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InvestMercadosBDR
02/07/2026
5 min

BlackRock vê Brasil como destaque na renda fixa: 'retorno e risco atraentes'

BlackRock vê Brasil como destaque na renda fixa: 'retorno e risco atraentes'

A renda fixa deixou de ocupar o papel de principal instrumento de proteção das carteiras e passou a ser avaliada, sobretudo, pela capacidade de gerar renda. Essa é a principal mudança estrutural apontada pela BlackRock em seu relatório MidYear Global Outlook 2026, divulgado nesta quinta-feira, 2.

Em entrevista coletiva à imprensa para comentar o documento, o estrategista-chefe da gestora para a América Latina, Axel Christensen, afirmou que esse novo cenário tem reforçado a atratividade da dívida de mercados emergentes, especialmente dos títulos em moeda local de países como Brasil, Colômbia e México.

A análise vem na esteira de uma forte alta de parte dos instrumentos da renda fixa doméstica. Nas últimas semanas, a abertura da curva de juros levou títulos públicos indexados à inflação a oferecerem algumas das maiores taxas reais dos últimos anos, ao mesmo tempo em que o Tesouro Nacional chegou a cancelar um leilão de NTN-Bs diante das taxas exigidas pelos investidores.

Apesar da volatilidade recente, especialistas avaliam que ademanda pelos papéis continua elevada, desde que acompanhada de uma remuneração compatível com o risco.

Para o estrategista da maior gestora de ativos do mundo, esse ambiente reforça uma tendência mais ampla observada globalmente.

"Como mostramos no relatório, acreditamos que, ao longo do tempo, a principal contribuição da renda fixa passou a ser, cada vez mais, a geração de renda", afirmou Christensen a jornalistas.

"Isso nem sempre foi assim. Há alguns anos, um dos principais motivos para comprar títulos e incluí-los em um portfólio era a diversificação e a redução do risco da carteira. No entanto, o aumento da inflação e o crescimento dos gastos públicos em muitas economias desenvolvidas enfraqueceram parcialmente essa função de diversificação. Com isso, a geração de renda tornou-se o fator predominante", completou.

Segundo o executivo, essa mudança altera também a forma como os investidores avaliam diferentes mercados de renda fixa. Em vez de priorizar apenas o papel dos títulos como proteção, a análise passou a considerar quanto retorno cada ativo entrega em relação ao risco assumido.

"Quando comparamos as diferentes oportunidades dentro da renda fixa, analisamos o retorno obtido por unidade de risco. Ou seja, quanto retorno oferecem os títulos de mercados emergentes, como Brasil e México, em comparação com títulos de países desenvolvidos, títulos corporativos e papéis investment grade. Hoje, a dívida de mercados emergentes aparece muito bem posicionada nessa análise focada em renda e ajustada ao risco", disse.

Brasil se destaca pelo Banco Central e pela estabilidade do real

Dentro desse grupo, a BlackRock vê a América Latina como uma das regiões mais atrativas, com destaque para Brasil, Colômbia e México. Para Christensen, o diferencial está na combinação entrejuros elevados e um risco hoje menor do que o historicamente associado aos mercados emergentes.

Segundo o estrategista, parte dessa mudança decorre da atuação antecipada dos bancos centrais da região no combate à inflação.

"O Brasil talvez seja o melhor exemplo disso. Quando a inflação começou a subir, o Banco Central brasileiro iniciou o ciclo de alta dos juros cerca de um ano antes do Federal Reserve [Fed, o BC dos EUA]. Temos bancos centrais bastante experientes e economias que, mesmo convivendo com juros elevados, conseguiram administrar o crescimento econômico".

Na avaliação da gestora, esse processo tornou a renda fixa latino-americana mais resiliente mesmo em um ambiente de juros altos nos Estados Unidos e de incertezas geopolíticas.

"Tradicionalmente, quando os juros subiam nos Estados Unidos, isso costumava desencadear crises em mercados emergentes. Era comum vermos países médios ou grandes entrando em default ou precisando reestruturar suas dívidas. Desta vez, uma combinação de condições externas mais favoráveis, respostas mais rápidas dos bancos centrais à inflação e uma postura mais firme na administração dos gastos públicos tornou os mercados emergentes muito mais resilientes".

Baixa volatilidade das moedas reforça percepção de menor risco

Na visão da BlackRock, a principal evidência dessa mudança aparece no comportamento das moedas emergentes. Christensen afirmou que, mesmo com a recuperação recente do dólar, moedas como o real brasileiro permaneceram relativamente estáveis, reduzindo um dos riscos tradicionalmente associados aos investimentos em renda fixa local.

Em relação ao real, por exemplo, o dólar avançou 2,39% em junho, segundo mês consecutivo de alta. Ainda assim, a moeda americana mantém uma queda de quase 6% frente à brasileira no ano, depois de ter recuado 11% em 2025.

"Talvez a melhor demonstração dessa redução do risco esteja no comportamento das moedas. No ano passado, várias moedas de mercados emergentes chegaram inclusive a se valorizar frente ao dólar. Neste ano vemos uma recuperação parcial da moeda americana, mas o impacto sobre moedas emergentes, incluindo o real brasileiro, foi bastante limitado. Essas moedas permaneceram relativamente estáveis justamente porque as economias conseguiram se adaptar de maneira muito melhor do que no passado", disse.

Na avaliação do estrategista, esse cenário ajuda a explicar por que a gestora mantém recomendação acima da média, overweight, para a dívida de mercados emergentes em moeda local.

"O que estamos vendo hoje é uma combinação muito atrativa: retornos elevados, com um nível de risco significativamente menor do que aquele que historicamente associávamos aos mercados emergentes. Essa é, em essência, a razão pela qual acreditamos que há uma boa combinação entre retorno e risco na dívida de mercados emergentes", concluiu o estrategista da BlackRock.

AutorClara Assunção
FonteExame
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