Biocombustíveis: o motor econômico que pode financiar a adaptação climática do Brasil

Por Filipe Alvarez*
Um novo super El Niño está se formando, e o Washington Post publicou recentemente uma comparação direta com o evento de 1877 a 1878, o mais intenso já registrado, que matou mais de 50 milhões de pessoas e destruiu de 3 a 4% da população mundial.
A diferença agora é que nossos oceanos estão substancialmente mais quentes, e a expectativa científica é que outros super El Niños, com intervalos cada vez menores entre si, passem a fazer parte da normalidade climática das próximas décadas.
Quando o clima entra no balanço
Esses eventos não são apenas tragédias humanitárias. Estudo publicado na revista Science em 2023, conduzido por Callahan e Mankin em Dartmouth, atribuiu US$ 4,1 trilhões em perdas globais ao super El Niño de 1982-1983 e US$ 5,7 trilhões ao de 1997-1998, prejuízos que persistem por até quatorze anos após cada ciclo e recaem desproporcionalmente sobre economias tropicais.
O Brasil, junto com Peru e Indonésia, perdeu entre 5% e 22% do PIB nos anos subsequentes ao evento de 1997-98, e os autores projetam que o planeta acumule US$ 84 trilhões em perdas até 2100 com a amplificação do fenômeno pelo aquecimento global.
É por isso que o mercado de capitais passou a exigir informações de qualidade sobre riscos climáticos, não como exercício de virtude, mas porque uma seca prolongada interrompe safras, compromete cadeias de suprimento, deteriora margens e rebaixa rating de crédito.
Aqui no Brasil, a CVM ia na direção certa com a Resolução 193, de 2023, que colocava o país em rota de convergência com os padrões ISSB/IFRS S1 e S2, mas na semana passada a Resolução 244 reverteu essa obrigatoriedade, deixando o reporte novamente voluntário.
Enquanto o Brasil debate se deve reportar riscos climáticos, o clima segue indiferente ao calendário regulatório.
Da sustentabilidade suave à realidade dura
John Elkington, criador do conceito de Triple Bottom Line, escreveu em maio que a era da “sustentabilidade suave” acabou.
E ainda, que o voluntarismo corporativo, as metas distantes de 2050 e os relatórios feitos por boa vontade se tornaram peças de museu num cenário onde a “sustentabilidade dura” já se impõe por meio de regulações com sanções reais, mercados seguradores que precificam compulsoriamente o risco físico e tribunais que começam a responsabilizar diretores por omissões climáticas.
Os dados do Swiss Re Institute para 2025 são eloquentes: foi o sexto ano consecutivo em que as perdas seguradas globais ultrapassaram US$ 100 bilhões, totalizando US$ 107 bilhões, e a modelagem do próprio Swiss Re indica que, num cenário de pico, esse valor pode atingir US$ 320 bilhões em 2026.
Em jurisdições como Califórnia e Flórida, o efeito prático tem sido a retirada do seguro privado de zonas inteiras, levando consigo o crédito hipotecário e o fluxo de capital.
Soberania energética e biocombustíveis na nova ordem
No contexto brasileiro, esse movimento se traduz numa pauta urgente de soberania energética como imperativo de segurança nacional, e é exatamente aqui que os biocombustíveis deixam de ser tema de relatório de sustentabilidade para se tornarem ativo estratégico de primeira ordem.
Num mundo onde eventos climáticos extremos se intensificam, a instabilidade no Oriente Médio se cronifica e a dependência energética vira vulnerabilidade geopolítica concreta, quem controla a própria matriz de combustíveis protege simultaneamente sua segurança alimentar, capacidade produtiva e poder de barganha internacional.
Esse novo arranjo pode transformá-los na maior tese de investimento estrutural da economia brasileira para as próximas décadas.
Ativos irreplicáveis
Chegar a essa posição não foi acaso. O Brasil acumulou um conjunto de ativos que praticamente nenhum outro país consegue reunir simultaneamente, e que por isso mesmo são, com toda propriedade, irreplicáveis.
Terra arável em escala continental, abundância de água doce, biomassa diversificada, tecnologia agroindustrial de fronteira, e, talvez o mais subestimado: uma experiência concreta de transição energética construída na prática produtiva e não no discurso.
