Bolsas nos EUA vão funcionar durante a madrugada a partir de dezembro: entenda
Iniciativa mira investidores asiáticos com negociação noturna, enquanto críticos veem riscos

As bolsas dos Estados Unidos ficarão praticamente 24 horas por dia com o pregão aberto a partir do dia 6 de dezembro. A Nasdaq reafirmou o plano de lançar uma nova sessão "overnight", das 21h às 4h, no horário de Nova York. Com isso, a bolsa passará a operar 23 horas por dia, cinco dias por semana.
A New York Stock Exchange (Nyse) pretende adotar o mesmo modelo na mesma data. Já a 24X National Exchange também mira o início em dezembro, prazo estimado pelos provedores de dados consolidados do mercado para estarem prontos a operar sob o novo horário.
A mudança, porém, ainda depende de alterações nas regras da Securities and Exchange Commission (SEC), reguladora do mercado de capitais americano.
Negócio pensado para o investidor asiático
Tanto a Nasdaq quanto a Nyse afirmaram à Barron's que a nova sessão é voltada, principalmente, a investidores internacionais, sobretudo os asiáticos. A lógica visa permitir que investidores tenham acesso ao mercado americano durante o horário de luz do dia em seus próprios países.
O diretor de produtos da Nyse, Jon Herrick, explicou o potencial comercial da mudança, que acredita ser algo vantajoso. "Do ponto de vista de oportunidade de negócios, com certeza. Comercialmente, esse é um fator impulsionador muito importante aqui", esclareceu.
Já o vice-presidente sênior de operações estratégicas e políticas públicas da Nasdaq, Chuck Mack, afirmou que a demanda por acesso ao mercado americano deveria ser vista com entusiasmo. "Queremos dar aos investidores acesso aos mercados durante o horário diurno; é realmente disso que se trata."
Mais acesso, mas também mais risco
Para o investidor individual americano, a extensão do horário pode representar uma aposta mais arriscada, conforme fontes ouvidas pela Barron's. A expectativa é de que a nova sessão tenha liquidez menor e preços sujeitos a oscilações mais fortes.
A mudança também significa que investidores americanos poderão acordar diante de notícias capazes de mexer com o mercado e de preços que já tenham mudado durante a madrugada. A partir disso, terão de decidir se reagem ou não durante o horário estendido.
O professor da cátedra Brainerd Currie na Duke University School of Law e especialista em direito societário e do mercado de capitais, James Cox, vê que bancos de investimento devem se adaptar rapidamente à nova estrutura, o que pode ampliar a desvantagem do investidor individual.
"Acredito que haverá uma curva de aprendizado, e que essa curva será relativamente curta para que os bancos de investimento explorem o mercado de menor liquidez por meio de atividades de arbitragem", pontuou.
"Se perceberem que haverá disparidades de preços significativas, eles trabalharão para aproveitá-las", acrescentou o docente, que pondera ainda que o risco adicional da sessão pode estimular o mercado de derivativos como forma de equilibrar a exposição.
Bolsas criam barreiras contra oscilações
Para tentar conter movimentos abruptos de preços durante a sessão noturna, as bolsas e a SEC criaram limites de variação válidos para todo o mercado. De acordo com a Nyse, as regras restringem, na prática, variações superiores a 20% em relação a um preço de referência.
"Trata-se de uma forma de proteção ao investidor semelhante e mais robusta, que está sendo estendida a esses horários, e acredito que há um interesse direto de muitos em continuar fazendo ajustes pontuais para reforçar essa proteção ao investidor", segundo Herrick.
Outra salvaguarda será uma pausa de uma hora, das 20h às 21h, todos os dias. As bolsas descrevem o intervalo como uma espécie de janela de segurança, que também permitirá verificar se os sistemas estão funcionando corretamente.O diretor de política de valores mobiliários da organização de defesa do investidor Better Markets, Benjamin Schiffrin, alertou, porém, que os investidores precisam entender que os preços obtidos durante as sessões estendidas não serão necessariamente os mesmos encontrados no horário normal de pregão.
Caberá ao investidor americano equilibrar os riscos e as oportunidades trazidos pela mudança. Entre os possíveis benefícios estão a atração de mais participantes para o mercado e a possibilidade de tornar a negociação fora do pregão tradicional mais regulada do que é hoje.
Um ensaio para um mercado sem fechamento
O movimento das bolsas pode ser mais do que uma simples ampliação do horário de negociação. Ele é visto como um ensaio para uma mudança ainda maior, de um mercado acionário que funcione 24 horas por dia.
A SEC já agendou uma mesa-redonda para o dia 17 de setembro dedicada a discutir a transição para esse modelo. Em declaração de 23 de julho, o presidente do órgão, Paul Atkins, afirmou que os EUA estão "rumo a um novo dia e a uma nova noite" no que diz respeito à negociação de ações.
À Barron's, a Nasdaq afirmou que, por enquanto, está concentrada em viabilizar a implementação das 23 horas antes de avançar para a negociação 24 horas por dia, sete dias por semana.
"Observamos que a tendência é para mercados contínuos e sempre ativos, e essa tendência é clara, portanto, a compreendemos. No entanto, o ritmo e a estrutura dessa evolução precisam ser guiados pelos princípios que norteiam nossas atividades diárias", ponderou Mack.
Para Schiffrin, no entanto, há um risco vai além da questão prática. "O problema de se pressionar por negociações 24 horas por dia, 7 dias por semana, é que, de repente, a bolsa de valores se transforma em um cassino" afirmou. "Apenas um lugar para especular, e não para investir", acrescentou.
*Com informações da Barron's
