Bolsa brasileira virou antítese da IA, diz analista da EQI: 'ovos de volta à cesta'
Tese da tecnologia volta a 'drenar' recursos de emergentes e de empresas de valor, como as listadas na B3

O Brasil se transformou na antítese da inteligência artificial quando o assunto é bolsa de valores. A frase é de João Zanott, analista de ações da EQI, durante painel na Money Week e resume o comportamento do investidor estrangeiro nos últimos anos. Quando a tese de IA perde força lá fora, o capital global vai atrás de empresas de valor e encontra na B3 uma vitrine de companhias que, ainda por cima, estão baratas. Quando a IA reacende, esse mesmo dinheiro é sugado de volta para os Estados Unidos e o Brasil fica para trás.
É o que está acontecendo agora. "O investidor colocou todos os ovos na cesta da IA novamente", afirmou Zanott em painel ao lado de João Neves, estrategista em ações da EQI. Depois de um primeiro trimestre difícil para as empresas de tecnologia americanas, o trade de IA voltou a ganhar tração em meados de abril e ganha força toda vez que a tese se prova em números robustos das companhias.
Entre o início de janeiro e 14 de abril, dia em que a bolsa atingiu a máxima de 198 mil pontos, o investidor estrangeiro colocou cerca de R$ 69 bilhões na B3, segundo os dados de fluxo da bolsa. A partir do pregão seguinte, o sinal virou. De 15 de abril até o fim de agosto, o estrangeiro retirou mais de R$ 51 bilhões, desfazendo boa parte do que havia empurrado o índice para cima. A pressão vendedora se intensificou em agosto, com saídas superiores a R$ 4 bilhões em um único pregão.
No acumulado de 2026, de 2 de janeiro a 26 de agosto, o fluxo estrangeiro está positivo em cerca de R$ 17,7 bilhões.
Ou seja: dos quase R$ 69 bilhões que entraram até o pico de 14 de abril, o estrangeiro já devolveu a maior parte. O saldo do ano é de um quarto do que havia sido acumulado na máxima.
A bolsa hoje também opera patamar bem inferior ao pico.
Quem apanhou mais
A leitura de Neves e Zanott é de que os fundamentos das empresas brasileiras não pioraram na mesma proporção da queda das ações. O que mudou foi o fluxo. E o fluxo estrangeiro não compra a bolsa inteira: concentra-se nas ações de maior liquidez, o chamado kit Brasil, com nomes como Petrobras, Vale, Itaú e Bradesco. Quando o estrangeiro entra, só as maiores conseguem absorver esse volume.
O resultado é uma distorção. As blue chips, que respondem pela maior fatia do Ibovespa, subiram muito mais do que a média das demais companhias. A discrepância fica evidente na comparação entre o Ibovespa e o índice de Small Caps. De dezembro de 2023 até agora, o índice das menores acumula queda, enquanto o Ibovespa sobe. "Raramente se viu uma diferença tão grande de desempenho entre os dois desde a criação dos índices", observa Neves. Historicamente, o Small Caps negocia com prêmio sobre o Ibovespa na maior parte do tempo. Hoje a realidade é outra.
As empresas de menor capitalização enfrentam o cenário macroeconômico mais adverso e, ao mesmo tempo, não têm o comprador estrangeiro por perto por uma questão de tamanho. Também não contam com o investidor local, que largou a bolsa e está refugiado na renda fixa, com o CDI rendendo dois dígitos ao ano.
O risco de escolher errado
O desconto abre oportunidades, mas exige cautela. Muitas dessas ações negociam a sete, oito vezes o lucro, patamar que em condições normais seria impensável para companhias consolidadas e lucrativas. O problema é que o preço baixo também carrega um recado: parte do mercado está dizendo que algumas dessas empresas não vão sobreviver ao próximo ciclo, afirmam os analistas da EQI. Não à toa, as maiores baixas do Ibovespa em episódios recentes de correção foram justamente as companhias mais endividadas.
"No varejo, uma alavancagem de uma vez e meia a duas vezes o Ebitda já acende o sinal amarelo. Numa companhia de infraestrutura ou de utilidades públicas, que tem receita contratada, três vezes ainda é confortável", explica Zanott. Empresa com caixa líquido, com mais caixa do que dívida, é uma escolha mais certeira para investir nesse cenário.
O raciocínio é que a companhia pouco endividada consegue atravessar uma recessão mesmo com a lucratividade em baixa. Quando o ciclo virar, ela ganha mercado e recompõe a receita. A endividada pode ficar pelo caminho. Para os analistas, hoje, dá para escolher qualidade sem correr atrás de teses alavancadas.
O exemplo que voltou várias vezes ao painel foi o da Vulcabras, fabricante de calçados esportivos. A companhia cresce há 20 trimestres seguidos, paga dividendos, tem dívida líquida na casa de 0,5 vez o Ebitda e opera num setor com vento a favor, o do consumo ligado à prática de esportes. Mesmo assim, negocia a cerca de sete vezes o lucro.
"Essa empresa a sete vezes lucro vai deixar saudade", disse Neves, ao apostar que a conta muda quando os juros voltarem a um patamar mais saudável.
A saída das small caps passa pelo juro
Se o estrangeiro é agnóstico, como resume Zanott, e tende a seguir olhando mais para a IA e para temas de fora, a recuperação das small caps depende quase inteiramente do investidor local. Uma companhia que vale menos de R$ 1 bilhão sequer comporta o cheque do investidor internacional, que precisa de liquidez para entrar e sair.
E o gatilho para a volta do local não é outro além da queda de juros, diz Zanott.
Com o free float cada vez menor, em função de uma série de OPAs, a bolsa está "muito leve" em termos de fluxo, dizem os analistas. Por um lado, isso tende a limitar a oferta quando os locais voltarem. Por outro, deixa o mercado suscetível a fluxos estrangeiros.
O dado usado pelos analistas da EQI para falar do potencial para a bolsa brasileira são os "cerca de R$ 15 trilhões parados em CDI".
"Uma migração de 1% ao ano do que está no CDI pra Bolsa já faz um impacto muito grande", diz Neves. Não à toa, parte do mercado ainda enxerga espaço para o Ibovespa avançar bem além dos níveis atuais num cenário de juros mais baixos.
