Bradesco (BBDC4) vai reforçar balanço em até R$ 10 bilhões a pedido de controladoras, que garantem até R$ 8 bilhões; entenda a operação
Bradesco reforça capital com até R$ 10 bilhões para impulsionar investimentos em tecnologia e expansão, com compromisso firme vindo das acionistas controladoras

A poucos dias da divulgação do resultado do segundo trimestre, o Bradesco (BBDC3;BBDC4) anunciou que pretende reforçar o balanço com um aumento de capital de até R$ 10 bilhões.
Esse aumento não é aberto ao mercado: a subscrição é privada, mas já conta com demanda das acionistas controladoras, as filhas e herdeiras de Amador Aguiar. Elas são acionistas por meio do grupo formado por Cidade de Deus, NCF, Nova Cidade de Deus e Fundação Bradesco, que controla 72% das ações com direito a voto e 37% do capital total.
As acionistas assumiram o compromisso firme de entrar com até R$ 8 bilhões. Segundo o fato relevante divulgado ao mercado, "as acionistas controladoras têm o legítimo interesse de continuar investindo no banco, onde salientam e reiteram sua elevada confiança no plano de transformação que está em andamento".
Segundo o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, o pedido veio das próprias acionistas. "Nossas acionistas controladoras são bem capitalizadas e resolveram aumentar seu investimento no banco", disse ele em mensagem por áudio enviada ao site de relações com investidores do banco.
De acordo com ele, as acionistas decidiram aplicar mais capital na instituição depois que o retorno sobre o patrimônio (ROE) ter superado o custo de capital desde o último trimestre de 2025. Além disso, segundo ele, elas projetam uma queda na Selic neste ano e no próximo.
Como esse dinheiro será usado
"Esse aumento de capital será dinheiro novo que entrará, impulsionando ainda mais a nossa capacidade de execução da transformação, seus investimentos e nossa capacidade de crescimento", disse Noronha.
"Como mencionei na última divulgação de resultados, quando falei sobre os benefícios da criação da BradSaúde, ter mais capital é bom, ainda mais quando os controladores reforçam a confiança na instituição."
Com isso, o banco pode continuar investindo. “A administração da sociedade acredita que um aumento de capital no valor de até R$ 10 bilhões possibilitará o reforço na sustentação do ritmo célere em investimentos estratégicos, mediante a ampliação de investimentos relevantes em tecnologia, eficiência comercial, expansão dos negócios, bem como o compromisso institucional com financiamento sustentável”, afirmou o banco, em fato relevante.
Detalhes do aumento de capital do Bradesco
O aumento de capital se dará com emissão de novas ações aos preços de R$ 15,43 por papel ordinário e R$ 17,64 por título preferencial. A título de comparação, a ação ordinária do Bradesco encerrou o último pregão a R$ 16,04 e a preferencial a R$ 18,35.
O banco afirmou que houve aplicação de deságio de 6%, “que tem por finalidade incentivar os acionistas a participarem do aumento de capital”.
Com essa operação, haverá acréscimo de aproximadamente 0,9 ponto percentual no seu capital principal, que se somará ao índice de Capital Principal pro forma de aproximadamente 12,7%, disse o banco.
JCP à vista
A empresa anunciou, ao mesmo tempo, o pagamento de R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio (JCP) já declarados, cujo repasse agora está previsto para ocorrer em 15 de setembro. Esse valor foi adiantado e seria pago em outubro de 2026 e janeiro de 2027.
O pagamento bruto corresponde a R$ 0,586 por ação ordinária e R$ 0,644 por papel preferencial.
Esse pagamento de JCP pode ser usado pelos acionistas para participar do aumento de capital, ao aderir ao direito de preferência na integralização de ações. Para quem optar por não participar do aumento de capital, a diluição máxima esperada é de 3,4%, segundo a XP.
Como os analistas viram a operação
Para o BTG Pactual, é um anúncio positivo, "já que melhorar a geração de capital tangível é um pré-requisito chave para termos uma visão mais construtiva da tese do Bradesco com o tempo", disse em relatório.
O compromisso das controladoras de entrar com a maior parte do volume necessário também elimina o risco de execução. Esse foi um problema em 2015, quando um aumento de capital precisou ser cancelado em 2016 por aumento da instabilidade no mercado e pressão sobre as ações do banco, lembra o BTG Pactual.
A primeira análise do JP Morgan é positiva, com dois benefícios principais: um reforço de capital, com recapitalização vinda da distribuição de dividendos, e um aumento do patrimônio líquido tangível.
Isso permite a utilização de ativos fiscais diferidos (Deferred Tax Assets ou DTAs).
"Vale destacar que o Bradesco possui um elevado estoque de ativos fiscais diferidos, de aproximadamente R$ 120 bilhões. Em um país como o Brasil, onde as taxas de referência estão acima de 14% ao ano, ter um patrimônio líquido tangível maior faz diferença e pode representar uma vantagem competitiva", escreveu o JP Morgam em relatório.
Outra vantagem é ter mais capital para investir em tecnologia e na transformação do banco, iniciada em 2024. "Acreditamos que o conselho de administração e a diretoria do Bradesco estão tomando a decisão correta para o longo prazo", disse o banco.
Para a XP, a estrutura da operação está bem desenhada. Ao mesmo tempo em que preserva os benefícios fiscais do JCP, fortalece a estrutura de capital.
"O timing, no entanto, merece atenção. Um aumento de capital naturalmente levanta questionamentos sobre a capacidade de geração orgânica de capital, especialmente em um momento em que os investidores voltam a concentrar sua atenção no ciclo de crédito e em um ambiente macroeconômico potencialmente mais desafiador", disse a XP em relatório.
Com Money Times
