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InvestMercados
03/07/2026
4 min

BofA vê Brasil perder protagonismo entre emergentes por causa de inflação e juros

BofA vê Brasil perder protagonismo entre emergentes por causa de inflação e juros

O Brasil perdeu parte do protagonismo que tinha entre os mercados emergentes no início de 2026. Na avaliação de David Beker, chefe de Economia para o Brasil e estrategista para a América Latina do Bank of America (BofA), o país deixou de reunir uma série de fatores que favoreciam a entrada de capital estrangeiro, enquanto outras economias latino-americanas passaram a chamar mais atenção dos investidores.

Segundo ele, no primeiro trimestre, o Brasil concentrava praticamente todos os argumentos positivos para quem buscava exposição à América Latina.

"Os bancos centrais estavam cortando juros, o dólar estava fraco, a região estava longe da guerra, era fornecedora de commodities e, no caso do Brasil, ainda tinha a discussão sobre minerais raros. Todos os argumentos eram positivos."

Esse cenário, porém, mudou ao longo dos últimos meses. O BofA revisou para cima suas projeções para a inflação e para os juros no Brasil, reduzindo também a expectativa de crescimento da economia para os próximos anos.

O banco agora espera inflação de 5,5% em 2026 e 4,7% em 2027, além de Selic encerrando este ano em 14,25%, sem novos cortes em 2026. Ao mesmo tempo, diminuíram as expectativas de novos estímulos para a economia e aumentaram as incertezas em torno das eleições presidenciais.

Nem Brasil, nem México lideram a região

Na avaliação do economista, o movimento não é exclusivo do Brasil. O México, tradicionalmente outro grande destino dos investidores estrangeiros na América Latina, também enfrenta um ambiente mais desafiador.

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Segundo Beker, a economia mexicana cresce pouco, o banco central perdeu espaço para reduzir juros diante das incertezas sobre a política monetária americana e o país entrou em um ciclo de revisões negativas pelas agências de classificação de risco.

Além disso, a renovação anual do acordo comercial com os Estados Unidos e o Canadá (USMCA), em vez de uma extensão mais longa, aumentou a incerteza para empresas que planejavam novos investimentos no país.

"Os dois principais países da região estão com seus próprios problemas."

Peru, Colômbia e Argentina entram no radar

Com Brasil e México enfrentando desafios domésticos, investidores passaram a olhar com mais atenção para outros mercados latino-americanos.. Segundo Beker, Peru, Colômbia e Argentina registraram aumento no interesse dos investidores estrangeiros, enquanto o Chile continua sendo beneficiado por um movimento iniciado no ano passado.

A principal razão é política. "Onde o pessoal está mais interessado? Nos países que tiveram eleições recentes", diz. Na avaliação do economista, esses mercados passaram a ser vistos como destinos com maior potencial de crescimento, diante da expectativa de políticas econômicas mais favoráveis ao investimento privado.

Na Argentina, por exemplo, investidores acompanham projetos ligados aos setores de petróleo e gás. No Chile, o interesse está relacionado ao cobre, enquanto Peru e Colômbia também despertam atenção pela perspectiva de expansão dos investimentos.

Apesar disso, Beker ressalta que esses mercados possuem liquidez muito menor que Brasil e México e, por isso, não conseguem absorver integralmente uma eventual redução de exposição aos dois maiores mercados da região.

Eleição brasileira gera volatilidade, mas ainda não define investimentos

Para o economista, o cenário eleitoral brasileiro já influencia os mercados, mas ainda está longe de servir como base para decisões estruturais de investimento. "O mercado já está operando eleição", pontua.

Segundo ele, pesquisas eleitorais e notícias políticas provocam movimentos de curto prazo, mas ainda há muitas incertezas. "Não dá para construir uma tese de investimento em cima disso", comenta.

Beker lembra que os candidatos ainda não estão oficialmente definidos e que a campanha deve ganhar tração apenas após a Copa do Mundo e as convenções partidárias. "Uma coisa é operar uma pesquisa. Outra é montar uma posição estrutural", aponta.

Fiscal continua sendo desafio, mas não assusta estrangeiros

Embora considere inevitável que o próximo governo tenha de promover algum ajuste nas contas públicas, Beker afirma que o investidor estrangeiro passou a relativizar o risco fiscal brasileiro.

Segundo ele, o aumento do endividamento em diversas economias fez com que o Brasil deixasse de ser visto como uma exceção.

"Quando a gente fala com o estrangeiro, ele diz: 'Todo mundo tem problema fiscal'. Antigamente era 'o Brasil tem problema fiscal'. Hoje é 'todo mundo tem problema fiscal'. Então não existe uma grande preocupação do estrangeiro com a questão fiscal do Brasil."

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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