Baterias ganham espaço no agronegócio — e podem reduzir conta de energia em 50%
Empresa mineira do setor avícola passa a armazenar eletricidade em meio a um plano de expansão de R$ 430 milhões

A Rivelli Alimentos, empresa mineira que atua na cadeia de produção avícola, instalou um sistema de armazenamento de energia por baterias de 1,29 megawatt-hora (MWh) em Carmo do Cajuru, Minas Gerais, com expectativa de reduzir a conta de eletricidade em aproximadamente 50%.
O projeto combina baterias da chinesa Huawei, geração solar e conexão à rede elétrica para diminuir os custos nos horários de maior demanda e garantir o abastecimento em caso de apagões.
Desenvolvida pela Powersafe e pela Zipp Energia, a instalação é a primeira para um consumidor privado em Minas Gerais a receber homologação integral da Cemig Distribuição. O sistema utiliza seis gabinetes de baterias e uma usina solar de 378 quilowatts-pico (kWp), além de manter um gerador a diesel como fonte de emergência.
As baterias foram instaladas na Granja de Matrizes da Rivelli, unidade dedicada à criação de aves reprodutoras. A tecnologia permite armazenar eletricidade para utilização nos horários de tarifas mais elevadas e manter equipamentos essenciais em funcionamento durante interrupções da rede. Dependendo das condições de consumo, a autonomia estimada pode chegar a 27 horas.
Como as baterias podem reduzir a conta de energia?
O sistema instalado na granja é composto por seis gabinetes de baterias Huawei LUNA2000, cada um com capacidade de 215 quilowatt-hora (kWh), totalizando 1.290 kWh de armazenamento.
Os equipamentos utilizam baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), tecnologia de armazenamento baseada em compostos de lítio, ferro e fosfato.
A estrutura também inclui 540 painéis solares de 700 watts-pico (Wp), distribuídos sobre três galpões, com capacidade instalada de geração fotovoltaica de 378 quilowatts-pico (kWp).
Uma das principais funções do projeto é deslocar o consumo de eletricidade para períodos de menor custo.
A estratégia, conhecida como load shifting, ou deslocamento de carga, permite carregar as baterias em horários mais favoráveis e utilizar a energia armazenada durante o horário de ponta, quando o consumo da rede costuma ter tarifas mais elevadas.
Segundo as empresas responsáveis, a solução foi dimensionada para permitir que o consumo de energia da concessionária seja reduzido a zero nesses períodos.
Outra aplicação é o peak shaving, técnica de redução dos picos de demanda elétrica. Nesse caso, as baterias ajudam a controlar a potência solicitada à rede, com o objetivo de manter a demanda máxima da granja em até 360 quilowatts (kW).
O sistema também atua na correção do fator de potência, indicador da eficiência com que a instalação utiliza a energia elétrica, para evitar cobranças adicionais relacionadas à energia reativa.
A combinação dessas funções sustenta a estimativa de redução de aproximadamente 50% na fatura de eletricidade. O percentual, porém, é uma projeção apresentada pelas empresas, e não um resultado medido após um período de operação.

Até 27 horas de autonomia em caso de interrupção
Além do impacto econômico, a instalação busca resolver um problema operacional da cadeia avícola: a dependência de eletricidade para manter as condições ambientais necessárias à criação dos animais.
Na Granja de Matrizes, sistemas de ventilação, ambiência, refrigeração e bombeamento precisam funcionar continuamente. Uma falha prolongada pode comprometer as condições de criação das aves.
Antes da implantação do projeto, a transferência do fornecimento para o gerador a diesel dependia de acionamento manual.
Com o novo sistema, as baterias assumem automaticamente o abastecimento em caso de interrupção da rede elétrica. O gerador continua disponível como uma segunda camada de segurança, podendo ser acionado conforme a necessidade da operação.
Segundo os estudos de dimensionamento, em um cenário considerado crítico, com chuvas intensas e interrupção da rede logo após o horário de ponta, a autonomia estimada é de aproximadamente dez horas.
Esse período pode chegar a 27 horas caso equipamentos não essenciais sejam desligados, reduzindo o consumo de eletricidade.
Em condições favoráveis de geração solar, a autonomia também pode ser prolongada enquanto a produção dos painéis for suficiente para sustentar o consumo.
As estimativas dependem, portanto, das condições de geração e da quantidade de equipamentos mantidos em funcionamento durante uma interrupção.
O projeto preserva o gerador movido a diesel como recurso emergencial. Assim, embora amplie a participação da energia solar na operação, a estrutura não elimina o uso potencial de combustível fóssil em situações de contingência.
Projeto integra energia solar e armazenamento
A infraestrutura da Rivelli inclui uma subestação dedicada de 13,8 quilovolts para 380 volts e foi projetada para operar no modelo zero grid, configuração na qual a instalação não injeta excedentes de eletricidade na rede da distribuidora.
Com isso, a energia solar produzida na granja é direcionada ao consumo da própria unidade e à estratégia dearmazenamento, sem exportação para a rede da Cemig.
A integração entre as diferentes fontes permite que a eletricidade seja administrada de acordo com as necessidades da operação.
Para Renato Mondino, diretor de BESS C&I da Huawei, o projeto indica uma mudança na forma como empresas com atividades críticas podem utilizar sistemas de baterias.
“A combinação entre BESS, geração solar e gestão da demanda permite ampliar a resiliência da operação e, ao mesmo tempo, otimizar o uso da energia”, afirma.
A implantação envolveu diferentes fornecedores. A Huawei forneceu a tecnologia de armazenamento e os inversores fotovoltaicos, enquanto a Powersafe ficou responsável pelo fornecimento dos sistemas de baterias, testes e comissionamento, etapa de verificação dos equipamentos antes da operação.
A HDT Energy participou da cadeia de fornecimento, e a Zipp Energia e a KBTZ Engenharia atuaram no desenvolvimento do projeto, nas obras, na subestação e na integração da infraestrutura.
Investimento em energia acompanha expansão da Rivelli
Fundada em 1985, a Rivelli Alimentos atua em diferentes etapas da cadeia avícola, incluindo criação de aves, incubatório, fabricação de rações e processamento industrial. A companhia também trabalha com produtores integrados e atende mercados internacionais.
O projeto de armazenamento de energia ocorre em um momento de ampliação da capacidade produtiva da empresa.
A Rivelli anunciou investimentos de aproximadamente R$ 430 milhões em uma nova etapa de crescimento, com o objetivo de elevar sua capacidade de abate de 200 mil para 300 mil aves por dia, um aumento previsto de 50%.
O plano também contempla investimentos de produtores integrados, que participam da cadeia de produção da companhia.
Com a expansão, o fornecimento de eletricidade permanece como uma condição necessária para sustentar atividades que dependem de ventilação, refrigeração, automação e outros equipamentos.
O valor investido especificamente no sistema de baterias da granja não foi informado no material divulgado pelas empresas. Também não foram apresentados o prazo estimado de retorno financeiro do projeto nem dados de redução de emissões de gases de efeito estufa.
Embora a geração solar faça parte da infraestrutura, a instalação mantém a rede elétrica e o gerador a diesel entre suas fontes de abastecimento.
A capacidade de armazenamento de 1,29 MWh passa, assim, a ser utilizada tanto na gestão diária do consumo quanto na proteção de uma operação que não pode depender exclusivamente da disponibilidade da rede elétrica.
