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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
14/08/2026
5 min

Biocombustíveis ampliam fronteiras, mas dependem de segurança regulatória e acesso a mercados

Expansão de SAF, etanol e biodiesel criam novas oportunidades para o Brasil, mas barreiras comerciais e incertezas regulatórias ainda limitam investimentos e exportações

Biocombustíveis ampliam fronteiras, mas dependem de segurança regulatória e acesso a mercados

O Brasil reúne condições para ampliar sua participação no mercado global de biocombustíveis, apoiado pela disponibilidade de matérias-primas, tecnologia e capacidade de produção. Mas, para transformar essa vantagem em investimentos e conquistar novos mercados, o setor ainda precisa enfrentar dois desafios: dar maior previsibilidade ao ambiente regulatório doméstico e superar barreiras não tarifárias no exterior. A avaliação foi compartilhada por participantes de painel sobre o futuro dos biocombustíveis no evento SuperAgro 2026, promovido pela Exame e conduzido por Luciano Pádua, editor de macroeconomia da revista.

Para Filipe Alvarez de Oliveira, sócio de Sustentabilidade da União Brasileira de Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), o potencial vai muito além do mercado tradicional de biodiesel e etanol. O combustível sustentável de aviação (SAF), o biocombustível marítimo e novas aplicações do etanol podem abrir importantes avenidas de crescimento.

Filipe Alvarez de Oliveira, sócio de Sustentabilidade da União Brasileira de Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) (Eduardo Frazão/Divulgação)

O SAF, porém, exige investimentos elevados. “Uma planta SAF, na média, custa US$ 1,5 bilhão”, afirmou Oliveira. Segundo ele, o tamanho do investimento torna fundamental a existência de contratos de longo prazo de compra do combustível. “Se o produtor não tem o off-take na mão para ir ao banco para ser financiado, não consegue o recurso.”

O executivo, que já foi head de sustentabilidade da Azul Linhas Aéreas, lembra que as companhias no Brasil não teriam capacidade de demandar todo o combustível produzido em plantas que, necessariamente, precisam ser maiores. “Teríamos que olhar para o exterior, achar locais para exportarmos o excedente, mas as barreiras não tarifárias são um obstáculo relevante, especialmente na Europa.” O executivo defende que o Brasil amplie a discussão técnica e científica sobre a sustentabilidade de suas matérias-primas e fortaleça a estratégia de inserção internacional. “Brasil tem lição de casa em trazer a discussão técnica de política pública para o advocacy internacional”, disse.

Safrinha é diferencial brasileiro

A disponibilidade de matérias-primas e o avanço da produção de segunda safra colocam o Brasil em posição privilegiada, segundo Renato Zicardi, diretor de Trading Internacional da Inpasa. A empresa atua em diferentes mercados, incluindo óleo vegetal, etanol e matérias-primas para combustíveis renováveis. “O Brasil tem vantagem absurda, a safrinha é ativo nacional”, afirmou. Segundo Zicardi, cerca de 40% da soja plantada já ocorre na segunda safra, enquanto a produção de milho cresceu fortemente na última década.

Renato Zicardi, diretor de Trading Internacional da Inpasa (Eduardo Frazão/Divulgação)

O executivo vê no mercado marítimo uma das principais oportunidades de expansão para o etanol. Segundo ele, testes com motores capazes de utilizar o combustível apontam para uma alternativa de descarbonização do transporte marítimo. A dimensão potencial desse mercado é expressiva. De acordo com Zicardi, se o transporte marítimo utilizasse 10% de etanol, seria criada uma demanda adicional de cerca de 60 bilhões de litros. “Não conseguiríamos hoje atender. Teríamos que nos esforçar para produzir mais.”

Biocombustível como ativo estratégico

Para Carlos Cogo, sócio-diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio, a discussão sobre biocombustíveis também mudou de natureza. Além da questão ambiental, o combustível renovável passou a ser visto como um ativo estratégico diante das tensões geopolíticas. “Não há conflito entre alimentação e biocombustível”, afirmou Cogo. Na avaliação dele, guerras e instabilidades no mercado internacional reforçaram a importância da segurança energética e ampliaram o papel dos biocombustíveis.

O Brasil, segundo o consultor, possui uma estrutura produtiva capaz de sustentar esse avanço. São 368 usinas de etanol, incluindo unidades de milho e cana, além de 58 usinas de biodiesel, com produção anual de aproximadamente 63 bilhões de litros de etanol e 16 bilhões de litros de biodiesel.

Carlos Cogo, sócio-diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio (Eduardo Frazão/Divulgação)

Cogo também destaca os efeitos econômicos indiretos da expansão dos biocombustíveis. O aumento da produção de biodiesel amplia a demanda por soja e, consequentemente, a oferta de farelo para a produção de proteína animal. No etanol de milho, o DDG, coproduto da produção, também agrega valor à cadeia. “Está se criando uma riqueza ao redor”, afirmou.

Previsibilidade é chave para o investimento

Apesar das oportunidades, os participantes apontaram a instabilidade regulatória como um dos principais riscos para a expansão do setor. O debate em torno das misturas obrigatórias de biodiesel no diesel, como B15, B16 e B25, pode afetar a percepção de risco dos investidores. Hoje, a mistura está em B15, com 15% de biodiesel adicionado ao diesel, e os debates sobre avançar para B16 se arrastam. Para Oliveira, a questão é especialmente relevante para atrair capital internacional. “O problema é que caminhamos para um terreno de insegurança jurídica e institucional, o que afeta o apetite de investimento”, afirmou, referindo-se ao cenário regulatório.

Segundo ele, o Brasil precisa transformar sua vantagem produtiva em uma narrativa sustentada por evidências técnicas. “Não vai existir transição energética sem biocombustível”, disse.

Ao mesmo tempo, o avanço do setor dependerá da capacidade de encontrar novas fontes de demanda. Zicardi cita o uso do etanol de milho para finalidades químicas, produção de bioplásticos, além do chamado álcool-to-jet, tecnologia que transforma álcool em SAF. No curto prazo, porém, ele considera o transporte marítimo a principal nova fronteira para o combustível.

O cenário externo adiciona outra camada de incerteza. Para Cogo, além das barreiras não tarifárias, o Brasil terá de acompanhar mudanças nas políticas comerciais de grandes compradores. “O risco é marco regulatório, barreiras não tarifárias, estratégicas, vem crescendo”, afirmou.

AutorJiane Carvalho
FonteExame
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