Bolsa no segundo semestre: ainda dá para sonhar com os 200 mil pontos?

Em meio a Selic alta, é difícil imaginar uma guinada na renda variável. Mas foi exatamente isso que aconteceu até abril deste ano — o Ibovespa esbarrou nos 200 mil pontos. Não foi um único fator isolado que impulsionou o principal índice de referência da B3 e, sim, um conjuto de vetores. Todos eles, somados, resultaram numa forte entrada de capital estrangeiro por aqui.
Em janeiro, houve uma explosão de montantes gringos: R$ 26,31 bilhões. Entretanto, na sequência, a entrada desses valores diminuiu, até que em maio e junho a captação líquida ficou negativa. Não foi o suficiente para que o ano ficasse no vermelho — sem considerar IPOs e follow-ons, até 22 de junho, o Brasil atraiu R$ 35,17 bilhões de capital estrangeiro.
Porém, o vai e vem de gringo na bolsa foi o suficiente para levar o Ibovespa para a casa dos 170 mil. Ainda está acima do que começou o ano, é fato, de 161.125 para 172.024, mas está longe das máximas vistas em 2026. No ano, o Ibov sobe 6,76%. Porém, no começo de 2026, ele chegou a subir 18% — frente os 34% de 2025. Atualmente, alguns rankings colocam o índice como um dos mais baratos do mundo.
Neste cenário, o que esperar daqui para frente? É um risco ou oportunidade investir no Ibovespa?
Dos 200 mil aos 170 mil pontos: o que aconteceu?
Para entender o porquê a bolsa alcançou os 200 mil pontos neste ano, é necessário dar um passo para trás. No ano passado, o conhecido ‘Liberation Day’, quando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, taxou diversos países com tarifas de imporação, fez com que os investidores ficassem receosos em relação à administração de Trump.
“Naquele momento, entendeu-se que a diversificação era importante, então vimos recursos de estrangeiros entrando aqui, fazendo com que no segundo semestre o Ibovespa subisse 35 mil pontos. Tudo isso coincidiu com uma bolsa descontada, ao redor de 7x P/L”, explica Ricardo Peretti, estrategista do Santander corretora.
Isso fez com que houvesse uma rotação, com investidores saindo um pouco dos Estados Unidos e indo para mercados emergentes, o que beneficiou o Brasil. E, apesar da alta acumulada em 2025, o índice ainda rodava com desconto em relação à média histórica, o que deixava uma ‘gordura’ em termos de valuation para a bolsa subir um pouco mais.
Somado a isso, veio um fator crucial para o salto do Ibov: a Guerra no Irã. Em momento de crises geopolíticas, as incertezas predominam, o que faz os investidores fugirem da renda variável e se escorar na renda fixa.
Ela seguiu atraindo os investidores, mas a bolsa local também se tornou atrativa neste momento. Isso porque o Brasil estava longe geograficamente do conflito, é exportador de petróleo (que dobrou de preço durante a guerra) e pouco exposto a inteligência artificial (IA), num momento em que se discutia sobre bolha.
“Havia também expectativa de queda de juros no Brasil e nos Estados Unidos (EUA), dólar mais comportado e melhora das commodities. Não diria que foi apenas otimismo exagerado, mas o movimento ficou muito dependente de fluxo externo e de um cenário benigno demais”, comenta Leandro Martins, especialista em renda variável no Inter.
Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde Asset Management, complementa que, para além do Brasil barato, o principal vetor foi a liquidez internacional buscando múltiplos atrativos fora dos mercados desenvolvidos.
“Isso ajuda a explicar por que as big caps se destacaram mais do que as small caps: o fluxo estrangeiro normalmente entra primeiro pelos ativos mais líquidos. Então havia fundamento, porque a bolsa brasileira negociava com desconto, mas o movimento também teve um componente importante de liquidez global”, diz.
Mas, em meados de abril, o cenário mudou. Houve uma realização de lucros e uma rotatividade de novo para os EUA, devido ao fortalecimento da tese de IA, com Nvidia (Nasdaq: NVDA) publicando resultados fortes.
As consequências da Guerra no Irã também começaram a aparecer. O choque inflacionário causado pela alta do petróleo fez com que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) mantesse os juros na faixa entre 3,50% e 3,75%. A tese da Selic em 13% também foi revista. Juros mais altos atraem capital para a renda fixa, o que impacta diretamente a renda variável, levando a bolsa para os 170 mil pontos.
“Mas o ponto central não é apenas a taxa curta nos Estados Unidos, mas a persistência dos juros longos em patamar elevado, que reduz o apetite por risco e aumenta o custo de oportunidade para mercados emergentes. No Brasil, a lógica é parecida: mais do que a Selic corrente, o que pesa sobre a bolsa é a taxa longa. Se o mercado passa a exigir prêmio maior para financiar o país, o valor presente dos ativos de risco cai”, destaca França.
Ainda segundo França, proximidade das eleições, a percepção de maior risco fiscal e o aumento da probabilidade de continuidade de uma política pouco austera também prejudicam as expectativas com ativos brasileiros.
O que esperar da bolsa daqui para frente?
Os analistas avaliam que a bolsa deve continuar sensível a uma combinação de fatores domésticos e externos nos próximos meses. Entre os principais vetores estão o cenário fiscal, as eleições de 2026, o comportamento dos juros no Brasil e nos Estados Unidos, a entrada de capital estrangeiro e o desempenho da inflação.
