BC mantém espaço para novo corte da Selic após eleições, dizem economistas
Corte de 0,25 ponto percentual levou a taxa básica para 13,75% ao ano; analistas apontam que Banco Central manteve cautela, mas preservou espaço para novos ajustes a depender dos dados econômicos

O comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) após a decisão de reduzir a Selic para 13,75% ao ano não trouxe mudanças relevantes em relação ao texto anterior, mas manteve aberta a possibilidade de um novo corte de juros nas próximas reuniões, segundo economistas ouvidos pela EXAME.
O Banco Central reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual na noite desta quarta-feira, em uma decisão já esperada pelo mercado financeiro.
O principal ponto de atenção, segundo analistas, ficou na comunicação: o Copom repetiu que “a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações”, sinalizando que a trajetória dos juros seguirá condicionada aos próximos indicadores.
Para Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, a manutenção desse trecho indica que o Banco Central ainda considera novos cortes possíveis.
“O comitê manteve o comunicado sem grandes alterações, inclusive mantendo a frase ‘a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações’, o que indica que considera novos cortes, afastando a chance de pausa nesse momento”, afirma.
Na avaliação da economista, o nível atual da taxa de juros ainda permanece restritivo, termo usado para indicar uma política monetária que reduz o ritmo da atividade econômica para controlar a inflação. Ela cita a perda de força da economia e a estabilidade das projeções de inflação do próprio BC como fatores que favorecem uma nova redução.
“O caminho para um novo corte de 0,25 p.p. nos parece ser o mais provável. Além disso, as projeções de inflação do BC seguem estáveis em 3,2% para o horizonte relevante da política monetária, não indicando deterioração no cenário”, diz Rafaela.
O economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, também avalia que o comunicado mudou pouco em relação ao encontro anterior, mas chama atenção para os riscos que ainda permanecem no cenário.
Segundo ele, o Copom reconheceu uma desaceleração da atividade econômica, especialmente nos setores mais sensíveis ao ciclo de juros, mas manteve a avaliação de que a economia brasileira continua resiliente. Ao mesmo tempo, a inflação segue acima do teto da meta e as expectativas de longo prazo continuam desancoradas, quando os agentes econômicos passam a projetar inflação acima do objetivo oficial por um período prolongado.
“O Copom anunciou que o fim do processo depende de dados”, afirma Camargo.
Para o economista, um ponto que não recebeu destaque suficiente no comunicado foi a composição da desaceleração recente da inflação. Ele avalia que parte do movimento veio de fatores temporários, como a redução dos preços dos alimentos, que podem sofrer reversão nos próximos meses.
“Não mencionar o fato de que a desaceleração da taxa de inflação depende de fatores pontuais e não da política monetária sugere uma expectativa mais suave da política monetária”, afirma.
Analistas divergem sobre pausa ou novo corte
Apesar da avaliação comum de que o comunicado não fechou a porta para novos cortes, os economistas divergem sobre o próximo movimento do Banco Central.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, considera que o corte realizado nesta reunião pode ter sido o último do ciclo em 2026, apesar de concordar que o comunicado manteve a porta aberta para uma nova calibração. Para ele, o comunicado trouxe apenas ajustes marginais no diagnóstico da economia e da inflação.
“O comunicado trouxe poucas novidades, foi muito parecido com o anterior, com duas alterações marginais no diagnóstico sobre a atividade econômica e sobre a inflação”, afirma.
Cardoso avalia que a desaceleração da atividade, a melhora da inflação e a possibilidade de um cenário mais favorável em 2027 podem permitir juros menores no futuro. Porém, fatores como o comportamento do petróleo, o cenário externo, as eleições brasileiras e o risco fiscal podem levar o BC a adotar uma postura mais conservadora.
“A gente continua com o cenário base, tendo pausa na próxima reunião, mas vendo que a probabilidade de taxas de juros menores ao longo de 27 vem ganhando peso com a desaceleração da atividade econômica, o arrefecimento da inflação”, diz.
Bruna Centeno, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, destaca outro ponto do comunicado: a preocupação do Banco Central com a política monetária das economias avançadas, principalmente diante do impacto sobre o fluxo internacional de recursos.
Segundo ela, uma redução dos juros brasileiros diminui o diferencial de rendimento entre o Brasil e outros mercados, o que pode afetar a atratividade dos ativos locais.
“O fato de o Copom ter sinalizado isso mostra uma forte preocupação com o fluxo de capital. Afinal, se começarmos a diminuir muito a taxa de juros internamente, pode ser que o capital migre para outras praças onde seja melhor remunerado”, afirma.
Para a economista, o Banco Central preservou a estratégia de acompanhar os dados antes de indicar os próximos passos.
“A expectativa é que o Banco Central siga com a manutenção de ajustes graduais de 0,25 p.p., mas preservando a postura data dependent, ou seja, a depender dos dados econômicos”, afirma.
Eleição aumenta incerteza sobre próximos passos do Copom
O calendário eleitoral também aparece entre os fatores citados pelos analistas para as próximas decisões do Banco Central. Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, avalia que a combinação entre desaceleração da atividade e inflação mais favorável permite considerar um novo corte, mas destaca que o ambiente político adiciona incerteza.
“O comunicado mudou pouco em relação à reunião anterior, mantendo a avaliação de que o cenário externo exige cautela, a atividade local apresenta moderação gradual e tanto a inflação cheia quanto as métricas subjacentes desaceleram”, afirma.
Segundo Chicoli, o Copom manteve o balanço de riscos com assimetria de alta para a inflação e preservou a projeção de 3,2% no horizonte relevante.