Há cinquenta anos, numa conjuntura de choque do petróleo que ameaçava asfixiar a economia nacional, o país apostou pesado numa indústria de biocombustíveis baseada em cana-de-açúcar, e essa aposta colocou o Brasil numa posição que se manteve por cinco décadas, com o país hoje concentrando 26% da força de trabalho global em bioenergia.
O Proálcool não foi programa ambiental nem nasceu de pressão internacional, foi resposta industrial e geopolítica a um problema de balanço de pagamentos, e é justamente esse pedigree pragmático que torna a tese brasileira tão consistente.
Biocombustíveis são um bom negócio
O setor de biodiesel ilustra com clareza a dimensão da oportunidade. Desde a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), em 2005, o Brasil já produziu mais de 76,6 bilhões de litros de biodiesel, segundo a ANP.
Com cerca de 9,84 bilhões somente em 2025, sobre capacidade industrial instalada de aproximadamente 15 bilhões de litros anuais, significa que há espaço de expansão sem necessidade de novos investimentos relevantes em planta fabril.
A cadeia da soja e biodiesel emprega mais de 2,4 milhões de pessoas no Brasil, com cerca de 300 mil agricultores familiares beneficiados anualmente pelo Selo Biocombustível Social e mais de R$ 9 bilhões direcionados pelas indústrias do setor para aquisição de matéria-prima da agricultura familiar.
O Observatório de Bioeconomia da FGV estima impacto de R$ 403,2 bilhões no PIB brasileiro entre 2030 e 2035 com a expansão dos biocombustíveis, num retorno aproximado de R$ 62 para cada R$ 1 investido.
Desmontando o mito do “Food vs. Fuel”
O argumento de que a expansão dos biocombustíveis competiria com a produção de alimentos é enviesado e precisa ser desmontado com base nos dados da cadeia produtiva.
No biodiesel de soja, o óleo representa apenas 18 a 19% do grão, enquanto cerca de 80% do volume processado vira farelo proteico, principal insumo da ração animal na produção de aves, suínos e bovinos, o que significa que ampliar a produção de biodiesel amplia automaticamente a oferta de farelo, com efeito direto de barateamento da proteína animal.
Projeções apontam para safra próxima (2026) de 180 milhões de toneladas de soja para o ciclo atual, com espaço sobrado para expandir biodiesel e abastecimento alimentar simultaneamente.
Quanto à fronteira agrícola, a expansão ocorre majoritariamente sobre pastagens degradadas, e o Brasil dispõe de mais de 100 milhões de hectares nessa condição e tecnologia poupa-terra suficiente para acomodar crescimentos expressivossem pressão sobre biomas como a Amazônia.
Lógica de alocação de capital que falta na discussão
A receita gerada pela liderança brasileira em biocombustíveis, hidrogênio verde e bioenergia não é um fim em si mesma.
Ela pode e deve ser o mecanismo financeiro mais robusto que o país tem disponível para financiar as adaptações que precisará executar nas próximas duas ou três décadas em resposta aos eventos climáticos já precificados pelo consenso científico.
Adaptar infraestrutura ao clima pode custar caro, e é fundamentalmente uma questão de timing, porque quem investe antes da crise financia a própria resiliência em condições favoráveis, enquanto quem espera o evento físico se materializar acaba pagando o prejuízo em emergência.
Sistemas de irrigação resilientes, armazenagem estratégica de grãos, redes elétricas preparadas para eventos extremos e redesenho de cadeias logísticas são investimentos de centenas de bilhões de reais nas próximas décadas.
E a única fonte estrutural de recursos capaz de financiar esse esforço sem comprometer fiscalmente o país é uma economia que tenha capturado a oportunidade da transição energética antes de ter sido obrigada a fazê-lo.
Transição energética não é somente sobre propósito, é sobre antecipar riscos materiais e capturar oportunidades estratégicas antes que o mercado precifique a sua ignorância sobre eles.
O Brasil tem os ativos, a tecnologia, o histórico, e um setor produtivo com capacidade comprovada de execução, e o que falta é tratar a agenda dos biocombustíveis e da transição energética como aquilo que ela efetivamente é, uma das maiores teses de investimento estrutural da economia brasileira contemporânea.
A oportunidade está posta, os números são conhecidos, e a pergunta que importa é qual será a próxima geração de líderes empresariais e públicos disposta a tratá-la com a seriedade estratégica que ela merece.
* Filipe Alvarez é Diretor de Sustentabilidade na Ubrabio e professor na Fundação Getúlio Vargas
