Bloqueio em Ormuz ajuda Irã de outra forma, diz ex-vice presidente

O bloqueio aos navios no Estreito de Ormuz, realizado pelo Irã, tem outras finalidades além de pressionar os Estados Unidos, aponta uma análise de Javad Zarif, ex-vice-presidente do Irã, publicada na revista Foreign Affairs.
Zarif aponta que o bloqueio também ajuda a impedir a entrada de armas e equipamentos militares para as bases americanas em países do Golfo, como Catar e Emirados Árabes, que depois serão usados em ataques contra o próprio Irã.
"Como armas e tecnologias que posteriormente atingiram território, infraestrutura e civis iranianos transitaram pelo Estreito de Ormuz, os formuladores de políticas iranianos têm todo o direito de restringir o fluxo de tráfego enquanto a guerra persistir, enquanto a coerção econômica contra o Irã continuar e enquanto os esforços para minar o direito do Irã de salvaguardar seus interesses no estreito estiverem sendo ativamente perseguidos", diz Zarif.
"O Irã opera agora sob a convicção de que as rotas marítimas não podem ser neutras se facilitarem o transporte de sistemas de armas, componentes de aeronaves, informações de inteligência ou apoio logístico para os Estados Unidos e seus parceiros regionais", prossegue.
"É simplesmente muito difícil para Teerã determinar quais navios transportam mercadorias comerciais e quais transportam materiais que ameaçam o direito do Irã à própria existência", afirma.
Gestão conjunta
Zarif reconhece que o bloqueio ao Estreito de Ormuz perderá valor estratégico com o tempo, conforme os países da região buscarão outras rotas terrestres. Como saída, ele sugere que os países da região entrassem em um acordo para tomar conta da segurança daquela rota.
"Essa abordagem poria fim à presença militar desestabilizadora e ao aventurismo de potências externas, eliminando a razão de ser de sua presença", diz.
O ex-vice-presidente defende uma cooperação ainda maior entre os países da região, de modo a evitar intervenções militares estrangeiras, como na guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, e a invasão americana ao Iraque, em 2003.
"Como vice-presidente, também propus uma rede nuclear regional, incluindo um consórcio de enriquecimento [de urânio] devotado exclusivamente a aplicações pacíficas da ciência nuclear."
Zarif reconhece que criar acordos entre os países da região, após tantos anos de guerra, é desafiador, mas defende que esse é o melhor caminho para a paz.
"O mundo deve reconhecer que a estabilidade duradoura não pode ser importada para a Ásia do Oeste de fora ou imposta pela força", diz ele, que prefere chamar a região de "Ásia do Oeste" a "Oriente Médio"; "Isso precisa ser construído pelos próprios povos e Estados da região".
Nove dias de novo conflito
Há nove dias, os Estados Unidos fazem uma nova onda de bombardeios ao Irã, após acusar o país de desrespeitar as regras do cessar-fogo e atacar navios em Ormuz.
Em resposta, o Irã fez ataques a bases americanas em países da região, e mirou alvos no Kuwait e no Bahrein. O Irã advertiu nesta segunda-feira, 20, que está disposto a "tomar as medidas necessárias" para garantir sua soberania e evitar que o Estreito de Ormuz seja utilizado para ameaçar sua segurança e interesses.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no domingo,19, que as últimas ofensivas militares contra o Irã foram em resposta às mortes de membros das forças armadas americanas nos últimos dias.
Dois militares americanos morreram na sexta-feira em ataques contra uma base na Jordânia, e outro soldado perdeu a vida no domingo durante a destruição controlada de munições não detonadas de um drone iraniano no norte do Iraque.
Ao todo, 17 militares americanos morreram desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. Do lado iraniano, o último balanço oficial, divulgado na sexta-feira, registra 50 mortos e mais de 500 feridos desde a retomada dos combates no começo de julho.
Com AFP.
