzindo o crédito pessoal e fazendo colateralizado, queremos estar no consignado", acrescentou o CEO do Bradesco.

Entre abril e junho, as operações com garantias chegaram a 61% da carteira de crédito do Bradesco, avanço de 2,5 pontos percentuais em 12 meses. A carteira de consignado privado cresceu 90,1%, o financiamento de veículos avançou 26,8% e o capital de giro com garantias teve expansão de 21,8%.

No Banco do Brasil, a discussão sobre o cenário eleitoral ganhou um contorno diferente. A presidente, Tarciana Medeiros, foi questionada na última quinta-feira, 13, se osresultados apresentados pelo banco nesta semana poderiam ter impacto sobre uma eventual reeleição de Lula, em meio à crise enfrentada pelo agronegócio e à deterioração da carteira de pessoa física da instituição.

Medeiros afirmou, porém, que as decisões de negócios do banco não são tomadas com base no calendário político. Ao falar especificamente sobre a carteira de crédito rural, a executiva destacou as medidas adotadas para reduzir a exposição ao risco e manter o financiamento aos produtores.

Segundo ela, 70% da carteira da safra 2025 e 2026 já conta com algum mitigador de risco, enquanto a alienação fiduciária soma R$ 90 bilhões. O banco atende cerca de 600 mil clientes do agronegócio e financia mais de 200 culturas, sendo que 84% desses clientes estão há mais de dez anos na instituição. "Tudo isso para dizer que a gente não se pauta por ciclos políticos e eleitorais no momento em que a gente vai definir quais são os objetivos econômicos para o banco e principalmente aqui, já que a gente está falando do agro, para a carteira do agro", afirmou.

O BTG Pactual também vê espaço para crescimento, mas reconhece que o cenário exige uma dose maior de cautela. O CFO, Renato Cohen, afirmou que, no início do ano, o mercado esperava uma redução mais rápida dos juros, com cortes de 0,5 ponto percentual por reunião do Copom. O ritmo acabou sendo mais lento. "O mercado está um pouco mais cauteloso, naturalmente um pouco mais cauteloso ou corretamente um pouco mais cauteloso, dado o ambiente de juro mais alto", afirmou.

Para Cohen, contudo, não há sinais suficientes para concluir que o mercado esteja exagerando no risco. A economia ainda apresenta indicadores positivos, como desemprego próximo das mínimas, número de empregados perto das máximas e massa salarial em níveis elevados. "O que está acontecendo é que o cenário é um pouco pior do que se projetava há seis meses atrás. E você vê uma certa deterioração, então faz sentido você ter mais cautela na concessão do crédito", disse.

No BTG, a maior segurança está justamente no perfil das operações. Segundo Cohen, 95% da carteira do Banco Pan, que integra o grupo, é composta por crédito com algum tipo de garantia, principalmente financiamento de veículos e consignado. "É bastante diferente de você comparar isso com o crédito direto ao consumidor e o crédito do cartão de crédito que não tem essa garantia. Então você tem uma situação bem mais confortável", afirmou.

Lucros resistem, mas bancos entram no 2° semestre mais defensivos

A convergência entre os bancos não está em uma previsão de crise, mas na mudança de postura diante de um cenário que ficou menos favorável do que o esperado no início do ano.

O Itaú mantém uma carteira de R$ 1,5 trilhão e lucro líquido contábil de R$ 12,1 bilhões no segundo trimestre; o Bradesco teve lucro de R$ 7 bilhões; o BTG Pactual, de R$ 4,9 bilhões; o Banco do Brasil, de R$ 3,1 bilhões; e o Santander, de R$ 2,6 bilhões.

Somados, os cinco bancos registraram lucro líquido de R$ 29,9 bilhões no segundo trimestre, acima dos R$ 28,353 bilhões do primeiro trimestre, mas abaixo dos R$ 31,8 bilhões do quarto trimestre de 2025, de acordo com levantamento da Elos Ayta.

AutorClara Assunção
FonteExame
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