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Sacre Investimentos
Economia
03/07/2026
4 min

Bolsa brasileira segue sem gatilhos para subir; juros nos EUA e fluxo para IA pesam sobre mercado, diz Bank of America

Bolsa brasileira segue sem gatilhos para subir; juros nos EUA e fluxo para IA pesam sobre mercado, diz Bank of America

Apesar da recuperação recente do Ibovespa, a bolsa brasileira ainda carece de um gatilho capaz de sustentar uma valorização mais consistente. Para David Becker, chefe de economia no Brasil e estratégia para América Latina do Bank of America (BofA), o principal problema hoje não é o valuation, mas a falta de catalisadores capazes de atrair fluxo para os ativos locais.

“A minha preocupação hoje com o mercado acionário brasileiro é a falta de trigger“, afirmou durante coletiva de imprensa.

Segundo Becker, embora as ações estejam mais baratas do que há alguns meses, isso não significa que o mercado tenha se tornado uma oportunidade clara de compra.

Na avaliação do economista, o ambiente continua sendo desfavorável para ativos brasileiros. Além da redução das expectativas de cortes da Selic, o mercado convive com um cenário global de elevada incerteza e com a concentração dos fluxos internacionais em empresas ligadas à inteligência artificial nos Estados Unidos.

Fed pode retirar ainda mais recursos dos emergentes

Outro fator de atenção é a política monetária americana. O BofA mantém uma projeção mais dura do que a do mercado e espera três altas de juros pelo Federal Reserve ainda neste ano, movimento que, se confirmado, tende a fortalecer o dólar e reduzir o apetite por ativos de países emergentes.

Segundo Becker, embora os dados recentes, como o payroll mais fraco, tenham aumentado o risco de esse cenário não se concretizar, a possibilidade continua no radar e representa um dos principais riscos para mercados como o Brasil.

Além disso, ele lembra que boa parte do fluxo internacional continua migrando para empresas de tecnologia e inteligência artificial, deixando mercados como a América Latina em segundo plano.

“Normalmente, toda vez que há um fluxo para tecnologia ou IA, a América Latina acaba tendo underperformance.”

Eleição gera volatilidade, mas não afasta o investidor estrangeiro

Embora o calendário eleitoral brasileiro comece a ganhar espaço nas discussões do mercado, Becker avalia que a eleição ainda não é o principal fator para explicar a cautela dos investidores.

Na visão dele, o estrangeiro acompanha o cenário político, mas está muito mais preocupado com o ambiente global do que propriamente com quem vencerá a disputa presidencial.

“O estrangeiro não tem medo do Lula. Ele já conhece o Lula”, destacou durante a sua fala.

Para o economista, o investidor internacional está atento principalmente à política econômica que será implementada após as eleições, especialmente na área fiscal.

“O que importa é se vamos ter uma melhora da credibilidade fiscal. Se isso acontecer, os juros podem cair mais e aí você tem um upside muito maior para os ativos”.

Becker também ponderou que ainda é cedo para construir teses estruturais baseadas nas pesquisas eleitorais: “A eleição começa para valer depois da Copa. Até lá, é muito difícil ter convicção”.

Segundo ele, o mercado deve continuar reagindo às pesquisas e ao noticiário político, mas sem assumir posições relevantes de longo prazo. Ele destaca que há dúvidas inclusive ainda sobre quem irá concorrer, já que diversas polêmicas envolvendo os possíveis candidatos estão em diversas manchetes.

Como se posicionar

Em um ambiente marcado pela falta de gatilhos para a bolsa e por elevada incerteza, o Bank of America afirma que mantém uma postura mais conservadora na renda variável brasileira.

Segundo Becker, a carteira da instituição segue concentrada em empresas de maior liquidez, principalmente bancos, que tendem a navegar melhor em diferentes cenários macroeconômicos. “Nosso portfólio é um portfólio conservador”, avalia.

Além do setor financeiro, o banco também mantém exposição ao segmento de shopping centers, enquanto reduziu sua preferência por empresas de utilidade pública.

A mudança reflete a avaliação de que parte das empresas de energia elétrica e saneamento já não oferecem o mesmo potencial de valorização após a forte alta acumulada nos últimos meses. “Utilities estão caras”, observa.

Na visão de Becker, o momento também não favorece uma aposta mais agressiva em empresas domésticas de menor capitalização.

Apesar de reconhecer que muitas small caps negociam com desconto, ele afirma que ainda falta um catalisador capaz de destravar esse valor, especialmente porque o fluxo de recursos continua concentrado nas ações mais líquidas da bolsa.

“Está descontado? Está. Mas é difícil fazer essa aposta porque é um play mais doméstico”.

O economista lembra que o principal comprador da bolsa brasileira continua sendo o investidor estrangeiro, que, quando aumenta posição no Brasil, normalmente privilegia os papéis com maior peso nos índices.

Ao mesmo tempo, os investidores locais seguem reduzindo exposição à renda variável. Segundo Becker, a indústria de fundos de ações continua registrando resgates semanais, enquanto os recursos migram para aplicações de renda fixa, favorecidas pelo nível elevado da Selic.

“Enquanto o juro estiver em dois dígitos, a situação para a indústria de fundos doméstica continuará muito desafiadora”.

AutorJuliana Caveiro
FonteMoney Times
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