Boeing volta a fazer caixa após anos no vermelho, mas avião de Trump cobra seu preço
Programa do novo avião presidencial dos EUA gerou US$ 280 milhões em perdas no trimestre

A Boeing, fabricante americana de aeronaves, superou as projeções de mercado em receita e, principalmente, em geração de caixa, mas registrou um prejuízo por ação bem maior do que o esperado, pressionado por um novo encargo no programa do futuro Air Force One.
O prejuízo core por ação (métrica ajustada mais acompanhada por analistas) ficou em US$ 0,76, mais que o dobro da perda de US$ 0,30 projetada pelo consenso da LSEG. A conta foi puxada por US$ 280 milhões em perdas no programa VC-25B, o par de 747 que servirá como próxima geração do avião presidencial dos Estados Unidos. A companhia diz ter ampliado os investimentos em produção e certificação da aeronave e manteve a previsão de primeira entrega para 2028.
Do lado positivo, a geração de caixa foi o grande destaque e o dado que o mercado mais monitora na fase de recuperação da Boeing. O fluxo de caixa livre somou US$ 631 milhões no trimestre, revertendo a queima de US$ 200 milhões de um ano antes e superando com folga a estimativa de queima de US$ 177 milhões dos analistas. O fluxo de caixa operacional saltou para US$ 1,36 bilhão, ante US$ 227 milhões, alta de mais de 500%.
Receita cresce com mais entregas
A receita avançou 8%, para US$ 24,56 bilhões, também acima dos US$ 24,25 bilhões esperados. O crescimento veio de 171 entregas de aviões comerciais no período, 14% mais que as 150 do segundo trimestre de 2025.
O prejuízo líquido encolheu para US$ 428 milhões, ante perda de US$ 612 milhões um ano antes. Em bases contábeis (GAAP), a perda por ação recuou para US$ 0,67, de US$ 0,92. A margem operacional GAAP voltou ao terreno positivo, em 0,6%, contra 0,8% negativo no mesmo período de 2025.
"Estou muito satisfeito com o progresso que nossa equipe está fazendo na execução do plano. Nossas operações estão mais estáveis e os principais programas de certificação seguem no cronograma", afirmou o CEO Kelly Ortberg em comunicado. Em nota aos funcionários, o executivo ponderou: "Dois trimestres não fazem um ano, mas se trabalharmos juntos e mantivermos o foco em segurança, qualidade e pontualidade, vamos melhorar nossa competitividade".
Backlog recorde e dívida em queda
A carteira de pedidos total (backlog) atingiu recorde de US$ 715 bilhões, incluindo mais de 6.200 aviões comerciais avaliados em US$ 597 bilhões. No trimestre, a divisão comercial registrou 246 pedidos líquidos, com encomendas de Korean Air, Delta Air Lines e SMBC Capital.
A companhia também reduziu a dívida consolidada de US$ 47,2 bilhões para US$ 45,9 bilhões, mantendo caixa e aplicações de US$ 20 bilhões e uma linha de crédito de US$ 10 bilhões não sacada. Os ratings seguem em grau de investimento, com nota BBB- na S&P e na Fitch e Baa3 na Moody's.
Aviões comerciais melhoram, defesa decepciona
Na divisão de aviões comerciais, a receita subiu 8%, para US$ 11,8 bilhões, e o prejuízo operacional estreitou, com margem negativa de 2,7%, ante 5,1% negativo um ano antes. O programa 737 iniciou a transição para o ritmo de 47 unidades por mês e ativou a produção de baixa escala na chamada North Line em julho. O 777X, avião de longo alcance que acumula anos de atraso, recebeu aprovação da FAA para iniciar os testes de certificação em voo, com primeira entrega ainda prevista para 2027.
Já a divisão de Defesa, Espaço e Segurança decepcionou. Apesar do avanço de 13% na receita, para US$ 7,5 bilhões, a margem operacional virou negativa em 0,2%, ante 1,7% positivo, justamente por causa do encargo no VC-25B. Excluído esse efeito, a margem da unidade teria sido de 3,54%.
Em serviços globais, a receita ficou praticamente estável em US$ 5,3 bilhões e a margem recuou de 19,9% para 18,1%, refletindo a venda da unidade de Digital Aviation Solutions e custos mais altos.
O que esperar do segundo semestre
A Boeing manteve a projeção de fluxo de caixa livre entre US$ 1 bilhão e US$ 3 bilhões para 2026. Se confirmada, seria a primeira geração anual positiva de caixa da fabricante desde 2018, marco simbólico para uma empresa que não fecha um ano no azul desde então.
O foco dos investidores agora se volta às próximas certificações. A FAA sinalizou recentemente que a aprovação do 737 Max 7, o menor da família, está próxima, seguida pelo Max 10 e, depois, pelo 777X. São esses gargalos regulatórios que devem definir se a virada operacional em curso vai, de fato, se traduzir em lucro.