Segundo Peretti, a trajetória da Selic continuará influenciando os ativos. "Se o petróleo permanecer estável ou continuar caindo, pode abrir uma nova janela para revisões nas expectativas de inflação e juros. Quanto mais espaço houver para cortes na Selic, maior tende a ser o potencial de valorização da bolsa."
Ele acrescenta que o cenário eleitoral deve ganhar peso a partir de agosto, quando as chapas estiverem definidas. "Hoje o mercado precifica parcialmente essa história, mas a partir de agosto a precificação tende a ficar mais intensa."
Na avaliação de França, uma recuperação mais consistente da bolsa depende principalmente de uma melhora na percepção sobre as contas públicas.
"Para o Ibovespa retomar patamares mais altos, precisa haver um direcionamento mais claro na busca por equilíbrio fiscal. Isso ajudaria a reduzir o prêmio de risco, permitiria uma queda mais consistente dos juros longos e beneficiaria os ativos de risco", aponta.
Ele pondera que, embora as ações brasileiras estejam negociando com desconto em relação à média histórica — em torno de 8,2x P/L, isso, por si só, não garante novas altas. "Valuation sozinho não destrava mercado. A queda da taxa longa é o principal canal para melhorar o custo de capital e aumentar o valor presente dos lucros das empresas."
Os analistas também convergem na avaliação de que o momento exige seletividade. França afirma que "é uma oportunidade seletiva, não indiscriminada", já que fatores como juros, cenário fiscal, eleições e resultados das empresas continuam pressionando os preços dos ativos.
Na mesma linha, Martins avalia que a bolsa pode voltar a níveis mais elevados caso haja uma combinação de fatores positivos. "Isso pode ocorrer se houver alívio nos juros americanos, queda mais clara da inflação, melhora fiscal e retomada do fluxo estrangeiro. Mas a volta aos recordes exige combinação de fatores positivos, não apenas valuation barato."
Para investidores com horizonte de médio e longo prazo, porém, Martins enxerga espaço para oportunidades. "Vejo mais oportunidade do que risco para quem tem horizonte de médio e longo prazo. O risco é comprar índice sem critério; a oportunidade está em boas empresas, com lucros resilientes, desconto relevante e menor dependência do ciclo político."
Maiores altas e quedas do Ibovespa
De forma geral, as maiores altas do Ibovespa no primeiro semestre se concentraram em empresas ligadas a commodities, energia, petróleo e teses específicas de destravamento de valor. Já as maiores quedas ficaram entre companhias mais sensíveis aos juros elevados, ao endividamento e ao consumo, explica França.
"Entre as altas, Usiminas (USIM5) se beneficiou de uma combinação de melhora operacional, expectativa de recuperação no setor de aço e retomada de ativos cíclicos que estavam muito descontados", afirma.
Segundo França, a valorização da Copasa (CSMG3) teve uma dinâmica mais específica. "A tese de privatização/desestatização foi o principal vetor de alta. O mercado passou a precificar a possibilidade de ganhos de eficiência, melhor governança e melhor alocação de capital."
No caso da Eneva (ENEV3), ele comenta que "o movimento esteve ligado à busca por empresas de energia com geração de caixa mais previsível, além de fatores específicos do setor elétrico e de energia."
Já Petrobras (PETR3; PETR4) e Prio (PRIO3) foram impulsionadas principalmente pelo avanço do petróleo em meio às tensões geopolíticas. O principal vetor foi a alta do petróleo, associada ao aumento do risco geopolítico e à guerra. Quando há risco de interrupção de oferta ou aumento do prêmio geopolítico no barril, empresas produtoras de petróleo tendem a se beneficiar, porque a expectativa de receita e geração de caixa melhora.
“No caso da Petrobras, isso se soma à percepção de dividendos e à liquidez elevada do papel. No caso da Prio, além do petróleo mais forte, há também uma tese de crescimento de produção, o que amplifica a sensibilidade da ação ao preço do barril."
Do lado das perdas, França afirma que o movimento foi quase o espelho do que prejudicou a bolsa como um todo: juros longos mais pressionados, menor apetite por empresas alavancadas ou dependentes de crescimento e maior seletividade do investidor.
Sobre a CSN (CSNA3), ele diz que a companhia "sofreu com preocupação em torno de endividamento, alavancagem, pressão no aço e minério, além de geração de caixa mais desafiadora."
A Magazine Luiza (MGLU3), por sua vez, foi prejudicada pelo cenário de juros elevados. A empresa foi impactada por juros altos, pressão sobre consumo, competição forte no e-commerce e resultado abaixo do esperado. “Empresas de varejo tendem a sofrer bastante quando a curva longa fica pressionada, porque o mercado reduz o valor presente de lucros futuros e fica mais exigente com geração de caixa no curto prazo."
Já Minerva (BEEF3) sofreu com fatores ligados ao ciclo do gado, custos e margens. “Mesmo sendo uma empresa exportadora e globalizada, o mercado passou a exigir mais clareza sobre rentabilidade, alavancagem e geração de caixa", aponta França.
MRV (MRVE3), por sua vez, também foi penalizada pela taxa longa. “Construção civil é um dos setores mais sensíveis ao custo de capital. Mesmo com melhora operacional em alguns indicadores, o investidor continua olhando para juros, custo de construção, margem, geração de caixa e exposição à operação internacional."
Apesar do crescimento das vendas, a Vivara (VIVA3) companhia enfrentou pressão sobre as margens. Os custos avançaram 48,2% em relação ao quarto trimestre de 2024, impactados principalmente pelo menor ritmo de produção e por estratégias comerciais. Como resultado, a companhia encerrou o quarto trimestre de 2025 com resultados mistos e abaixo das expectativas do mercado.
