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InvestMercadosBDR
19/10/2026
4 min

‘Black Monday’: 39 anos de um dos dias mais caóticos do mercado financeiro global

Queda de 22,6% do Dow Jones em um único pregão expôs a fragilidade dos mercados e levou à criação de mecanismos para conter tombo das bolsas

‘Black Monday’: 39 anos de um dos dias mais caóticos do mercado financeiro global

Era outono de 1987, mais específico em uma segunda-feira dia 19 de outubro, quando o mercado financeiro dos Estados Unidos vivenciou uma das maiores crises da sua história. Hoje, 39 anos depois, o fato ainda é lembrado como ‘Black Monday’, quando o índice Dow Jones recuou 508 pontos, ou 22,6% impulsionado por uma combinação de fatores.

O recuo permanece até os dias atuais como a maior desvalorização em um único dia na história do mercado de ações. Em apenas um dia, mais de US$ 500 bilhões foram perdidos no Dow Jones, o que também se refletiu no índice Nasdaq, que perdeu 11,35%, enquanto o S&P recuou 30%.

Esses eventos da ‘Black Monday’ também serviram para reforçar o conceito de globalização, já que o movimento desencadeou instabilidade em outros mercados e fez com que bolsas do mundo inteiro despencassem em questão de horas.

As bolsas da Austrália, Hong Kong, Singapura e México também registraram fortes quedas. O tombo global gerou temor de que o episódio repetisse o crash de 1929, que contribuiu para a Grande Depressão dos anos 1930.

Tal situação, inclusive, fez com que as bolsas de valores desenvolvessem mecanismos de susprender temporariamente as negociações em caso de rápidas quedas no mercado — conhecido como circuit breakers. Nos Estados Unidos, o interrompimento foi acionado cinco vezes, sendo quatro durante a pandemia. Já aqui no Brasil, o circuit breaker na B3 já foi acionado 23 vezes desde a sua criação em 1997.

O que explica a queda das bolsas?

Nos primeiros meses de 1987, o mercado acionário americano vinha de um longo ciclo de valorização, iniciado em 1982. Entre janeiro e agosto daquele ano, o Dow Jones acumulou alta de 44% e atingiu, em 25 de agosto, o recorde naquela época de 2.722 pontos. O avanço, no entanto, alimentava preocupações de que os preços das ações estivessem elevados demais.

Ao mesmo tempo, empresas buscavam crescer por meio da aquisição de concorrentes, recorrendo ao endividamento e à emissão de títulos de alto risco, conhecidos como junk bonds. A economia americana, que vinha de uma recuperação acelerada, começava a apresentar sinais de desaceleração, enquanto as pressões inflacionárias aumentavam.

Dólar, juros e tensões geopolíticas

Em outubro, notícias negativas intensificaram a desconfiança dos investidores. O governo americano divulgou um déficit comercial acima do esperado, enquanto o dólar perdia valor. Também pesavam as preocupações com a inflação, a alta dos preços do petróleo e de outras commodities e as tensões entre Estados Unidos e Irã.

Pouco antes do crash, o então secretário do Tesouro americano, James Baker, havia criticado a elevação dos juros na Alemanha Ocidental. Na semana seguinte, quando as bolsas desabaram, os dois países concordaram em manter as taxas nos níveis vigentes. Investidores interpretaram o cenário como um possível sinal de recessão nas principais economias desenvolvidas.

A instabilidade já era visível na sexta-feira, 16 de outubro, quando o Dow Jones recuou 4,6%, para 2.246 pontos, em uma sessão de volume recorde. Na segunda-feira seguinte, a pressão vendedora se intensificou.

Vendas automatizadas ampliaram o tombo

Outro fator apontado como possível responsável pela dimensão da queda foi o program trading, sistema que permitia a grandes investidores executar operações automaticamente. Na época, essas estratégias eram utilizadas, entre outras finalidades, para limitar perdas em momentos de baixa.

Com a queda das ações, os sistemas podiam acionar novas ordens de venda, aumentando a pressão sobre os preços e contribuindo para um efeito em cadeia. A hipótese, porém, é contestada por analistas que ressaltam que mercados como os de Hong Kong e da Austrália também sofreram fortes perdas, apesar de não utilizarem essas ferramentas de forma tão desenvolvida.

A crise se espalhou pelos mercados globais

A queda de 19 de outubro evidenciou a crescente interdependência dos mercados financeiros. Entre 19 e 23 de outubro de 1987, o índice Financial Times 100, de Londres, recuou 25%, enquanto o Nikkei Dow Jones, de Tóquio, caiu 13,2%. Bolsas de Hong Kong, Frankfurt, Amsterdã, Cidade do México e Sydney também registraram perdas expressivas.

Diante da turbulência, em 20 de outubro, o Federal Reserve anunciou que forneceria liquidez ao sistema financeiro para garantir o funcionamento dos mercados. A medida ajudou a conter a crise, e as bolsas se recuperaram gradualmente. Em meados de 1988, o mercado acionário americano já havia recuperado as perdas, sem que a economia dos Estados Unidos entrasse em uma recessão prolongada como a que se seguiu ao crash de 1929.

Apesar das possível causas, ainda não há consenso sobre o que provocou a dimensão histórica da ‘Black Monday’. O tombo foi resultado de uma combinação de fatores econômicos, geopolíticos e operacionais que abalaram a confiança dos investidores e ampliaram a pressão vendedora sobre as ações.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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