Boas e baratas: Small caps reúnem ‘combinação rara’ e podem deixar Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) no chinelo
As ações de menor capitalização da Bolsa brasileira podem viver um novo ciclo de valorização e superar com folga o desempenho do Ibovespa nos próximos meses caso um eventual governo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) consiga implementar um ajuste fiscal considerado crível pelo mercado. A avaliação é compartilhada por estrategistas que enxergam nas small caps […]

As ações de menor capitalização da Bolsa brasileira podem viver um novo ciclo de valorização e superar com folga o desempenho do Ibovespa nos próximos meses caso um eventual governo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) consiga implementar um ajuste fiscal considerado crível pelo mercado.
A avaliação é compartilhada por estrategistas que enxergam nas small caps uma combinação rara de preços descontados, elevada sensibilidade à queda dos juros e potencial de recuperação após anos de desempenho fraco.
O tema ganhou força nos últimos dias, em meio à disparada das empresas voltadas ao mercado doméstico e à melhora das expectativas para a trajetória fiscal do país.
Na última semana, o índice de Small Caps (SMLL) disparou 20,14%, enquanto o Ibovespa (IBOV) apresentou valorização de 8,82%.
Para especialistas, a movimentação recente pode ser apenas o início de um processo mais amplo de reprecificação desses ativos.
Segundo João Braga, sócio da Encore Asset, o SMLL está particularmente bem-posicionado para capturar os benefícios de um cenário de juros mais baixos.
Na visão do gestor, o principal gatilho seria um ajuste fiscal capaz de reduzir os prêmios de risco embutidos na curva de juros e abrir espaço para um ciclo mais intenso de cortes da Selic.
“O que faz diferença não é o tamanho da empresa, mas o setor em que ela atua. As small caps são muito mais concentradas em negócios domésticos, que são justamente os maiores beneficiados por um ciclo de queda dos juros”, afirma.
Small caps ficaram para trás
O argumento tem como ponto de partida o forte atraso acumulado pelo segmento nos últimos anos.
De acordo com Braga, o Ibovespa registrou desempenho cerca de 10 pontos percentuais superior ao SMLL neste ano, impulsionado principalmente por gigantes como Petrobras (PETR4), Vale (VALE3), Itaú (ITUB4) e Ambev (ABEV3).
Enquanto isso, empresas ligadas ao mercado doméstico enfrentaram os efeitos de um ambiente marcado por juros elevados e custo de capital mais alto.
“A maior parte das empresas do índice é formada por negócios domésticos, como varejistas, incorporadoras, locadoras e companhias mais ligadas à atividade econômica brasileira. Essas empresas sofreram muito com o custo de capital elevado”, diz o gestor.
Essa avaliação encontra respaldo na leitura de Raphael Figueiredo, estrategista de ações da XP Investimentos. Segundo ele, as small caps foram muito mais penalizadas pelo ciclo de aperto monetário do que as companhias que compõem a maior parte do Ibovespa.
O estrategista destaca que a relação entre o índice de small caps e o Ibovespa atingiu recentemente o menor nível desde 2002, indicando que a desvalorização das empresas de menor capitalização foi significativamente mais severa do que a observada no principal índice da Bolsa.
“As small caps chegaram a um nível de desconto muito expressivo após anos de juros elevados e de um prêmio de risco bastante alto”, afirma.
Mercado já precifica novo cenário
Na avaliação dos especialistas, a recuperação observada nesta semana reflete uma mudança relevante nas expectativas dos investidores.
Com o fechamento da curva de juros e o aumento das apostas em uma política fiscal mais austera, os investidores passaram a buscar empresas mais sensíveis ao ciclo econômico doméstico.
Segundo Braga, da Encore Asset, antes do primeiro turno o mercado projetava um espaço limitado para cortes da Selic nos próximos anos. Após o resultado das urnas, entretanto, a curva passou a incorporar uma flexibilização monetária mais intensa a partir de 2027.
Caso um novo governo consiga entregar um plano fiscal considerado consistente, a queda dos juros poderá ser maior do que a atualmente precificada pelos ativos, ampliando o potencial de valorização das small caps.
Para Figueiredo, o movimento recente também representa uma correção de preços após um período prolongado de desempenho fraco. Com a redução dos prêmios de risco, empresas mais dependentes de crédito, consumo e atividade econômica tendem a ser as principais beneficiárias.
Investidor estrangeiro
Ao contrário da percepção de que a recuperação das small caps depende exclusivamente da volta do investidor local à Bolsa, Braga afirma que os estrangeiros têm grande participação no movimento observado na última semana.
Segundo ele, parte dos investidores internacionais vem reduzindo exposição a exportadoras e companhias mais defensivas para aumentar posições em ações domésticas negociadas a múltiplos considerados bastante atrativos.
“O valuation relativo entre as empresas do Ibovespa e as small caps está em níveis extremamente descontados. As ações domésticas ficaram muito para trás nos últimos anos e isso chama a atenção de todo mundo, inclusive dos estrangeiros”, afirma.
Ibovespa também sobe, mas menos
Embora um cenário econômico mais favorável seja positivo para a Bolsa como um todo, os especialistas avaliam que o ganho tende a ser mais expressivo entre as small caps do que entre as grandes empresas que dominam a carteira do Ibovespa.
Isso porque gigantes como Vale e Petrobras possuem resultados muito mais dependentes de fatores externos, como preços de commodities, câmbio e atividade global.
“Vale e Petrobras não dependem tanto do cenário doméstico de juros. Mesmo bancos grandes, como o Itaú, devem se beneficiar menos do que empresas menores que sofreram mais durante o período de aperto monetário”, explica Braga.
Para os especialistas, a combinação entre valuations historicamente descontados, melhora das perspectivas fiscais e queda dos juros cria uma das teses mais fortes para as small caps em anos.
Caso o cenário esperado pelo mercado se confirme, o SMLL pode não apenas continuar sua recuperação recente, mas também abrir uma vantagem considerável sobre o Ibovespa nos próximos trimestres
