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Sacre Investimentos
Mercado ImobiliárioACSFII
27/10/2026
4 min

Bradesco dá salto inédito no juro da casa própria e taxa mínima vai a 15% ao ano

Reajuste foge do padrão de ajustes graduais e, na leitura da MySide, funciona na prática como um freio camuflado a novas contratações

Bradesco dá salto inédito no juro da casa própria e taxa mínima vai a 15% ao ano

Um reajuste de 3,3 pontos percentuais de uma só vez levou a taxa mínima de financiamento imobiliário do Bradesco a 15% ao ano, além da Taxa Referencial (TR). Antes, o banco cobrava a partir de 11,7% ao ano mais TR.

Um comunicado a parceiros imobiliários do banco começou a circular nas redes sociais e foi confirmada à EXAME pela MySide, proptech que monitora mensalmente as taxas dos principais bancos do país. A empresa recebeu uma notificação do próprio Bradesco sobre o novo patamar.

O que chamou atenção não foi a direção do movimento, mas o tamanho dele. Em outubro, a EXAME mostrou que as taxas dos grandes bancos estavam concentradas em uma faixa estreita, entre 10,26% e 11,99% ao ano mais TR. Com o reajuste, o Bradesco passa a cobrar cerca de 3 pontos acima do segundo mais caro da lista.

"Ao longo de todos esses anos em que acompanhamos as taxas de financiamento imobiliário dos principais bancos do país, nunca observamos um aumento dessa magnitude", afirmou Paulo Padro, cofundador da MySide e especialista em crédito imobiliário.

Um salto fora da curva

No crédito imobiliário, os bancos costumam ajustar as taxas em passos pequenos, muitas vezes de 0,1 ponto percentual por vez. É isso que torna o movimento do Bradesco atípico.

"Um salto de 11,7% para 15% ao ano, equivalente a 3,3 pontos percentuais, é algo completamente fora do padrão a que estamos acostumados", disse Padro.

O reajuste também vai na contramão dos juros básicos. A Selic caiu pela quinta vez seguida em 16 de setembro, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central a reduziu de 14% para 13,75% ao ano. Com a mudança, a taxa mínima do Bradesco para comprar um imóvel passa a ficar acima da própria Selic.

Na prática, a diferença pesa no bolso. Em uma simulação feita pela EXAME com R$ 500 mil financiados em 30 anos pelo sistema SAC, a primeira parcela sobe de cerca de R$ 6.020 para R$ 7.246. Ao fim do contrato, os juros pagos passam de aproximadamente R$ 836 mil para R$ 1,06 milhão. O cálculo não inclui TR, seguros obrigatórios e tarifas.

Para a MySide, a dimensão do aumento indica que o objetivo não é apenas repassar custo. A leitura da empresa é que o banco adota uma postura defensiva diante das incertezas do cenário econômico.

"Ao elevar a taxa a esse patamar, o Bradesco reduz sua exposição a novas operações de crédito imobiliário e se resguarda diante de possíveis mudanças nas condições de mercado", afirmou Padro.

Na avaliação dele, uma taxa nesse nível torna o financiamento pouco vantajoso para o consumidor, que tende a buscar outro banco. "Na prática, funciona como uma forma de interromper, de forma camuflada, novas contratações."

O próprio especialista pondera que se trata de uma interpretação. "Sem um posicionamento técnico do próprio Bradesco não é possível determinar com certeza o que motivou a decisão", disse.

A EXAME procurou o Bradesco e os demais grandes bancos para comentar o reajuste e eventuais mudanças em suas próprias taxas, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Crédito em alta, poupança em baixa

O movimento ocorre em um ano de forte demanda por financiamento. A concessão de crédito imobiliário somou R$ 180,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 23% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

O dinheiro para bancar essa expansão, porém, ficou mais caro. A caderneta de poupança, fonte tradicional do crédito habitacional, respondia por 34% do funding do setor em dezembro de 2023 e caiu para 29% em dezembro de 2025, segundo dados do Banco Central compilados pelo Bradesco e divulgados em junho.

Com menos poupança, os bancos dependem mais de instrumentos de mercado, como as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), cujo custo acompanha mais de perto os juros da economia.

A Caixa, que concentra a maior parte do crédito habitacional do país, segue com a menor taxa entre os grandes bancos no levantamento da MySide.

A próxima reunião do Copom está marcada para 3 e 4 de novembro, e a decisão sobre a Selic deve servir de referência para as próximas revisões de taxas no setor.

"Não descartamos que outros bancos adotem movimentos semelhantes nos próximos meses", afirmou Padro.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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