BlackRock fica neutra em emergentes, mas reforça aposta em ações no Brasil

A BlackRock reduziu sua recomendação para ações de mercados emergentes de overweight, posição acima da média e equivalente a compra, para neutra no início deste segundo semestre. A reavaliação ocorreu após a forte valorização registrada no primeiro semestre, especialmente na Ásia. A mudança, no entanto, não representa uma perda de confiança nos emergentes. Ao contrário, a maior gestora de recursos do mundo diz que a América Latina e, em especial o Brasil, passam a ocupar um papel mais relevante na estratégia global.
A avaliação foi feita por Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a América Latina, durante entrevista à imprensa realizada nesta quinta-feira, 2, para comentar o relatório MidYear Global Outlook 2026, também divulgado hoje.
Segundo Christensen, a decisão de reduzir a recomendação para mercados emergentes foi motivada principalmente pela realização de lucros após o rali das bolsas asiáticas, sobretudo nos setores de semicondutores e memória.
"Durante o primeiro semestre mantivemos uma posição overweight em ações de mercados emergentes, que apresentou desempenho muito positivo. Agora, no início do segundo semestre, reduzimos essa recomendação de overweight para neutra. Mas isso não significa que deixamos de gostar dos mercados emergentes. Muito pelo contrário. Estamos simplesmente realizando parte dos lucros", afirmou.
O executivo destacou que boa parte dos ganhos vieram de bolsas asiáticas, como a da Coreia do Sul, por conta da ligação de empresas listadas com o desenvolvimento da inteligência artificial, principalmente nos setores de semicondutores e memória.
"Quem acompanhou o mercado sul-coreano sabe do que estou falando: retornos superiores a 60% em doze meses. Achamos prudente aproveitar esse desempenho positivo e realizar parte dos ganhos", disse o estrategista-chefe da BlackRock para a América Latina.
Com a realização de lucros nos ativos asáticos, a BlackRock afirma estar migrando para uma estratégia mais seletiva dentro dos mercados emergentes, favorecendo a América Latina.
Embora a região represente menos de 10% dos principais índices de mercados emergentes, o que impede uma recomendação acima da média para toda a classe de ativos, Christensen disse que o potencial de alguns países justifica um olhar diferenciado.
"Estamos migrando para uma postura mais seletiva, favorecendo a América Latina dentro do universo de mercados emergentes". O executivo cita o Brasil, mas também Chile, Peru, Argentina e México como mercados que podem se beneficiar das transformações estruturais da economia global.
Segundo Christensen, a Argentina ganha relevância pelos investimentos em lítio e a formação de xisto de Vaca Muerta, enquanto o México se beneficia da integração produtiva com os Estados Unidos. A maior gestora de ativos do mundo também afirmou que a região demonstrou resiliência durante episódios recentes de instabilidade internacional.
Já o Brasil, segundo a BlackRock, reúne características que o colocam em posição privilegiada nesse cenário, por integrar cadeias globais de suprimentos estratégicas para o desenvolvimento da IA e ser fornecedor relevante de minerais estratégicos, terras raras, energia e alimentos.
BlackRock diz ser "agnóstica" nas eleições no Brasil e mira políticas para crescimento e juros
Questionado sobre o impacto das eleições presidenciais brasileiras nas decisões de investimento, Christensen afirmou que a BlackRock não faz apostas eleitorais e adota uma postura "agnóstica" em relação ao resultado das urnas.
A declaração ocorre após a gestora citar a Colômbia como exemplo de um mercado em que os ativos foram fortemente influenciados pelas expectativas em torno das eleições presidenciais. O pleito colombiano terminou com a vitória do candidato de direita Abelardo De la Espriella, marcando uma mudança de direção política no país após o governo de Gustavo Petro.
Para o executivo, a volatilidade em eleições faz parte do ambiente normal dos mercados emergentes e o foco da gestora está nas políticas econômicas que serão implementadas após o pleito. "Nós não votamos. Quem vai votar são os brasileiros. Nós apenas teremos de nos adaptar às decisões que os brasileiros tomarem", disse.
Segundo o estrategista, independentemente de quem vencer a eleição de 2026, dois grandes desafios determinarão o potencial dos ativos brasileiros. O primeiro é acelerar o crescimento econômico.
"O Brasil possui diversas oportunidades. Mas, quando olhamos para o crescimento recente e para as projeções de instituições como o FMI ou para o Relatório Focus do Banco Central, vemos expectativas de crescimento que não são particularmente elevadas. O grande desafio da próxima administração — seja ela uma continuidade do governo atual ou um novo governo — será encontrar formas de impulsionar novamente o crescimento", afirmou.
Na avaliação da BlackRock, o país também ocupa posição estratégica em um cenário de reorganização geopolítica. Mas tem como segundo desafio criar condições para a redução estrutural dos juros, especialmente para estimular investimentos em infraestrutura.
"Investimentos em infraestrutura são extremamente sensíveis às taxas de juros. Uma parcela significativa desses investimentos é financiada por dívida e, por isso, é muito importante que o país tenha taxas de juros competitivas. Independentemente de quem vencer a eleição, acreditamos que o governo terá de enfrentar o desafio de retomar o crescimento e criar condições para que as taxas de juros sejam mais favoráveis aos investimentos, especialmente em infraestrutura".
Frustração com a IA é um risco para os mercados globais
Christensen também alertou para o principal risco monitorado pela gestora, com uma eventual frustração das expectativas em torno do impacto da inteligência artificiala produtividade e os lucros das empresas. Segundo o estrategista da BlackRock, um crescimento global menor afetaria diretamente países exportadores de commodities, como o Brasil, e as ações dessas companhias.
"Se essa promessa da tecnologia não for cumprida, esperaríamos que os mercados se ajustassem a um crescimento mais baixo. Produtos que o Brasil vende para o mundo, como commodities, energia e manufaturados, sofreriam com uma queda da demanda global".
Apesar desse risco, o executivo afirmou que a BlackRock permanece otimista com as perspectivas para a economia global. "Não somos pessimistas, muito pelo contrário. Mas precisamos nos preparar para diferentes cenários e, nesse caso, o mercado brasileiro provavelmente faria parte desse impacto global".
