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Sacre Investimentos
Future of MoneyCPTO
05/09/2026
4 min

Bancos da América Latina já estão superando a Europa na construção de equipes de cripto

Equipes dedicadas a ativos digitais superam as de outros lugares do mundo conforme a tecnologia ganha importância na região

Bancos da América Latina já estão superando a Europa na construção de equipes de cripto

Por Stijn Vander Straeten*

Quando estive no Brasil em março, conversei com executivos da região e vi que alguns dos maiores bancos e instituições, como Bradesco, Itaú e BTG, já possuem equipes de 20 a 50 pessoas trabalhando só no setor de criptomoedas, número que me surpreendeu se compararmos com o que os bancos europeus estão construindo. Vejo que são equipes maiores e mais avançadas do que as que estão se formando em instituições de Zurique, Frankfurt ou Madri.

Existem alguns motivos pelos quais a América Latina se moveu com mais urgência. Os projetos na Europa ainda estão apenas começando, e somos muito avessos ao risco por lá. Os bancos esperaram que o processo regulatório se consolidasse antes de agir. Além disso, enviar dinheiro entre fronteiras raramente custa caro ou demora muito, então os bancos sentiram pouca pressão para buscar uma alternativa mais rápida ou barata.

No Brasil e na Argentina, a situação tem sido diferente há anos. Enviar valores ao exterior ou recebê-los de familiares que trabalham fora sempre custou muito caro e, até pouco tempo, não havia alternativa aos meios tradicionais que cobram por isso.

Criptomoedas para transações internacionais

Isso tem mudado, já temos novas alternativas e os números refletem essa mudança. O Banco Central do Brasil registrou US$ 6,9 bilhões em volume de transações com criptoativos no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro do mesmo período do ano anterior, com as stablecoins respondendo por 98% desse total.

Dados da Receita Federal desde 2019 mostram que as stablecoins passaram de 3,5% para 80% de todo o volume declarado de criptoativos no país, e a grande maioria desse volume passa por tokens atrelados ao dólar que funcionam, na prática, como uma forma mais barata de manter e movimentar dólares.

A Argentina conta uma história parecida, mas com contornos mais acentuados. A Chainalysis classifica o país como o segundo maior mercado de criptoativos da América Latina em volume de transações, e diversas pesquisas apontam uma adoção de cripto entre 15% e 20% da população — uma das porcentagens mais altas já registradas em qualquer lugar.

Anos de inflação forçaram famílias e empresas a recorrerem às stablecoins atreladas ao dólar como forma de preservar valor, e os mesmos tokens se tornaram um meio prático de enviar e receber remessas por uma fração do que bancos ou empresas de transferência de dinheiro cobram.

A escolha dos bancos

O comportamento dos clientes impulsionou essa mudança mais do que a estratégia dos bancos. Empresas começaram a pagar fornecedores no exterior em stablecoins por conta própria, e famílias passaram a receber remessas da mesma forma.

Quando isso atingiu uma escala relevante, os bancos se viram diante de uma escolha: construir a capacidade interna para atender essa demanda ou só assistir a uma fatia cada vez maior da receita de transações migrar para plataformas que nunca precisaram de uma licença bancária para operar.

Essa escolha explica o tamanho das equipes que tenho encontrado. Construir esse tipo de equipe exige conhecimento especializado em custódia, profissionais de compliance que entendam um cenário regulatório em rápida transformação, e engenheiros capazes de integrar trilhos de blockchain a sistemas bancários construídos décadas atrás. Bancos que investem em 20 pessoas ou mais nesse trabalho já estão tratando esse tema como infraestrutura essencial.

A regulação acompanha o avanço

Os reguladores da região estão atuando para acompanhar esse ritmo, mesmo que o processo pareça diferente do modelo europeu de regramento único. A comissão de valores mobiliários da Argentina exige o registro de provedores de ativos virtuais desde 2024, e neste ano foi além, reconhecendo participações em bitcoin, ether e stablecoins como parte do patrimônio líquido de um investidor para fins de credenciamento. O banco central do país está agora elaborando regras que permitiriam aos bancos operar diretamente com criptoativos, um passo que formalizaria o que várias instituições já vêm se preparando internamente para fazer.

O Brasil adotou uma abordagem em camadas, ancorada pelo Marco Legal dos Ativos Virtuais de 2022 e construída por meio de resoluções subsequentes do Banco Central e regras de declaração fiscal. Um arcabouço mais abrangente, adotado em 2025, começou a entrar em vigor em 2026 e busca consolidar essas peças em uma estrutura regulatória mais completa.

Juntos, os dois países mostram uma região escrevendo suas próprias regras enquanto a adoção já está bem avançada, em vez de esperar por um arcabouço finalizado para começar.

Para bancos que estão avaliando quanto investir nessa capacidade, o tamanho das equipes já visível no Brasil oferece um parâmetro útil. Esperar para construir essa expertise mais tarde, quando a demanda dos clientes já tiver mudado completamente, custará mais do que construí-la agora.

*Stijn Vander Straeten é CEO da Crypto Finance, empresa suíça do Deutsche Börse Group

AutorDa Redação
FonteExame
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