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InvestMercadosACS
06/08/2026
6 min

Bradesco vê cenário 'pior' no 2° semestre, evita 'loucura' no crédito e monitora agro

El Niño também entra no radar do banco, mas a instituição diz "não esperar um aumento sensível da sinistralidade"

Bradesco vê cenário 'pior' no 2° semestre, evita 'loucura' no crédito e monitora agro

O CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou nesta quinta-feira, 6, que o cenário econômico do Brasil para o segundo semestre está "pior" e que o banco tem adotado uma postura mais conservadora na concessão de crédito. Ao comentar sobre o balanço com jornalistas, Noronha destacou que a instituição "não está fazendo loucura" e que priorizará operações com garantias, assim como manterpa o agronegócio sob monitoramento por conta do ciclo mais difícil enfrentado pelo setor e dos possíveis efeitos do El Niño.

A avaliação reforça uma mensagem que chamou atenção no balanço divulgado na noite de quarta-feira, 5. No release sobre osresultados financeiros referentes ao 2° trimestre de 2026, o Bradesco destacou de forma explícita uma "deterioração dos riscos no país", citando o cenário descrito pelo Banco Central.

Entre os fatores mencionados estão a Selic ainda elevada em 14,25%,que ontem foi rebaixada para 14% ao ano, o maior comprometimento da renda das famílias, que atingiu 29,3%, e a revisão da projeção de crescimento do PIB de 2026 para 2%.

"O cenário é pior. O comprometimento de renda subiu e a taxa de juro resiliente dessa maneira não tem muito jeito. Você vai pressionar as empresas que têm margem líquida menor", afirmou Noronha na coletiva pela manhã.

Apesar desse ambiente mais desafiador, o executivo afirmou que o banco acredita estar mais protegido do que o restante do mercado por causa da mudança na composição da carteira de crédito. "Não estamos fazendo loucura. Estamos reduzindo o crédito pessoal e fazendo colateralizado, queremos estar no consignado", acrescentou.

Segundo o CEO doa banco, a estratégia é ampliar a exposição a linhas com melhor retorno ajustado ao risco, como crédito consignado, financiamento de veículos e operações garantidas, reduzindo produtos considerados mais arriscados.

Entre abril e junho, as operações com garantias passaram a representar 61% da carteira de crédito, avanço de 2,5 pontos percentuais em 12 meses. No mesmo período, a carteira de consignado privado cresceu 90,1%, enquanto o financiamento de veículos avançou 26,8% e o capital de giro com garantias teve expansão de 21,8%. A carteira expandida total atingiu R$ 1,137 trilhão, alta de 11,6% em relação ao mesmo período do ano passado.

A postura mais conservadora ocorre justamente em um trimestre em que o banco registrou crescimento dos indicadores financeiros. O lucro líquido recorrente alcançou R$ 7,1 bilhões entre abril e junho, alta de 16,2% em um ano e de 3,5% sobre o trimestre anterior, marcando o décimo trimestre consecutivo de expansão. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) subiu para 16%.

Pressão na inadimplência preocupa, mas banco vê efeito temporário

Apesar da melhora nos resultados, o ambiente de crédito segue pressionado. As despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) cresceram 21,4% na comparação anual, para R$ 9,985 bilhões, enquanto a inadimplência acima de 90 dias avançou para 4,3%, alta de 0,1 ponto percentual em relação ao trimestre anterior.

O Safra também apontou em relatório que a qualidade dos ativos "deteriorou-se".

"As provisões ficaram acima do consenso e podem ser ainda maiores se acompanharem de perto a formação de NPLs ou as migrações S2/S3. Isso indica um nível de estresse maior do que o sugerido apenas pela linha de provisões, sem mencionar o aumento de 30 pontos-base em relação ao trimestre anterior nos NPLs de curto prazo", disse o banco.

Questionado se o aumento das provisões indicaria uma preparação para um cenário mais difícil, Noronha descartou essa interpretação. Segundo o executivo, a maior parte da pressão decorre da expansão das linhas garantidas pelos fundos FGO (Fundo de Garantia de Operações) e o FGI (Fundo Garantidor para Investimentos e da carteira rural, especialmente das operações do Banco João Diasa.

"O custo de crédito sobe, mas com essas duas linhas que vão ser curadas. Estamos bem tranquilos em relação a isso", afirmou Noronha.

O CEO do Bradesco explicou que essas operações possuem uma dinâmica diferente das linhas tradicionais. Como contam com período de carência e garantia dos fundos públicos, o banco precisa constituir provisões antes mesmo da honra das garantias, o que eleva temporariamente tanto o custo do crédito quanto os indicadores de atraso. "Continuamos pressionado no over 90 baseado nessas duas linhas", afirmou.

Noronha ressaltou ainda que o crescimento da carteira também gera um aumento natural das provisões, especialmente em produtos como veículos e consignado, sem que isso represente uma deterioração estrutural da qualidade do crédito.

Agro sob monitoramento

Outro tema que ocupou parte da coletiva foi o agronegócio. Segundo Noronha, o setor atravessa um ciclo mais difícil, influenciado pela combinação entre juros elevados, preços de commodities, custos de produção e valorização do real, fatores que afetam principalmente produtores voltados à exportação.

"O agro está passando por um ciclo que não é um bom ciclo", disse. O executivo afirmou que o Bradesco mantém um apetite de risco "bem moderado" para o segmento e não pretende aumentar a exposição enquanto o cenário permanecer desafiador. "Conntinuamos com o mesmo apetite".

O banco encerrou junho com uma carteira de crédito rural de aproximadamente R$ 99,2 bilhões. Além disso, reconheceu que parte da pressão sobre a inadimplência no trimestre veio da sazonalidade das operações do Banco João Dias, cujos vencimentos se concentram justamente entre o segundo e o terceiro trimestre.

Ainda assim, Noronha afirmou que continua vendo potencial de recuperação para o setor e destacou que muitos produtores seguem capitalizados e aproveitando oportunidades de consolidação.

'Super El Niño' entra no radar, mas seguradora vê impacto limitado

Os executivos também comentaram os possíveis impactos do El Niño sobre o agronegócio e os seguros.

Na avaliação de Ney Dias, presidente da Bradesco Seguros, o fenômeno climático não deve provocar uma piora relevante da sinistralidade da companhia. "Não esperamos um aumento sensível de sinistralidade", afirmou aos jornalistas.

Segundo Dias, a diversificação geográfica da carteira e a proteção oferecida pelos contratos de resseguro reduzem significativamente o risco financeiro caso ocorram eventos climáticos mais severos. "Se exceder o que a gente imagina, entra na faixa do ressegurador".

No balanço de 2° trimestre, a sinistralidade dos ramos elementares — segmento que inclui o seguro rural — caiu para 19,7%, ante 27,2% no primeiro trimestre e 26,5% um ano antes. Já a sinistralidade total do grupo segurador ficou em 72,7%, enquanto o resultado operacional da operação de seguros avançou 14,1% no primeiro semestre.

Em maio, o Bank of America (BofA) afirmou em relatório que um possível "Super El Niño", como previsto para este ano e 2027, pode pressionar bancos e seguradoras brasileiras expostos ao setor rural,  aumentando inadimplência, necessidade de provisões e sinistralidade em seguros ligados ao campo e a eventos climáticos extremos.

Nos bancos listados na B3, o Banco do Brasil aparece como a instituição mais vulnerável ao cenário, devido à forte exposição ao agronegócio. Segundo o levantamento, cerca de 33% da carteira de crédito expandida do banco está ligada ao setor rural. Na sequência aparecem ABC Brasil, com exposição de 24%, e Banrisul, com 21%. Mas o BofA também destaca outros bancos, como Bradesco, com 8% de exposição.

AutorClara Assunção
FonteExame
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